Egito: a volta da ditadura.

Um tradicional provérbio egípcio diz: “O Egito não tem exército, mas o exército tem um país.”

Mais uma vez ficou provado que a sabedoria popular não costuma errar.

Desde Anuar Sadat, antecessor de Mubarak, as forças armadas vem virtualmente tomando conta do país.

Embora fiel a Sadat e a Mubarak, elas foram ocupando espaços na economia, assumindo o controle de fábricas, construtoras, estabelecimentos comerciais e agrícolas até se tornarem uma das maiores (se não a maior) forças econômicas do Egito.

Hoje as forças armadas tem empresas que representam entre 30 e 40% da economia nacional.

Sempre gozaram de uma quase total autonomia: seus orçamentos não são supervisionados pelo poder civil, tomam decisões estratégicas por sua conta e podem submeter até civis a julgamento, em casos relativos à segurança nacional.

No governo Mubarak, elas atuaram na área de segurança, participando ativamente das perseguições e violências do regime.

O general Suleiman, que Hillary Clinton tentou emplacar para substituir Mubarak, chefiou o serviço secreto, que colaborou com a CIA torturando suspeitos raptados em outros países.

Quando as multidões da praça Tahir empolgavam o mundo, os militares perceberam que defender Mubarak seria uma aposta errada.

Preferiram jogar no provável vencedor: a Primavera Árabe.

Com a vitória da revolução, foi até lógico que as forças armadas assumissem o governo, provisoriamente, para organizar a passagem para a democracia.

Na verdade, pensavam mais em garantir suas empresas e seus privilégios no novo Egito.

Nesse período de transição, a Junta Militar entrou em repetidos choques com os partidos e as forças populares, que voltaram a protestar na praça Tahir. Exigiam eleições – que tardavam, e a punição de figuras odiadas da ditadura deposta, a maioria, poupadas.

12 mil manifestantes foram presos e processados por tribunais militares, dos quais muitos foram condenados a penas que chegaram a 8 anos de prisão.

A Irmandade Muçulmana, maior força política do país, alternou acordos e conflitos com a Juta.

Nas eleições, por fim realizadas, a Irmandade Muçulmana elegeu Morsi, presidente, e o maior número de congressistas.

O Egito que Morsi recebeu se encontrava em péssima situação econômica, sem dinheiro estatal para investir, nem o interesse dos investidores privados. Milhões de desempregados e pessoas em condições de pobreza esperavam, ansiosas, soluções para seus problemas.

Tendo, ainda, de enfrentar uma oposição secular intransigente; um judiciário e uma burocracia da era-Mubarak hostis e um exército coeso, mas na defesa dos seus interesses, o governo Morsi fez suas escolhas.

Procurou restringir os entraves do Judiciário, anulando decisões contrárias e assumindo posições que cabiam a esse poder.

Na área política, aliando-se ao partido dos salafitas (ultra-conservadores islâmicos), a Irmandade assegurou controle total do Legislativo.

Ganhou assim a oposição incondicional dos partidos seculares – liberais e de esquerda- que atacaram o governo por lhes negar representatividade na Constituinte e desejar criar um estado islâmico.

Para assegurar o apoio militar, Morsi  não mexeu nas empresas do exército  e manteve  na nova Constituição os orçamentos militares secretos, somente acessíveis a uma comissão, com larga participação de generais.

As forças policiais controladas pelo Ministério do Interior continuaram com os mesmos membros da era-Mubarak, que também atuaram com ferocidade na repressão no período do governo da junta militar.

Mas os revolucionários dos grupos seculares não esqueceram as barbaridades dos agentes de segurança e exigiram demissões e punições.

Sensível, Morsi criou uma comissão de investigação das violências dos repressores.

Em março deste ano, ele recebeu o relatório final que, conforme se divulgou, acusava o assassinato de 846 civis, muitos por pistoleiros da polícia (snipers), emboscados no alto de prédios.

Morsi declarou que iria analisar e tomar providências.

Demorou-se, priorizando a necessidade de obter um empréstimo de 6 bilhões de dólares do FMI, necessário para o Egito fugir da falência.

Enquanto isso, as forças da oposição secular lotavam a praça Tahir em protestos ruidosos. As multidões cresceram, chegaram a milhões, exigindo a queda de Morsi.

Mais uma vez os militares perceberam estar no bonde errado.

E trataram de descer.

Como fizeram em 2011, não se limitaram a apoiar o povo: assumiram o  governo provisoriamente.

Morsi foi deposto e preso, incomunicável.

A Irmandade Muçulmana reagiu com protestos também maciços.

Mas a repressão foi tão ou mais cruel do que nos tempos de Mubarak.

Em 3 ataques do exército e das forças de segurança contra multidões de civis pacíficos pró-Morsi, mais de 1.000 deles foram assassinados, muitos pelos snipers.

O Ocidente, que vinha sendo tolerante com o golpe, somente pedindo calma e acordo entre todas as forças políticas, tornou-se um crítico veemente.

As condenações expandiram-se por todo o mundo.

A União Europeia não ficou nisso: além de declarar as violências do governo inaceitáveis, ameaçou estudar o corte de toda a ajuda econômica dos países do continente enquanto a democracia não fosse restaurada (acabou limitando-se a proibir vendas de armamentos).

Obama, por sua vez, pressionado pelas forças liberais dos EUA, fala em rediscutir o relacionamento com o Egito.

Nada disso parece perturbar muito os militares egípcios.

A Arábia Saudita e os Emirados Unidos prontificaram-se a conceder, não os 6 bilhões que Morsi suplicara em vão ao FMI , mas generosos 12 bilhões de dólares.

Tendo a carteira cheia, os militares dispõem ainda de amplo apoio popular.

Com a prestimosa colaboração da imprensa estatal e da particular, o povo vem sendo bombardeado com mensagens sobre a luta do exército contra os terroristas (a Irmandade Muçulmana) pela democracia, os “crimes” do governo Morsi, a pureza do general Sissi,etc.

Tudo isso, acirra o ódio, já grande, contra Morsi e os islâmicos.

E faz os “revolucionários da praça Tahir aceitarem que os massacres, o fim da liberdade da imprensa e a prisão dos líderes da Irmandade Muçulmana sejam necessários para a implantação da democracia.

E fecharem os olhos para o fato de que a tão combatida ditadura, suposto objetivo de Morsi, agora, com os generais, é uma realidade.

Existe um ministério civil, mas não há dúvida de que são os militares que dão as cartas.Por isso mesmo, 19 deles governam 25 dos estados do país.

Como uma ditadura clássica, a egípcia precisava de um motivo – no caso, foi derrubar Morsi e a“islamização do Estado”- e de um inimigo – o terrorismo islâmico, incluindo ali os grupos jihadistas do Sinai, e a Irmandade Muçulmana que, de terrorista não tem nada.

Seu líder, o general Sissi, assume cada vez mais a figura do ditador populista, que corteja a população, sem deixar de oprimi-la.

Recentemente, ele declarou na TV que achava mais importante defender o povo do que governar o Egito.

Por isso e só por isso, decidira que as forças armadas não mais se conteriam na repressão dos terroristas. Mostrou que não estava brincando ao ordenar um massacre de fazer inveja ao próprio Mubarak.

O culto da personalidade Sissi vai a todo vapor.

Apresentado como “o salvador”, seu rosto já é familiar ao povo, aparece constantemente em cartazes de rua, nos jornais e na Tv- que o bajulam .

A imprensa compara-o ao general Nasser, ex-presidente do país, considerado um herói nacional.

Comparação altamente discutível.

Ambos são nacionalistas, mas seus nacionalismos diferem muito entre si.

Nasser era um nacionalista árabe, sua luta era pela união de todos os países árabes em defesa de seus interesses contra o imperialismo americano e os colonialismos francês e inglês e pela independência da Palestina.

Sissi é um nacionalista egípcio. Apoia a campanha desenvolvida pela imprensa e grupos políticos contra os refugiados sírios e palestinos. Persegue o oprimido povo de Gaza. Na área internacional, chegou a colaborar com Israel. A Europa é tratada como inimiga por atacar as barbaridades do regime.

Nasser promoveu reformas sociais, especialmente a reforma agrária, o povo pobre tinha motivos concretos para admirá-lo.

Se bem que tenha tido pouco tempo no governo, Sissi só ofereceu palavras vagas ao povo, não prometeu medidas que o ajudassem.

Apesar das desastradas palavras de John Kerry, na sua viagem ao Paquistão, afirmando que os militares egípcios estariam “restaurando a democracia”,  a verdade é bem outra.

A ditadura adquire contornos cada vez mais nítidos.

O processo de Morsi por fugir da prisão de Mubarak; os massacres das manifestações pró-Morsi; a prisão dos líderes da Irmandade Muçulmana ; a proposta do primeiro-ministro de colocar a Irmandade fora da lei são pregos fechando o caixão da democracia.

Sissi e seus generais dizem agir com um suposto mandato do povo.

Infelizmente, os líderes políticos seculares aceitam.

Com uma única exceção.

El Baradei, Nobel da Paz por sua independência na presidência da agência nuclear da ONU, na campanha anti- Morsi, foi líder dos liberais.

Por seu prestígio internacional, o governo militar o nomeou vice- primeiro ministro. Ele aceitou, tinha esperanças.

Depois dos massacres, El Baradei renunciou em protesto.

Anuncia-se que ele será processado por traição.

Como o Egito estaria em guerra contra o terrorismo, quem deixa seu posto ipso facto é um desertor.

Esse tipo de argumentação só é aceitável num país onde o despotismo impera.

Triste fim de uma primavera árabe, quando mal brotavam as flores da democracia e dos direitos humanos.

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