Os escravos da Copa.

Eles foram recrutados em países pobres da Ásia:  Índia, Nepal, Filipinas, Sri Lanka, Paquistão, Bangladesh…

Acenavam com bons salários, condições de trabalho dignas.

E eles vieram, 503.513 trabalhadores vieram para construir os maravilhosos estádios da Copa do Mundo de 2022, no Qatar.

Não encontraram nada do que fora prometido.

Foi o  contrário, segundo o relatório da Anistia Internacional, “O Lado Negro da Migração: Foco no Setor de Construção do Qatar para a Copa do Mundo”, baseado em inspeções realizadas em outubro  de 2012 e em março de 2013.

Parte dos trabalhadores migrantes são vítimas de trabalho forçado, uma forma moderna de escravidão, tratados de forma brutal pelos subempreiteiros das principais construtoras dos estádios e da infra estrutura.

O relatório da Anistia denuncia a existência de alojamentos de trabalhadores super habitados, cheios de detritos e algumas vezes sem água corrente.

Em muitas obras a Aliança verificou que os trabalhadores estão sempre devendo dinheiro à empresa –  pela viagem de seus países, compras no armazém da firma e outras despesas – o que os impede de deixar o trabalho e voltar para casa.

No Qatar vigora o sistema de Kafala, tornando os empregados dependentes dos empregadores que os trouxeram ao país e que retêm seus passaportes.

Caso queira deixar o emprego e voltar para sua terra, o empregado só recebe seu passaporte de volta se for do interesse da empresa.

A Anistia tem documentado um caso em que uma construtora em apuros financeiros deixou seus trabalhadores em acomodações sem eletricidade e água corrente, com esgoto jorrando pelo chão e pilhas de lixo acumuladas.

Os salários não foram pagos durante 1 ano.

Por fim, os empregados para poderem receber seus passaportes tiveram de assinar um documento diante de uma autoridade oficial, afirmando (falsamente) que haviam recebido seus salários.

Condições de trabalho desta ordem já provocaram diversas tentativas de suicídio. Responsáveis pelo principal hospital de Doha (capital do Qatar) informaram que em 2012 foram tratados mais de mil trabalhadores com severos traumas físicos causados por quedas de locais altos durante o trabalho. Cerca de 10% ficaram aleijados e muitos morreram.

Diz Sally Shetty, secretária geral da Anistia Internacional: ”Nossas descobertas indicam um alarmante nível de exploração no setor de construções do Qatar. Empregadores tem apresentado terríveis desrespeitos aos direitos humanos básicos dos trabalhadores, aproveitando-se da permissividade do ambiente e da aplicação da lei do trabalho para explorarem os trabalhadores em construção.”

As autoridades do Qatar dizem que estão investigando a situação e já tomaram algumas providências.

Foi muito pouco, diz a Anistia Internacional.

Seu relatório foi publicado uma semana depois da FIFA declarar que o Qatar estava no caminho certo para garantir os direitos dos trabalhadores.

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