Crise na coalizão Hamas-Fatah.

Mahmoud Abbas, o presidente da Autoridade Palestina, deixou todo mundo surpreso em reunião no Egito.

Ele declarou que a coalizão Hamas-Fatah,  unindo os dois movimentos palestinos depois de 7 anos brigados, corria perigo de acabar.

Segundo Abbas, que também preside o Fatah, o Hamas não aceitava na prática o governo de coalizão, continuando a administrar Gaza, através do que ele chamou de um “governo nas  sombras” (shadow govern).

E , desse jeito, “não haverá uma parceria entre nós”.

O Hamas reagiu, a princípio de forma moderada.

Khaled Meshaal, seu líder no exílio, pediu que Abbas não discutisse os problemas dos dois grupos pela mídia.

E fez uma proposta construtiva: “Apelo para que Abbas, o Fatah, o Hamas e todas as facções e forças palestinas, inclusive personalidades independentes, se encontrem o mais cedo possível  para chegarem a um acordo afim de completar nossa união e (determinar) os próximos caminhos…uma voz, uma decisão, uma autoridade e um objetivo.”

Seria uma forma de salvar a união dos dois movimentos, separados  desde 2007, quando o Hamas consolidou seu poder em Gaza, enquanto o Fatah permanecia no comando dos palestinos na Cisjordânia.

Nos últimos anos, houve várias tentativas de reaproximação, frustradas até que, em 2014, tudo parecia que ia dar certo.

Em abril, os dois movimentos assinaram um acordo para reunir Gaza e Cisjordânia sob uma única autoridade.

Na seqüencia, em 2 de junho, tomou posse um ministério de tecnocratas, continuando Abbas na presidência até as eleições a serem marcadas neste ano.

Israel rejeitou a nova ordem com furor, pois  com os dois movimentos unidos, a causa da independência palestina seria defendida com muito mais força.

A alegação de que, sendo o Hamas supostamente terrorista, um governo que o representasse jamais favoreceria a paz, foi ignorada pelos EUA.

Obama considerou que a unificação era vantajosa: o Hamas necessário para se chegar a um acordo  representativo da comunidade palestina como um todo.

A unificação pressupunha que os ministros (membros do Hamas), que vinham dirigindo Gaza, renunciassem em favor do novo governo.

Isso foi feito, cabendo aos sub-ministros cuidar provisoriamente dos problemas da Faixa.

Com o início da guerra contra Israel já em 8 de julho, não houve tempo, nem condições,  para o novo governo assumir Gaza.

O Hamas continuou no poder.

E permaneceu, mesmo depois do fim das hostilidades, passando a tomar providências para implementar as decisões do acordo de cessar – fogo.

Contra isso, Abbas se insurgiu.

Defendendo-se, o Hamas alega que nem Abbas, nem seu primeiro-ministro jamais visitaram Gaza desde a unificação.

Por isso, o  chamado “governo nas sombras” teve de continuar  para não haver um vácuo no poder.

Para alguns, tanto os protestos de Abbas, quanto as explicações do Hamas são simples cortinas de fumaça para esconder o que está acontecendo de fato.

Diz Mkhaimar Abusada , cientista político na Universidade Al Azhar, em Gaza : “Não há qualquer confiança entre o Fatah e o Hamas. Ambos vêm a reconciliação como uma tática provisória do outro partido, mas nenhum dos dois está interessado na reconciliação como uma ação estratégica.”

Não deixa de ter alguma razão.

Hamas e Fatah tem pontos de vista diferentes sobre como conseguir a independência da Palestina.

O Hamas é radical – acredita que Israel e seu padrinho, os EUA, jamais aceitarão uma Palestina livre e viável através de negociações.

Não creio que eles pensem que podem vencer Israel pela força das armas.

Acho que seu alvo é obter pressão internacional capaz de obrigar Israel a ceder, algo como o boicote que derrotou o regime de apartheid na África do Sul.

Um governo de extrema-direita como o de Netanyahu fatalmente praticaria atos cada vez mais violentos na repressão das ações rebeldes.

O que poderia chocar a opinião pública ocidental de tal maneira que induzisse seus governos a agir em favor da independência palestina.

Já para o Fatah, o caminho passa necessariamente por um acordo com Israel, ainda que longe do ideal, sob o patrocínio dos EUA.

Para isso, Abbas fez questão de ser extremamente concessivo nas recentes negociações fracassadas com Netanyahu, ganhando muitos pontos com Obama.

E agora, apesar de Israel ter ocupado a maior área palestina já tomada para assentamentos em todos os tempos,  ele continua falando na “ solução dos dois Estados”, tão cara ao Ocidente. Apelando para a boa vontade de Netanyahu, que ele está careca de saber que não existe.

Mas essa divergência de posições será bastante para Hamas e Fatah deletarem a unificação?

Aparentemente a postura de Abbas, ameaçando publicamente, em vez de discutir o problema  de Gaza intra muros, provaria que sim.

E o Hamas também demonstraria idêntica vontade de romper a julgar pelas declarações do seu porta-voz, Fawsi Barhoum, dois dias depois do “deixa disso” do líder Mashaal.

Barhoum disse que Abbas estaria tentando “…destruir a reconciliação  e  colocar-se nas mãos dos americanos e israelenses.”

A tudo isso, some-se que, em recente pesquisa para presidente da Palestina, Abbas perdeu para Hanyeh, o principal líder do Hamas em Gaza, por 61% x 32% dos respondentes.

Se, como previsto, haveria proximamente as eleições presidenciais do novo Estado palestino, formado pela Cisjordânia e Gaza, ele seria fatalmente derrotado.

Mais um motivo para se afastar da incômoda parceria com seu antigo rival.

E sair atirando, jogando as culpas sobre o Hamas, culpando-o por impedir uma verdadeira unificação, ao isolar Gaza do novo Estado.

Isso acontecendo, o Hamas certamente se oporia a que Abbas  controlasse a fronteira de Rafah, com o Egito, essencial para a reconstrução da Faixa e também para sua própria existência.

Assim o acordo de paz de Gaza iria para o espaço, a guerra poderia voltar e os dirigentes do Hamas seriam os culpados, perdendo pontos junto ao povo e à comunidade internacional.

Apesar de todas estas conjecturas negativas, há uma análise mais otimista que pode ser feita.

Abbas teria preferido reclamar pela mídia para assustar o Hamas e assim poder exigir em posição de força a entrega de Gaza às autoridade do governo de unificação, aliás, presidido por ele.

Embora Abbas provavelmente não tenha abandonado o sonho de uma paz abençoada pela Casa Branca, não é de desprezar a força que lhe dará a liderança de todos os movimentos palestinos.

E, como a opinião pública costuma ser volátil, a possibilidade de arrancar um bom acordo final para Gaza poderá salvar sua face e passar a liderar nas pesquisas.

Caso vá adiante e entre na ONU, pedindo o reconhecimento da Palestina como estado-membro,  seu IBOPE tende a crescer.

Que poderá ir às alturas se levar Israel como réu ao Tribunal Criminal Internacional – o que acho duvidoso, mas não impossível.

Já para o Hamas, a participação num governo unindo todos os palestinos é uma jogada hábil. Seu passo seguinte seria reconhecer Israel como Estado nas fronteiras de 1967, como já fez em anos anteriores. Desde, É claro, que houvesse uma solução para o problema dos 400 mil refugiados, expulsos por Israel.

Nada diferente do que a Europa e os EUA propõem.

Não haveria por que o Ocidente continuar classificando o Hamas como terrorista, coisa que ele deixou de ser há muito tempo.

Saindo da lista negra, o Hamas estaria em condições para receber ajuda econômica de toda a parte, fundamental para Gaza.

Ele também tem muitos motivos na manutenção da unificação com o Fatah.

Apesar da troca de palavras duras entre os líderes dos dois movimentos, a racionalidade ainda pode prevalecer.

 

 

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