Crime sem castigo: e agora Cameron ?

Um crime cometido há 24 anos está deixando mal o governo conservador inglês nos EUA.

O senador republicano Chris Smith, presidente de comissão especial do Senado, acusou o primeiro ministro Cameron de “injustiça maciça” por “proteger os responsáveis pelo assassinato do advogado irlandês Pat Finucane,” em Belfast, Irlanda do Norte.

Indiretamente, a então premier Margareth Thatcher, do Partido Conservador, deveria compartilhar as culpas.

Nos anos 80, a Irlanda do Norte fervia com movimentos de protestos e atentados do IRA (“Exército Revolucionário Irlandês”) contra o domínio inglês.

Nessa época, o governo Thatcher institucionalizou a colaboração entre as forças armadas e os esquadrões da morte do Ulster, inimigos mortais dos rebeldes.

Em 1982, a inteligência militar britânica recrutou agentes para matar cidadãos suspeitos de serem militantes ou colaboradores do IRA.

Com pleno acordo do governo, um desses agentes, Brian Nelson, também membro da Associação de Defesa do Ulster (UDA), viajou à África do Sul com o objetivo de negociar clandestinamente a compra de grande número de fuzis, granadas e até lançadores de mísseis.

Destinavam-se aos grupos paramilitares anti- rebveldes.

Como resultado, enquanto que nos 3 anos anteriores à chegada desse arsenal os esquadrões da morte mataram 34 pessoas, nos 3 anos seguintes mataram 224.

Uma delas foi Pat Finucane, destacado advogado de direitos humanos, que havia defendido vários líderes revolucionários irlandeses.

Por isso mesmo, estava na lista negra dos paramilitares ligados ao UDA.

Em fevereiro de 1989, pistoleiros invadiram sua casa e o executaram diante de sua mulher e filhos.

Realizado à luz do dia, o crime chocou até mesmo a opinião pública da Inglaterra.

Sob pressão, instaurou-se um inquérito pelas autoridades locais, considerado negligente e parcial pela família do morto.

Protestos se sucederam pelos jornais, e, em 1991, o governo, agora liderado pelo trabalhista Tony Blair, ordenou que o juiz Peter Cory assumisse a investigação do caso.

Cory descobriu provas documentais de que membros do exército inglês, do MI5 (serviço de contra- espionagem) e  autoridades locais estavam por dentro da conspiração contra Finucane.

Solicitou, então, ao governo a realização de uma investigação pública e independente, com amplos recursos e poderes.

Em princípio, o governo concordou. Mas optou por adiar, esperando por novas provas no julgamento de Kevin Barrett, ex- paramilitar e informante da Polícia, implicado no crime.

Em 2004, o processo terminou com a confissão e condenação de Barrett a 22 anos de prisão, como autor direto do assassinato.

Havia agora fortes indícios de que o Estado tivera papel destacado no caso.

Atendendo à opinião pública, o primeiro- ministro Tony Blair anunciou, por fim, o início da investigação requerida. Mas, seria sob lei que dava direito ao governo de bloquear exames aprofundados de ações do Estado.

Protestos gerais da família do advogado, do juiz Peter Cory, da Anistia Internacional e de muitas outras associações e sindicatos, que exigiam uma investigação realmente independente.

Nada feito, as coisas seguiram como o governo queria e em junho de 2007 soube-se que nenhum militar ou policial seria acusado…

Em 2010, foi eleito um novo governo, o do conservador primeiro- ministro David Cameron.

Quem esperava que ele buscar os culpados sriamente, doa a quem doer, saiu frustrado.

Cameron decidiu apenas encarregar sir Desmond de Silva de proceder a um estudo minucioso de todo o caso, analisando depoimentos, documentos, provas físicas e alegações existentes.

No seu relatório final, de Silva concluiu que policiais da Irlanda do Norte planejaram o crime, passaram informações aos assassinos e obstruíram a investigação criminal. O envolvimento de autoridades do exército e da inteligência militar também foi destacado.

O próprio Cameron se declarou chocado.

Só faltou se descobrir os nomes.

A família Finucane repetiu, mais uma vez, a solicitação de uma investigação independente, como, aliás, Tony Blair havia prometido.

E Cameron disse não.

A viúva Finucane e seu filho Michael, mesmo depois de 24 anos de lutas em vão, não desistiram.

Já que tinham esgotado tudo o que poderiam conseguir na Inglaterra, voltaram-se para os EUA.

Falando no Comitê de Segurança e Cooperação com a Europa do Senado, Michael Fin descreveu a relação do governo inglês da era Thatcher com os paramilitares como a utilização de “assassinos por procuração”.

Em depoimento escrito, disse ainda:”O Estado foi claramente culpado do assassinato de Pat Finucane. Simplesmente não podia se dar ao luxo de admitir seu envolvimento num crime tão hediondo como o assassinato de um  dos seus próprios cidadãos.”

A causa da família Finucane foi encampada pelo presidente do comitê, o senador republicano Chris Smith.

Ele já impediu que policiais da Irlanda do Norte recebessem treinamento nos EUA, enquanto os culpados pelo assassinado não fossem descobertos e punidos.

Na tribuna do Senado, criticou severamente o primeiro ministro inglês por, praticamente, acobertar os criminosos.

Também por iniciativa de Smith, está correndo entre os senadores dos EUA um abaixo assinado, requerendo que Cameron não deixe o crime impune e trate de iniciar logo uma investigação independente.

Na verdade, o líder inglês está moralmente obrigado uma vez que já admitiu , ao menos a co- responsabilidade da polícia norte-  irlandesa e da inteligência britânica.

É duvidoso que ele faça alguma coisa.

Seria mexer num vespeiro que, possivelmente, atingiria figuras históricas do próprio Partido Conservador.

Além disso, os policiais, agentes e militares envolvidos nos fatos acontecidos em 1989, que ainda estão vivos, já se aposentaram ou devem ocupar funções importantes.

Muitos deles eram próximos ao Partido Conservador, que, afinal, governava a Inglaterra naqueles anos trágicos. Talvez ainda sejam.

A revelação dos seus nomes poderia causar um escândalo de consequências altamente danosas ao establishment inglês.

É preciso ainda lembrar que, nesses tempos em que a ameaça do terrorismo é super estimada, os agentes da segurança gozam de privilégios especiais em países como a Inglaterra.

Se não estão acima da lei, estão quase.

A absolvição total dos policiais ingleses que mataram o brasileiro Jean Charles, sem motivo algum, é um bom exemplo.

Apesar do empenho e da dignidade do senador americano e dos colegas que o apoiam, dá para imaginar a reação do governo de Sua Majestade aos apelos por uma investigação independente do assassinato de Pat Finucane.

Vai deixar essa sujeira debaixo do tapete.

 

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