De heróis a vilãos sob o estigma do racismo.

No século 19, no período vitoriano, a Inglaterra vivia grande progresso econômico. Os heróis nacionais eram os construtores do poder inglês, como os empreendedores que doavam parte de suas fortunas a instituições caras à sociedade.
Colston fora um deles.
Natural que, em 1895, admiradores ergueram uma estátua em sua homenagem na cidade de Bristol, de onde partiam seus navios negreiros com sua vergonhosa carga de africanos desesperados.
Neste ano de 2020, a torrente de manifestações de protesto contra o brutal assassinato de um negro por um policial em Minneapolis, EUA, atravessou fronteiras, alcançando muitos países.
Na Inglaterra, centenas de milhares de jovens encheram as ruas de várias cidades, exigindo o fim da discriminação racial e a igualdade entre negros e brancos.
Em Bristol, sua indignação contra as atrocidades sofridas pelos negros levou-os a derrubar a estátua do cruel traficante Edward Colston, símbolo da hipocrisia de uma sociedade, que pregava a moralidade e homenageava quem, por avidez ao lucro, explorava a escravidão de seres humanos.
Não será a única.
Os britânicos pretendem agora por abaixo estátuas de outros expoentes do escravismo, autores até de genocídios, que mancham a história do imperialismo inglês.
A próxima parece que será a de Cecil Rhodes, um dos construtores do império.
A frase a seguir exprime bem seu pensamento supremacista: “Eu sustento que nós (os ingleses) somos a melhor raça do mundo e que, quanto mais o mundo for habitado por nós, melhor será para a raça humana.”
Nascido na Inglaterra, em 1853, Rhodes estabeleceu-se nas colônias da África do Sul, e lá ficou até morrer, em 1902, tendo dedicado sua vida à expansão do império inglês e ao seu próprio enriquecimento, aproveitando-se de sua liderança na comunidade.
Como deputado e depois primeiro-ministro da colônia, ele aumentou o domínio inglês, assenhorando-se de vastas áreas ao norte do sul da África– hoje partilhadas pelos países Zimbabwe e Zâmbia.
Obteve ali concessões para a exploração de riquíssimas minas de ouro e diamantes. Para isso, Rhodes usou o trabalho forçado dos indígenas, submetendo-os às piores condições sanitárias, que provocaram a morte de dezenas de milhares deles.
Fundou ali a De Beers, que, na sua época, dominava 90% do mercado internacional de diamentes. Hoje, este número baixou para “apenas” 44%.
A ocupação da região conquistada esteve longe de ser pacífica.
Os indígenas Matebles se revoltaram contra a tomada dos territórios do seu país pelos ingleses.
Na chamada Guerra dos Matebeles, Rhodes organizou um exército de mercenários que, equipados até com metralhadoras, esmagaram os guerreiros indígenas, sem condições para resistir a armas de fogo modernas.
Rhodes desempenhou um papel de destaque na implantação do racismo na África do Sul.
Quando primeiro-ministro da colônia foi um precursor do apartheid. É de sua autoria o Glen Grey Act que removia à força negros africanos para reservas, impondo aos trabalhadores as mais duras leis.
Suas políticas discriminavam negros em escolas, hospitais, transporte público e eleições e os obrigava a portar passes, sob pena de prisão.
Decisões muito coerentes com sua opinião de que os africanos eram “o mais desprezível espécime entre os seres humanos.”
O supremacismo racial britânico de Rhodes está por trás de outro genocídio que ele ajudou a criar: a Guerra dos Boers.
Em meados do século 17, a Companhia das Índias Orientais Holandesas fundou a Cidade do Cabo, na colônia do Cabo, no extremo sul da África, povoando-a com imigrantes holandeses e também suecos e alemães.
Entre 1688 e 1689, chegaram imigrantes franceses, fugindo das guerras religiosas no seu país.
Da fusão dos colonos destas raças surgiu uma nova nação: os boers.
Tendo sido a Holanda dominada pelo imperador Napoleão, seu grande inimigo, a Inglaterra, invadiu e tomou a colônia do Cabo , em 1806. Com a derrota dos franceses, a Holanda fez as pazes com o governo de Londres e recuperou suas possessões africanas.
Por pouco tempo, novas discórdias entre os dois países, trouxeram novamente as forças inglesas que acabaram impondo de vez a british law em toda a colônia do Cabo..
Descontentes com a opressão dos seus novos senhores, os boers emigraram em massa, a partir de 1835, para regiões mais ao norte, instalando as repúblicas independentes do Transvaal e de Orange.
Descobertas de imensas jazidas de ouro e diamantes atraíram imigrantes ingleses para os dois estados livres, estimulados por Cecil Rhodes.
De olho nessas riquezas, ele organizou o chamado Jameson Raid, um grande bando de mercenários, que invadiram as terras dos boers.
Foram derrotados mas deram ao imperialismo inglês o pretexto para lançar uma guerra para a conquista dos Estados boers.
Foi um conflito extremamente cruel e brutal, de parte a parte. As forças de Sua Majestade distinguiram-se nas violências contra os direitos humanos.
Depois de derrotas iniciais, elas viraram o jogo, promovendo uma campanha de terra arrasada, devastando cidades, destruindo fazendas, queimando o gado, as plantações e colheitas, massacrando inimigos e supostos inimigos, inclusive grande número de trabalhadores africanos.
Foram os ingleses que “inventaram” os campos de concentração, onde homens, mulheres e crianças sofreram privações de comida e maus tratos.
Morreram muitos, foi um autêntico genocídio dos brancos boers.
Por fim, os ingleses venceram, incorporando mais países a seu imenso império, com Cecil Rhodes ganhando novas glórias e lucros.
Herói do imperialismo britânico, Cecil Rhodes deu nome a avenidas, ruas, praças, fundações e estátuas espalhadas por toda a Inglaterra. Além de batizar a região palco de suas chacinas racistas, a Rodésia.
Até na União Sul-Africana que, embora sendo independente há muitos anos, conservava a estátua de Rhodes na Universidade nacional, dali recentemente retirada depois de protestos dos estudantes.
Certamente, Cecil Rhodes merece, mais do que Colston, ter sua estátua derrubada, pelo menos a de Oxford, objetivo de campanha dos estudantes desta tradicional escola inglesa.
Embora certos heróis do passado, sejam considerados autênticos vilãos nos dias de hoje, não acho que suas estátuas devam ser destruídas.
Acredito que ficariam muito bem na foto se guardadas em museus, como testemunhas da história e da transitoriedade da moral na humanidade.

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