Denúncia: Assad era inocente e Obama sabia.

Obama tinha informações seguras de que o ataque químico a Ghouta não partira das forças de Assad.

Mesmo assim, solicitou ao Congresso poderes para bombardear a Síria.

O repórter investigativo Seymour Hersh fez essas revelações em artigo na edição de 6 de abril da London Review of Books.

 Anteriormente, o New Yorker (onde Hersh colabora normalmente) e o Washington Post negaram-se a publicá-lo. Não estavam a fim de comprar uma briga com a Casa Branca.

Após o bombardeio químico da cidade de Ghouta, em 21 de agosto passado, Obama não demorou a apontar o dedo para Assad.

Teria provas de que fora ele o autor.

Segundo a Casa Branca, só o exército sírio teria condições de fabrica e lançar as sofisticadas bombas de gás sarin.

Não era necessário que a ONU entrasse em ação; ao lançar gás contra o povo, o governo sírio passara a linha vermelha demarcada por Obama. Ergo, merecia duras retaliações bélicas para que não voltasse a pecar.

O Estado- maior das forças armadas dos EUA tinha sérias dúvidas, por uma aslguns fatos que relato a seguir.

Fora informado pela comunidade de inteligência que, desde abril de 2013, algumas unidades rebeldes estavam desenvolvendo armas químicas. E, em 20 de junho, analistas da Agência de Inteligência da Defesa (DIA) produziram um briefing altamente confidencial, informando que a al-Nussra (filial da al-Qaeda na Síria) mantinha um programa de sarin, “na mais avançada conspiração desde o atentado do 11 de setembro”.

Por sua vez, uma fonte com profundos conhecimentos das atividades da ONU na Síria revelou a Hersh que a Comissão de Investigação do Uso de Armas Químicas da entidade tinha evidências ligando a oposição ao ataque químico em Khan-Al-Assal, onde  morreram 19 pessoas, inclusive 1 soldado.

De acordo com informante anônimo ex-membro da área de inteligência, altamente qualificado, o general Martin Dempsey, chefe do estado-maior conjunto das forças armadas, era um firme adversário do ataque militar à Síria.

E não só pela fraqueza das provas contra Assad.

Afinal, o presidente sírio estava ganhando a guerra, não era hora de se arriscar a desafiar as iras de Obama, violando sua famosa linha vermelha.

Dempsey preveniu Obama que seus planos de bombardear a Síria poderiam provocar uma guerra total no Oriente Médio.

Mas Obama não quis saber de nada.

Ordenou ao general que preparasse planos para um  ataque maciço.

Rejeitou a primeira proposta, que considerava 35 alvos militares, evitando atingir civis.

Era pouco, queria aniquilar o poder militar de Assad de forma total.

Pressionados, os militares apresentaram planos de um “ataque monstro” (a mounster attack) através de esquadrões de 2 alas de bomardeiros B-52 e frotas de submarinos e vasos de guerra, equipadas com mísseis Tomahawk.

Disse o informante de Hersh: ”Os alvos incluíam redes de energia elétrica, depósitos de gasolina e óleo diesel, depósitos de armas e de logística e todos os edifícios militares e de inteligência conhecidos.”

Em fins de agosto, segundo as fontes de Hersh, Obama informou aos chefes militares que a “hora H” não passaria  de 2 de setembro.

O relógio parou quando os pesquisadores do laboratório da defesa inglesa, em Porton  Down, analisaram vestígios do ataque de 21 de agosto. E concluíram que o gás usado não era disponível nos arsenais do exército sírio.

Portanto, Assad era inocente.

Foi logo comunicado aos chefes militares americanos que não perderam tempo em alertar Obama.

Bem, o lógico seria Obama anunciar que, conforme novas informações, o governo sírio não era o autor do atentado de Ghouta.

Seria lóico, mas não foi.

O Presidente não quis admitir que estava errado quando condenou Assad a ser bombardeado pelo atentado a gás.

Segundo o informante de Hersh, a Casa Branca preferiu solicitar o apoio do Congresso a seu ataque.

Havia uma estratégia por mais disso.

Caso os congressistas refugassem, tudo bem, afinal Assad não merecia mesmo pagar pelo que não fez.

Mas, se houvesse aprovação, Ok, são coisas da guerra. Mesmo sem motivos, Tio Sam atacaria com tudo, fazendo as chances do governo sírio virarem  pó.

E, se viessem a público as provas da inocência de Assad, que pena, lamentamos muito, mas a culpa não é só da Casa Branca; deve ser dividida com o Congresso, que, afinal, autorizou o ataque.

Talvez pressionado pela maciça rejeição do povo americano, observada nas pesquisas, os congressistas estavam a fim de negar a belicosa proposta presidencial.

Somando a rejeição popular com provável rejeição congressual mais o veto à guerra do Parlamento inglês, Obama desistiu.

Os otimistas dirão que fez isso com alegria.

Teria livrado sua consciência do bombardeio da Síria sob pretextos  falsos, e da inevitável morte de muita gente.

Além de ser o estopim de uma guerra que se espalharia pelo Oriente Médio.

Ou seja, de repetir George W. Bush no Iraque.

Mesmo conhecendo a verdade, Obama continuou acusando Assad, para salvar sua face.

Chegou a declarar na Assembléia Geral da ONU, em setembro de 2013: “É um insulto à razão humana e à legitimidade das instituições afirmar que alguém que não o governo tivesse efetuado esse ataque (químico).”

Perante o Congresso, ele afirmou que “Assad gaseou seu povo” e os rebeldes eram as vítimas, não os autores do atentado.

Tanto os líderes militares quanto as autoridades de inteligência não achavam nada disso.

Diz Hersh que um antigo oficial de inteligência lhe assegurou: ”Sabíamos que o governo turco acreditava que poderia inculpar Assad por um ataque de gás sarin no interior da Síria, forçando Obama a efetivar as ameaças da sua linha vermelha.”

Estudando interceptações de comunicações e outros dados, a comunidade de inteligência americana chegou a claras evidências.

“Ficamos sabendo que havia uma ação secreta”, informou o ex-oficial de inteligência, ”planejada pelo pessoal de Erdogan (primeiro- ministro da Turquia) para pressionar Obama a agir…Eles pretendiam partir para um grande ataque de gás perto de Damasco, quando os inspetores da ONU estivessem em Damasco. Teria de ser algo espetacular. A Agência de Inteligência da Defesa (DIA) e outros serviços de inteligência comunicaram aos oficiais militares superiores que o sarin foi fornecido pelos turcos.”Que, aliás, também ensinaram os rebeldes a produzir e manejar o gás.

Bem, Obama foi enganado pelo governo da Turquia – grande inimigo de Assad – mas não passou recibo.

Não valia a pena brigar com o governo turco, nem ficava bem admitir que caíra na armação.

As denúncias do artigo de Seumour Hersh repercutiram na imprensa alternativa. Li comentários a respeito no Consortium News e no Huffington Post.

A grande mídia, que fez soar tambores, conclamando o povo e o governo americanos à guerra contra Assad, ignorou.

A Casa Branca declarou que era tudo mentira.

Não é a primeira vez que altas autoridades do governo chamam Seymour Hersh de mentiroso.

Lyndon Johnson negou que forças americanas tivessem bombardeado ilegalmente o Vietnam do Norte; Kissinger que o governo americano envolvera-se no golpe militar chileno contra Allende e Nixon minimizou o massacre de My Lai.

Até que documentos oficiais provaram que Hersh estava certo.

Ele é considerado o maior jornalista investigativo dos EUA.

Recebeu o prêmio Pulitzer, 2 National Magazine Awards, o prêmio Polk e o prêmio George Orwell.

Nenhum outro jornalista americano foi tão premiado.

Sobre ele, escreve Robert Miraldi, no Huffington Post, de 9 de abril:” Seus artigos e livros tem o estranho poder de causar furor e provocar a contestação dos que são atacados. E então, tudo acaba sendo verdade.”

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