E agora, Chile?

A vitória da socialista Michelle Bachelet nas eleições presidenciais gerou uma indagação: o Chile vai mudar? No poder desde 1990, fim da era Pinochet, a Concertación (aliança dos partidos socialista, radical e democrata-cristão) manteve o modelo econômico neoliberal da ditadura militar.

E com bons resultados. Ao contrário do Brasil, que sacrificou o crescimento pela estabilidade, os chilenos vêm conseguindo ótimos índices nestes dois quesitos. Em 2005, a inflação foi de 3,7%, o PIB cresceu 6,3% e os juros bancários não passaram de 5,16%. Enquanto o governo Lula festejava 15 bilhões de dólares em investimentos diretos do capital estrangeiro em 2004, o Chile, 12 vezes menor do que o Brasil, recebia 7,4 bilhões.

Apesar destes excelentes números, a economia chilena não pode se considerar plenamente consolidada. O país depende excessivamente de um só produto, o cobre, que responde por 1/3 de todas as exportações. Hoje, o Chile se beneficia do alto preço internacional dessa commodity.

Mas isso pode mudar – uma eventual baixa tende a produzir reflexos bastante danosos na economia do país. Ressalte-se ainda que o Chile continua sendo, basicamente, um exportador de matérias-primas, pois sua industria é pouco significativa.

Mas se o Chile apresenta um crescimento vigoroso, na área social seus problemas são gravíssimos. Tem uma das piores distribuições de renda do mundo: os 10% mais ricos ficam com 47% da renda nacional. O desemprego neste ano chegou a 8%. E a previdência social, privatizada pelo governo Pinochet, é profundamente injusta, não cumprindo com suas finalidades.

No dizer do líder sindical De La Fuente: “mais da metade dos chilenos terão pensões que os levarão à pobreza”.

De fato, para gozar de uma aposentadoria razoável são necessárias contribuições tão pesadas que poucos têm condições de pagar. Cerca de 50% dos trabalhadores não poderão receber nenhum tipo de benefício, pois para isso teriam de contribuir pelo menos durante 20 anos, o que não conseguirão. Serão obrigados a recorrer ao Estado, cujas pensões são extremamente baixas, pois se destinam a indigentes. Consciente desta realidade, o presidente atual, o socialista Ricardo Lagos, declarou: “o Chile não é nem pobre, nem rico. É injusto”.

Ao contrário de Pinochet, os governos da Concertación procuraram sempre melhorar a situação da população pobre. Eles aumentaram os investimentos sociais em 112% em relação à ditadura militar nos primeiros dez anos em que dirigiram o país. E o número das pessoas que vivem na pobreza diminuiu de 40% da população para 18%.

Ricardo Lagos teve uma ação particularmente eficaz nesta área. Em seu período, a renda per capita subiu de 4.568 dólares, em 2003, para 7.300, em 2005. E o salário mínimo foi elevado para 350 dólares (mais de 800 reais). 

Espera-se que, com Michelle Bachelet, os avanços sejam maiores. Sua história a identifica com as lutas sociais. Ela e sua mãe militaram no Partido Socialista desde antes do governo Allende. No golpe militar, foram presas e torturadas. Seu pai, um general legalista, também sofreu torturas, morrendo em conseqüência delas nos cárceres pinochetistas. Expoente da ala esquerda do seu partido, sua indicação como candidata à presidência reflete a posição forte deste grupo.

Michelle assumiu o resgate da imensa dívida social chilena como prioridade. Reduzir radicalmente a vergonhosa distribuição de rendas do país é a meta principal. Os recursos deverão sair da receita do cobre -50% vai para o governo – e de uma nova taxação sobre as multinacionais, que irá contrariar os cânones do neoliberalismo. Crítica da previdência privatizada chilena, espera-se que ela reforme suas leis, tornando pensões e aposentadorias dignas e acessíveis à massa da população.

Na área internacional, o principal desafio de Michelle Bachelet será aproximar-se dos países latino-americanos que buscam a integração. Não será fácil. O Chile tem aproveitado bem as relações especiais que tem com os Estados Unidos – há um tratado de livre comércio entre os dois países. A idéia de uma América Latina unida e independente não é bem vista pelos americanos, que ainda não renunciaram ao seu antigo quintal. Fortalecer os vínculos com a comunidade latino-americana, sem enfraquecer aqueles mantidos com os Estados Unidos, parece impossível.

Todos os analistas são unânimes em afirmar que o modelo econômico neoliberal será mantido. Embora socialista, o novo governo da Concertación é pragmático: se está dando certo, não há razão para mudar. No entanto, para resgatar a pesadíssima dívida social do Chile, serão necessárias ações fortes, que implicarão em verdadeiras mudanças estruturais.

“Continuidade e mudança” foi o lema da candidata socialista. É duvidoso que estes dois conceitos sejam compatíveis. Qual irá prevalecer na gestão Bachelet?

O sucesso econômico do modelo chileno faz prever decisões prudentes. Mas os setores de esquerda esperam audácia e coragem, posturas mais de acordo com a biografia da nova presidente.

Crença bem sintetizada numa faixa que um anônimo carregava na festa da vitória, que dizia: “O sonho existe. Allende vive”.

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