Esperando por Biden.

Tensões e angústias perturbam os dirigentes de Israel.
A sonhada anexação de 1/3 da Palestina ocupada- incluindo os principais blocos de assentamentos e parte do vale do rio Jordão- corre perigo.
É uma surpresa dolorosa para Netanyahu e seus aliados.
No princípio, era líquido e certo, Mike Pompeo, o poderoso secretário de Estado, já dera claros sinais da aprovação americana.
Só faltava a formalização oficial pelo presidente.
Mas, ela não vinha. Os dias passavam e o silêncio de Trump começava a soar de forma assustadora.
Eis que, quase na última hora, chegaram da América, em vez de apoios, dúvidas.
Trump temia que a categórica oposição dos países árabes- Arábia Saudita, Qatar, Bahrein, Emirados, Kuwait e Jordânia levantasse
Seus fidelíssimos evangélicos vacilavam. Um dos líderes, Joel C. Rosenberg o preveniu: “Não vejo nenhum entusiasmo entre os eleitores evangélicos por este ato e há um risco de que você perca alguns votos evangélicos, justo nos estados em que você pode estar mais vulnerável.”
Netanyahu e seus parceiros têm pressa. O processo de anexação precisa passar pelo congresso israelense, o que está longe de ser rápido.
Se Trump continuar indeciso muito tempo, chega 3 de novembro, a eleição e… vai que Biden ganha! O democrata é um liberal, provável que refugue.
E, Netanyahu insiste, The Donald perderia essa “oportunidade de ouro” de resolver a questão palestina.
Ingênuo primeiro-ministro, Trump não teme que Biden barre as anexações, mas que barre sua sagrada reeleição.
“Se ele (Trump) não ver um grande benefício eleitoral, pode muito bem dizer ‘bagunçado demais, complicado demais, eu lidarei com isso se me reeleger,” vaticina David Makovsky, do Instituo Washington para a Política no Oriente Próximo.
Há menos de 4 meses da eleição presidencial dos EUA, a cada vez mais provável vitória de Biden está soprando ondas de medo em muitos líderes políticos do mundo, de esperança em outros.
Os israelenses sabem que nem o ex-vice de Obama, nem qualquer outro presidente americano irá cumular Israel de tantos benefícios, quanto o republicano.
No entanto, confiam que, pela experiência histórica, os EUA continuarão sempre ao lado de Israel, criticando apenas certas posições que horrorizem a comunidade internacional, mas se limitando a ataques verbais.
Sanções? Never.
Jamais Biden irá além do que foi Obama. No máximo, poderá pressionar o governo de Jerusalém a se comportar civilizadamente em algumas situações pontuais.
Alguma esperança mesclada com muito pessimismo é o que os palestinos sentem. Abbas, o presidente da Autoridade Palestina, depois de 15 anos de fracassos, aprendeu que não será dos EUA que virá a independência do seu povo.
Por mais indiferente aos problemas palestinos que Biden seja, sempre será muito melhor do que Trump, que caiu como uma nuvem de gafanhotos sobre a Palestina, realizando tudo que Israel quis.
E até mais.
Quem sabe, Biden poderá fazer pressão sobre Israel em alguns casos específicos como, por exemplo, a anexação de 1/3 da Palestina. Afinal, ele já se declarou contrário, seria lógico que agisse para brecar essa ilegalidade, caso, é claro, Trump não a tenha aprovado antes da eleição de 3 de novembro.
Biden também não sairia da casinha se tomasse decisões que fariam Netanyahu rosnar de raiva, em questões como os assentamentos e a independência da Palestina.
O fim da proliferação dos assentamentos e a semi-defunta solução dos 2 Estados independentes são ideias aprovadas por Biden, quando vice de Barack Obama.
Assumindo o governo, ele será coerente se as levar a cabo.
Quanto a situações já estabelecidas como o reconhecimento da anexação do Golã, roubado da Síria, e a transferência da embaixada americana para Jerusalém, nada feito.
O poderoso lobby judaico-americano impediria Biden de fazer retroagir esses atos, apesar de serem flagrantemente ilegais de acordo com o Direito Internacional.
Se no provável despejo de Trump da Casa Branca há um potencial de danos para a política israelense no caso da Palestina, isso não deve acontecer nas atribuladas relações Jerusalém-Teerã.
Netanyahu está tranquilo: como o regime dos aiatolás vem sendo demonizado nos EUA durante os últimos 20/30 anos, Biden terá apoio popular se mantiver-se hostil ao Irã, sua tendência natural, de bom moço, querido dos líderes tradicionais do seu partido.
Sendo um autêntico democrata-soft, ele não deve apreciar a rude retórica dos chefes iranianos, os seus costumes medievais e o censurável hábito de não usarem gravata nem em cerimônias oficiais.
Conforme explicou Anthony Blinken, assessor de Biden em política internacional, o líder democrata deve levar os EUA de volta ao Acordo Nuclear com o Irã, retirando as sanções de The Donald, que estão devastando esse país. Desde que, ao mesmo tempo, os iranianos aceitem a confecção de um novo acordo, mais forte e mais longo.
E Blinken completou: “Penso que teremos uma chance decente de consegui isso porque nossos parceiros (Reino Unido, França, Alemanha, Rússia e China) ficarão conosco… é muito mais provável que se associem a nós para tentar impedir outras ações do Irã que consideremos reprováveis (The National Interest, 20-06-2020).”
Vejo aí uma clara referência ao objetivo de proibir os iranianos de prosseguirem seu programa de mísseis balísticos intercontinentais, decretado pelo Conselho de Segurança da ONU, temendo uma nuclearização.
O Irã respondeu, afirmando que os mísseis não são nucleares, mas essenciais à sua defesa. Os EUA replicaram que poderiam ser adaptados para carregarem bombas atômicas, ameaçando até a Europa.
A verdade é que, sem eles, os iranianos não teriam como enfrentar eventuais bombardeios executados por Israel ou pelos EUA, pois sua força aérea é muito inferior às dos inimigos.
Rouhani, o moderado presidente do Irã, torce para que a discussão dos mísseis intercontinentais fique para depois da eleição dos EUA. Se der Biden, haveria chances de se chegar a um meio termo palatável. Ele não iria querer começar seu governo com novos conflitos bélicos no Oriente Médio.
O certo é que um final feliz depende da ocorrência de muitos fatos positivos: decisão da questão ficar para depois das eleições – vitória de Biden – Biden decidir ser brando.
Qualquer furo nessa relação vai fazer os EUA e a Europa baterem de frente com o Irã.
E com a feroz linha dura iraniana, que acaba de vencer as eleições para o parlamento. Tornou-se muito mais poderosa.
Eles não são de levar desaforo para casa.
Netanyahu conta com uma reação violenta desse pessoal turbulento para tornar viável seu desejo de atacar o Irã, ombro a ombro com Tio Sam.
A Arábia Saudita, outro fraternal amigo da América de Trump, não vê com bons olhos a possível substituição dele por Joseph Biden.
O líder democrata, sob influência da ala progressista do partido, já declarou que não haverá mais tapete vermelho para o governo do rei Salman e do seu filho dileto, que tem o codinome de MBS.
Chega de carinhos para esses notórios violadores dos direitos humanos.
Se eleito, Biden prometeu parar de abastecer os sauditas com armas e armamentos para alvejarem áreas civis na guerra do Iêmen.
Nada bom para o país do petróleo, pensam pai e filho.
Mas, estão longe de perderem as esperanças na continuidade do love affair EUA- Arábia Saudita.
Tem suas razões, aliás de peso: são o maior cliente das empresas de armas dos EUA, enfiando anualmente bilhões de dólares nas ávidas carteiras dessa turma que, por sua vez, tem o mais poderoso lobby do país.
Além disso, os sauditas são aliados exemplares na guerra contra os anseios iranianos de hegemonia no Oriente Médio. Lideram vários países no Golfo Pérsico, todos hospedeiros de bases americanas aéreas, terrestres e navais.
Não se trata mal um amigão assim, refletem o pai Salman e o filho MBS. Os direitos humanos, algo abstrato, não valem a renúncia a negócios sólidos e amorosamente lucrativos.
O pouco apreço a direitos humanos é comungado pela Venezuela de Maduro e pelo Brasil, de Bolsonaro.
O governo do sucessor de Chaves não espera muita coisa de Biden na Casa Branca. No máximo, uma linguagem mais contida, mas a reprovação será a mesma disparada por Trump.
Acho que The Donald não fará falta ao Brasil.
A amizade de Trump e Bolsonaro produziu muito mais vantagens aos EUA do que ao nosso país.
O auto -proclamado “mito” espera a chegada de Biden ao poder como algo maligno.
Porém, embora, olhando enviesado para Bolsonaro, o democrata o tratará com o respeito que um presidente do Brasil merece. No entanto, não deve deixar de pressioná-lo a proteger a Amazônia, os índios e os direitos humanos.
Já os governos da Europa vêm uma vitória de Biden como um refrigério na convivência de seus países com os EUA.
Nada poderia ser pior do que a atual, em que The Donald, de sanções em punho, dá ordens ao mundo, a partir da Casa Branca ou de Mar-a-Lago.
Entre todas nações, acredito que somente as da Europa esperam a provável vitória de Biden como uma chegada antecipada de Papai Noel.
Com Trump, a hegemonia mais ou menos benigna dos governos anteriores dos EUA foi substituída pela arrogância unilateral do America, first, que aboliu instituições multilaterais fundamentais à Europa e a toda a comunidade internacional.
Em nome de mesquinhos interesses, Trump retirou os EUA do Acordo de Paris, da UNESCO, da Organização Mundial da Saúde, do Comitê de Direitos Humanos da ONU e do Acordo Nuclear com o Irã, além de ameaçar cair fora da OTAN e do NAFTA, caso suas exigências não fossem atendidas.
Com a queda de Trump, a União Europeia acredita que Biden irá refazer os laços cordiais antes existentes entre seus países e os EUA, desfeitos pelo atual morador da Casa Branca.
E passe a tratar seus dirigentes de igual para igual (em termos, é claro) respeitando as leis do Direito Internacional e a justiça, que todos (ou quase todos) os países lutaram tanto para construir, tendo em vista a paz e a segurança da humanidade.
Agora todas estas esperanças e apreensões terão sido em vão se, inesperadamente, Donald Trump vencer.
Diante de um perigo assim, espera-se que Deus seja americano.

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