Egito: ilusões perdidas.

Os militares do Egito ofereceram ao povo o cardápio completo de um clássico golpe militar: prisão do presidente e dos principais líderes da Irmandade Muçulmana, além de cerca de 300 ativistas; fechamento do  parlamento eleito democraticamente; suspensão da constituição aprovada em referendo; nomeação de 3 militares e 3 aliados para cargos-chave da administração; fechamento de jornais oposicionistas e da sede da Al Jazeera, que fazia apenas críticas leves à intervenção castrense.

Por fim, como plat de sustance, o massacre de 53 adeptos de Morsi, além de 300 feridos, que realizavam um sit in de protesto, em frente ao local onde o ex-presidente estaria preso.

As condenações dos próprios revolucionários civis foram generalizados, embora se limitando a solicitar investigações, pouco sérias pois realizadas pelos militares. Será como a raposa investigando o morticínio no galinheiro praticado por suas iguais.

Com a agravante da chefia das raposas ter alegado que foram as galinhas que as atacaram..

Na verdade, só uma das reações preocupou realmente os militares no poder.

Foi a retirada do partido Nour das negociações de escolha do novo governo.

Trata-se do partido dos salafitas, por sinal, um movimento islâmico muito mais conservador do que a Irmandade Muçulmana.

Durante os debates da constituição ora extinta, o Nour lutou para que as leis islâmicas fossem parte da constituição- não apenas princípios inspiradores-  enfrentado pelos seculares e pela própria Irmandade Muçulmana. Eles ainda conseguiram impedir que garantias expressas dos direitos femininos constatassem da constituição.

Foram muito mais responsáveis pela suposta “islamização da constituição”, um dos principais motivos das grandes manifestações de protestos, dos quais a Irmandade Muçulmana foi alvo.

O que prova que o golpe militar visava mesmo era a Irmandade.

Mas, importantes personalidades muçulmanas, apoiantes da  derrubada de Morsi,  também se chocaram com o governo do golpe.

Foutuh, ex- líder da Irmandade Muçulmana que a abandonou no ano passado, pediu a renúncia do presidente interino; o grande imã Tayeb, da Universidade Al-Ahraf, ameaçou afastar-se caso a repressão continuasse violenta e seu assessor-chefe, um reputado estudioso do Alcorão, rejeitou publicamente o convite para fazer parte da comissão de reconciliação, dizendo não ser possível enquanto Morsi e seguidores continuassem presos e os assassinatos continuassem.

Os problemas do governo interino do presidente Mansour e da Junta Militar não ficaram por aí.

Um seu decreto apresentou as principais modificação da nova constituição provisória. Ela seria redigida por um corpo de 10 juristas nomeados pelo presidente, depois submetida a 50 representantes de partidos, movimentos sociais e outras forças e, por fim, aprovada por referendo.

Lá pelo início de 2014 se realizariam as eleições parlamentares.

Com sorte, antes de 2015, o novo presidente seria eleito.

A revelação dos pontos a serem alterados foi chocante.

Não constavam aqueles que haviam provocado a revolta dos liberais, seculares, socialistas e defensores dos direitos humanos.

O movimento Tamarod, preponderantemente formado por jovens revolucionários de primeira hora, que organizou os recentes protestos, rejeitou o decreto constitucional, declarando: “É impossível aceitar porque cria uma nova ditadura.”

A Frente de Salvação Nacional, principal movimento civil, anunciou também a rejeição do decreto, afirmando que não foi consultada a  respeito e exigindo profundas modificações.

Os grupos de direitos humanos advertiram que o decreto dá aos militares amplos poderes para voltar a submeter civis a tribunais militares como nos tempos de Mubarak.

Perdendo os partidos e líderes  islâmicos, que os apoiavam, a Junta Militar não pode mais justificar sua tomada do poder como a forma de harmonizar todas as forças do Egito, em conflito durante o governo Morsi.

A oposição dos movimentos liberais e socialistas, dos jovens e dos islâmicos deixará os militares isolados, sozinhos para enfrentar a oposição de todas as forças do povo egípcio.

Pensando em garantir a aprovação popular em possíveis futura eleições, a Junta Militar está formando um ministério de tecnocratas e figuras de prestígio inatacável.

Mansour, o presidente, é um juiz acima dos partidos; Belhazi, o primeiro ministro, um economista de projeção; El Baradei, o vice-primeiro-ministro, premio Nobel da Paz, ganhou o respeito internacional por sua atuação na presidência da Agência Internacional de Energia Atômica.

El Baradei foi, aliás, o principal líder da Frente de Salvação Nacional, opositora do decreto constitucional. Participando do governo como vice- primeiro ministro, ele está expondo sua imagem. Especula-se que ele aceitou sua nomeação na esperança de influenciar os militares a entregarem logo o poder a civis democraticamente eleito. E a moderarem sua ação repressiva dos membros do regime anterior.

O novo governo conta também com o apoio financeiro das monarquias ditatoriais da Arábia Saudita e dos Emirados Unidos.

Elas serão essenciais para ajudar a melhorar a curto prazo a situação financeira do Egito e também a reduzir a inflação, o desabastecimento e a carestia que afligem a população pobre.

Para isso, essas potências já prometeram abrir seus cofres generosamente: os Emirados virão com uma doação de 1 bilhão de dólares e um empréstimo de 2 bilhões, sem juros, enquanto a Arábia Saudita deverá contribuir com mais 5 bilhões.

Bem que Morsi procurou agradar esses ricos vizinhos mas não conseguiu nada. Ambos temiam a ação da Irmandade Muçulmana em seus países, lembrando a participação desses patrocinadores da Primavera Árabe, ajudando a impor perigosos governos democráticos na Tunísia e no próprio Egito.

Por último, embora talvez seja o primeiro, existe outro grande aliado dos golpistas: os EUA.

Tanto o pessoal de Morsi quanto os seus inimigos clamavam que os americanos controlavam o “outro lado.”

Houve um certo exagero de ambas as partes.

Havia de fato um acordo entre EUA e o Egito de Morsi e da Irmandade Muçulmana.

Morsi defendia, elogiava, prometia mas pouco fazia para desbloquear a passagem entre o Egito e Gaza; trocava demonstrações de afeto e amizade com Ahmadinejad mas nada de reatar relações com o Irã; e mantinha incólume, embora criticando, o tratado de paz com Israel.

Em troca, os americanos apoiavam seu governo e garantiam a ajuda de 1,5 bilhão de dólares – dos quais, 1,3 eram em armamentos  para o exército egípcio. E prometiam influenciar o FMI a conceder um empréstimo de 4,8 bilhões de dólares para salvar a economia do Egito de iminente colapso.

Era uma amizade duvidosa.

Obama temia que, recebendo os 4,8 bilhões de dólares, Morsi poderia resolver liderar o mundo muçulmano, reatando com o Irã, desbloqueando a passagem para Gaza, exigindo a independência da Palestina.

Não necessariamente tudo de uma vez, mas aos poucos, enquanto os EUA não atendiam a novas solicitações egípcias de ajuda econômica.

Fosse como fosse, Morsi seria apenas um aliado circunstancial, pelo qual não valeria a pena brigar. Especialmente contra um exército a quem os EUA já forneceram bilhões de dólares em armamentos, cujos oficiais são treinados em massa nas escolas militares dos EUA e seus generais tem sido bons amigos.

Só quem acredita em Papai Noel duvida que o golpe militar foi, não digo provocado, mas previamente aprovado pela Casa Branca.

Jornalistas americanos falam numa prosa entre Sisi e o secretário da Defesa, Hagel que durou horas. Certamente não discutiram as chances do Egito e dos EUA na Copa do Mundo…

Outros dizem que o secretário de Estado John Kerry, e a feroz falcoa, Susan Rice, recém-nomeada assessora para assuntos de Obama pata assutos do Exterior, conversaram muito com o chefão militar egípcio.

Suspeitamente, diplomatas americanos, logo após o golpe, tentaram convencer os líderes da Irmandade Muçulmana a aceitarem o  novo governo.

Mais do que isso: como existe uma lei americana que proíbe financiamentos a governos oriundos de golpes, Obama omite o termo “golpe”, sempre que fala dos eventos do Egito. Tratou-se, talvez, de uma bem intencionada intervenção para garantir a democracia…

E, claro, ele afirmou que o exército egípcio continuará a receber o dinheiro americano.

Isso não surpreende ninguém: Obama é certamente um dos presidentes americanos que mais passou ao largo da Constituição e de várias outras leis, tanto dos EUA, quanto internacionais.

Com o dinheiro da Arábia Saudita e dos Emirados, mais a força e também os dólares dos EUA, além da eficiência do governo de técnicos, é possível que, até a curto prazo, a economia do Egito e a situação do seu povo sejam aliviadas.

Os militares poderão, assim, conseguir a aprovação de uma constituição e a eleição de um novo governo que garantam seus privilégios. Que não são poucos: eles possuem uma grande gama de empresas- desde fábricas de diversos produtos, até lojas, hotéis e conjuntos imobiliários – representando entre 30%  40% da economia do país; os orçamentos militares não são sujeitos à supervisão do parlamento e os civis que infringem leis de segurança são julgados por tribunais castrenses.

Os civis que se integrarem no novo establishment  ficarão irremediavelmente comprometidos. El Baradei não será mais lembrado como quem presidiu a Agência de Energia Atômica com coragem e honra,mas como alguém que avalizou o golpe militar.

Mas a situação pode evoluir para uma série de manifestações, que tendem a serem reprimidas com violência.

Talvez para uma guerra civil.

De um modo ou de outro, o futuro é incerto.

Para não dizer sombrio.

 

 

 

 

 

 

 

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