Entre o Irã e os EUA, as empresas europeias balançam.

Quando negou-se a certificar o Irã, Trump anunciou que deixaria para o Congresso a missão de aprovar ou não o acordo nuclear com o Irã. Falou também que estava ordenando dura sanções contra a Guarda Revolucionaria do Irã, a Quds Forces. Quem fizesse negócios com ela não poderia mais negociar com os EUA.

Isso criava grandes problemas para empresas privadas e entidades europeias.

A Guarda Revolucionária tem grandes empresas nos mais diversos setores da economia. São líderes na maioria deles. Além de ter participações ou negócios em vários outros. Para uma companhia estrangeira, é quase impossível entrar no Irã, sem transacionar com alguma empresa da Quds. Ou ligada a ela.

Desde 2015, quando foi assinado o acordo nuclear, grandes corporações de alguns países do Velho Mundo interessaram-se em investir no Irã. Entre as razões, as principais eram o interesse do governo Rouhani em atrair investimentos do exterior para incentivar o desenvolvimento do país e o mercado de 80 milhões de pessoas, carentes de uma série de produtos essenciais.

Várias dessas corporações já estão com grandes projetos em fase de implantação. A Total, maior empresa petrolífera da França, finalizou neste ano um projeto de 65 bilhões de euros nas áreas de petróleo e gás, em sociedade com uma firma chinesa. A AirBus pretende investir no Irã para valer, seu projeto de fábricas de aviões está à beira de ser aprovado.

A Alemanha e a França, hoje as líderes da União Europeia, visualizam que suas exportações para o Irã deverão se multiplicar rapidamente.

A Câmara de Comércio Alemã acredita que o total das transações bilaterais dobrarão durante os próximos dois anos.

A nova decisão de Trump pinta como uma séria ameaça às expectativas europeias.

Se as empresas tiverem de escolher entre EUA e Irã, vão perder muito dinheiro, de qualquer modo. Se a opção for pelos iranianos poderão dizer adeus ao imenso mercado americano. Se preferirem os EUA terão de enterrar as grandes somas que já gastaram nos gigantescos projetos que pretendem implantar no Irã. Além de esquecer seu sonho de entrar num dos mercados mais promissores do planeta.

Situação nada agradável para as corporações da Europa.

Embora elas torçam para que os países da União Europeia, liderados pela Alemanha e França, façam frente a Trump, pressionando o republicano a voltar atrás, muitas duvidam de sua coragem para enfrentar o país mais rico e poderoso do mundo. Reconhecidos como protetores da Europa contra ações maléficas dos inimigos, os EUA vem sendo o farol que aponta os caminhos para as nações do Velho Mundo, desde o fim da última guerra mundial.

A verdade é que Trump tem sido muito mais uma madrasta castradora do que uma mãe protetora. Ele já abandonou o acordo de Paris para redução do aumento da temperatura global, ameaçou parar de financiar a OTAN- caso os países omissos não voltem a pagar suas quotas- prometeu liquidar o acordo nuclear com o Irã, apoiou o Brexit, estimulando outros países a seguirem na mesma direção (o que deixaria a União Europeia a perigo). E agora, lança sanções contra a Guarda Revolucionária iraniana, cujo alcance atingirá por tabela as esperançosas iniciativas das empresas da Europa Unida.

De outro lado, a União Soviética, o bicho papão que assombrava as noites dos estadistas europeus, não existe mais. A Rússia, sem as outras 12 ou 13 repúblicas socialistas soviéticas que se descolaram do rebanho de Moscou, não tem condições militares para se impor pela força à Europa, reforçada ou não com as armas maravilhosas do Pentágono. Nem Putin parece estar interessado numa aventura de tal porte.

Nesta conjuntura, protetores são dispensáveis. Merkel já falou que está na hora da Europa cuidar dos seus próprios problemas. Macron aplaudiu entusiasmado. Até Teresa May se mostra descontente com as malazartes praticadas por The Donald contra o acordo nuclear.

Tudo isso talvez fizesse o líder republicano refletir, evitar avançar o sinal enquanto estivesse amarelo.

Mas aí, Tillerson, o secretário de Estado, resolveu reforçar o diktat do chefe e, ao mesmo tempo, “limpar” sua imagem de político moderado, muito mal vista nos círculos dos cortesãos que rodeiam Trump.

Em reunião com ministros sauditas, no reino dos petrodólares, Tillerson falou como autêntico representante do império americano para obsequiosos países satélites. Referindo-se às últimas sanções do seu presidente, ele rugiu: “As nossas ambas nações (EUA e  Arábia Saudita) acreditam que aqueles que conduzem negócios com a Guarda Revolucionária Iraniana, com qualquer das suas entidades – as companhias europeias – realmente o fazem com grande risco (New York Times, 22-10-2017).”

Foi o clássico, ou param com isso, ou sofrem as consequências – uma ameaça explicita dos EUA para forçar as empresas dos países europeus a saírem do Irã correndo. Do contrário, o mercado americano estaria fechado para elas. Amem-nos ou deixem de lucrar conosco, uma bomba da altíssima potência.

Surpreendentemente, algo inesperado aconteceu no mesmo dia.

Enquanto Tillerson falava grosso na Arábia Saudita, Trump mostrava-se compreensivo e  desinteressado nos EUA. Em entrevista à Fox News, ele afirmou não se opor a que a França e a Alemanha continuassem a negociar com o Irã. “Eu disse a eles que apenas continuem ganhando dinheiro. Não se preocupem. Apenas continuem ganhando dinheiro (Times Of Israel, 23-10-2017).”

Portanto, fiquem tranquilos, Tio Sam não impedirá que vocês se encham de rublos.

Alguns explicam este conflito de ordens entre Trump e seu secretário de Estado como típico das bruscas mudanças de posição do presidente. Talvez depois de instruir Tillerson a ser duro com os europeus, Trump fora convencido por algum graúdo que isso daria problema com aqueles chatos, problemas, no momento, bastante inconvenientes. Aí, resolveu ser amigável na entrevista à Fox News.

Infelizmente, esqueceu de combinar com os russos. E Tillerson ficou mal na fotografia, aparecendo como um linha-dura que contradiz a presumida moderação do seu presidente.

Há, porém, outra interpretação.

Para pressionar com intensidade os europeus a saírem do Irã, a Casa Branca usou a ática do GOOD COP- BAD COP, favorita das polícias do mundo, na qual um policial violento, o BAD COP, e um policial bonzinho, o GOOD COP, revezam-se no interrogatório de um suspeito. Que fica tão transtornado com estas bruscas mudanças de tratamento, que acaba dando o serviço.

No nosso caso, teria havido uma inversão de papéis. O polido Tillerson atuou como BAD COP. E o agressivo Trump foi o GOOD COP.

Tudo para deixar os aliados europeus ainda mais preocupados com as sanções contra quem investir no Irã. E até tendentes a desistir dessa ideia.

Seja qual for interpretação, a União Europeia está diante de duas opções nada atrativas.

Ou, baixam a guarda e renunciam aos saborosos frutos do mercado iraniano

Ou peitam os americanos e se conformam em perder negócios com a maior economia do mundo.

 

 

 

 

1 pensou em “Entre o Irã e os EUA, as empresas europeias balançam.

  1. Eça, vim ler seu Olhar o Mundo logo após ser alertada por um filósofo no Café Filosófico na TV Cultura,(acho que seu nome é Giacoia) de que não estamos tomando cuidado com a nossa nave Terra e vamos acabar nos destruindo, principalmente pelo acelerado com que desenvolvemos toda esta parafernália (Tecnologia) sem a devida responsabilidade que isto exigiria. (Lembra do Aprendiz de Feiticeiro?), e esta falta de ética pode nos aniquilar. A esperança é percebermos isto com as catástrofes que assolam os terráqueos, cada vez mais. Estou aqui pensando nisso, e leio suas notícias sobre o nosso precário processo antropocêntrico, que deixa com que estejamos pondo nas mãos de um maluco como Trump, “aprontando” em nível internacional (você falou em malasartes! É perfeito.

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