Descaso destrói vida de milhares de soldados americanos.

Na ânsia de impedir a vitória dos comunistas na Guerra do Vietnam, os EUA não vacilaram em usar armas químicas. O Agente Laranja foi uma criação dos seus laboratórios de toxinas mortíferas.
A aviação americana lançou 75 milhões de litros de Agente Laranja, entre 1961 e 1971, para destruir a vegetação das florestas vietnamitas, onde os guerrilheiros vietcongues se escondiam, e as safras de cereais, que lhes forneciam alimentos
Para os estrategistas, os resultados desejados foram atingidos.
Cerca de cerca de 3,100 milhões de hectares – 25% das florestas do país- foram desfolhados, ficando seu habitat natural fortemente alterado, com a contaminação dos solos e lençóis freáticos.
Mais de 4 milhões de vietnamitas foram expostos aos efeitos do Agente Laranja. Segundo o governo vietnamita, três milhões sofreram doenças causadas por essa autêntica arma química.
Em 2009, 38 anos depois do fim do conflito, detectou-se que as regiões bombardeadas apresentavam níveis de resíduos do Agente Laranja 300 a 400 vezes acima do limite tolerado.
26 mil aldeias continuavam afetadas. E, nas segunda e terceira das gerações nascidas depois da guerra, foi constatada vasta incidência de deficiências, como síndrome de Down, paralisia cerebral e desfiguração facial extrema.
O feitiço virou também contra o feiticeiro.
39.419 soldados americanos tiveram contato com o Agente Laranja. E somente em 1991, o governo dos EUA documentou entre eles um elevado aumento em casos de leucemia, linfoma de Hodgins e 15 tipos de câncer causados pelo veneno químico.
Foi comprovado que o Agente Laranja tinha sido produzido com inadequada purificação, apresentando teores elevados de uma dioxina cancerígena. Houve negligencia, causada pela pressa em usar rapidamente uma arma química que teria impacto devastador nas fileiras do inimigo.
Infelizmente o Pentágono não aprendeu a lição.
Veteranos ds guerras do Golfo Pérsico, Iraque e Afeganistão reclamaram indenizações e tratamento por apresentarem diversos tipos de câncer ou paralisias.
Desde o início das guerras do Iraque e do Afeganistão, os EUA passaram anos jogando todo o lixo acumulado das suas operações em depósitos ao ar livre irregulares e sem filtragem, muitas vezes do tamanho de campos de futebol ou até maiores. Ali se queimava todo o material fora de uso como veículos danificados, baterias gastas, recipientes de isopor, resíduos hospitalares, restos de comida, latas de tintas, plásticos, pneus e peças inutilizadas.
Tudo isso era queimado noite e dia, formando nuvens cinzentas, além de grandes e assustadoras plumas negras.
Dezenas de milhares de soldados e funcionários trabalhavam e viviam próximos desses lixões, sem proteção alguma. Muitos sofriam ataques de tosses com gosto amargo e ficavam doentes assim que acabavam de chegar na base.
Posteriormente verificou-se que havia tênues partículas de metais pesados flutuando no ar acima desses depósitos não filtrados. Foi informado a oficiais da Força Aérea, em 2006 , que representava riscos sérios à saúde ambiental. No entanto, até hoje, eles não admitem que essa atmosfera tóxica possa ser responsável por sérios problemas neurológicos e respiratórios e de câncer, sofridos pelos veteranos de guerra.
Milhares de veteranos atacados por doenças causadas pelo ares tóxicos de depósitos de lixo incendiados passaram a publicar blogs relatando sua situação e a recusa do governo americano em lhes prestar assistência.
Durante mais de uma década o VA (Serviço de Assistência aos Veteranos) e o Pentágono realizaram estudos para analisar os possíveis danos à saúde causados pelos lixões incendiados. Ao mesmo tempo, foram promovidas diversas pesquisas por instituições públicas e privadas.
Mas a burocracia retardava sua discussão no VA. Antes da conclusão apareciam resultados de novas pesquisas. E tudo começava de novo. O tempo ia passando, sem solução para a angústia de dezenas de milhares de veteranos necessitados de cuidados médicos urgentes.
Nesse ínterim, o Congresso fez sua parte. Em 2009, proibiu a manutenção de depósitos de lixo queimados. Não adiantou nada, os militares continuaram praticando esse verdadeiro crime ambiental nas zonas de guerra.
Anos depois, o VA resolveu tomar a primeira medida necessária : avaliar o tamanho do problema. Criou um registro dos veteranos que achavam ter pego doenças graves devido aos lixões em chamas.
Desde 2014, 187.630 ex-soldados se registraram.
Enquanto o governo relutava em agir, espocaram pela mídia inúmeros casos de jovens veteranos do Afeganistão, Iraque e Golfo Pérsico, morrendo de câncer ou forçados a andar de cadeiras de rodas, usando máscaras de oxigênio.
Um novo relatório mostrou um grave crescimento nos índices de câncer entre os veteranos que buscavam cuidados médicos no VA.
E pior: em testes realizados por instituições públicas e privadas descobriu-se que os piores danos causados aos veteranos são irreversíveis, sendo que cuidar daqueles que ainda não morreram custará bilhões de dólares ao governo.
Por fim, Washington levou em consideração os terríveis problemas sofridos pelos ex-soldados que defenderam o país na guerras do Vietnã, Afeganistão, Iraque e Golfo Pérsico. Foi promovido um acordo com as centenas de milhares de veteranos nessa situação, estabelecendo as condições para que pudessem receber ajuda.
Mas, são complicadas, difíceis de serem atendidas. A maioria dos requerimentos tem sido recusada. Como aconteceu com nada menos de 80% das solicitações de 250 mil veteranos da Guerra do Golfo, entre 2010 e 2015.
Quando recrutou centenas de milhares de soldados para suas guerras no Oriente Médio, o governo americano assumiu tacitamente a obrigação de cuidar da saúde deles.
Isso foi cumprido precariamente.
O país que possui os mais avançados e sofisticados armamentos do Universo deveria também possuir os mais avançados e sofisticados métodos de prevenção de possíveis males causados em suas operações militares.
No drama dos veteranos aqui focado bastava simplesmente observação atenta.
Na fabricação do letal Agente Laranja o laboratório sequer se preocupou em verificar se a purificação do produto estava adequada, o que evitaria a presença de teores elevados de uma dioxina altamente cancerígena.
As nuvens cinzentas, recheadas de plumas negras, que sombreavam a queima de produtos e objetos descartados nos lixões das guerras do Vietnã, Afeganistão, Iraque e Golfo Pérsico, eram um alarme claro de que algo maligno estava envenenando o ar nas bases.
Aparentementre, os chefes das forças armadas, com sua atenção voltada para as peripécias da guerra, não tinham nem olhos para ver, nem cérebro para prever as consequências brutais do ar contaminado que centenas de milhares de soldados e funcionários vizinhos a esses lixões viam-se forçados a respirar.
O mal está feito, muitos já morreram, outros estão condenados ao mesmo fim.
O governo dos EUA ainda tem chances.
Não para se redimir de suas culpas, mas pelo menos para salvar seus veteranos que ainda tem chance de viver.

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