Bush de mãos atadas

Visitando Cuba, pela quarta vez neste ano, Chávez chamou Bush de “senhor da guerra” e o imperialismo americano de “maior ameaça ao mundo”, que caminhará para a destruição caso continue no caminho imposto por Washington.

Foram declarações em resposta às acusações de Rumsfeld e acólitos durante périplo pelo Paraguai e Peru. O secretário da Defesa afirmou que Venezuela e Cuba estariam espalhando idéias revolucionárias na América Latina, que a empurrariam em direção oposta ao desenvolvimento. Ainda mais explícito, Roger Pardou-Maurer, secretário-assistente da Defesa, disse que a dupla Fidel-Chávez atuava nos movimentos rebeldes da Bolívia e da Colômbia, com o alvo de estabelecer um “poder marxista” nos países da região.
Desde a posse de Chávez, o governo Bush vem jogado duro com ele. Através do National Endowment Act do Congresso americano (controlado pelo Partido Republicano), foi fornecido 1,5 milhão de dólares aos inimigos de Chávez. O golpe fracassado de 2002 teve o indisfarçado apoio de Bush.
Condoleeza, Rumsfeld e outras estrelas do governo têm feito visitas periódicas a países latino-americanos, alertando contra “o perigo Chávez” e pedindo apoio contra ele. Em julho último, projeto aprovado da deputada republicana  Connie Mack criou programas de rádio e TV para transmitirem à Venezuela  anti-chavista.
Nesta visita a Cuba, Chávez disse que não pretendia romper relações com os Estados Unidos. Entretanto, caso as autoridades americanas continuassem em sua postura agressiva, isso poderia vir a acontecer. E completou: “Dois navios-tanques cheios com petróleo venezuelano, que chegam diariamente nos Estados Unidos, poderão navegar numa direção diferente”. Aí o nó da questão, que faz os Estados Unidos considerarem Chávez um inimigo perigoso, um verdadeiro Saddam Hussein.
Como Saddam Hussein, o presidente da Venezuela não morre de amores pelos americanos, particularmente pelo governo Bush. Como o ex-ditador iraquiano, Chávez é aliado a “bad guys”, respectivamente os rebeldes palestinos e Fidel Castro. E os países de ambos são ricos em petróleo, artigo absolutamente essencial à economia americana.
A Venezuela é o quarto maior exportador de petróleo para os Estados Unidos, com 15% do volume total É extremamente conveniente aos Estados Unidos em termos estratégicos por sua proximidade, além da  sua exploração não estar sujeita a atentados terroristas. Um corte do suprimento do petróleo venezuelano causaria tremendos problemas aos americanos, pela dificuldade e demora em conseguir novos fornecedores, aliás, com menores vantagens.
Mas Chávez também causa problemas na área política. Sua amizade-aliança com Fidel Castro é preocupante. Ele pode ser ainda decisivo na unificação da América Latina, contribuindo para a superação do projeto da ALCA, a expansão do Mercosul e da ALBA (Alternativa Bolivariana para as Américas), que poderá atrair outros países do Caribe, muito em função da Petrocaribe.
A Petrocaribe surgiu em 30 de junho, por proposta da Venezuela com o apoio dos estados do Caribe, exceção de Trinidad-Tobago e Barbados: uma petrolífera com a participação de capitais estatais dos países da América Latina,  independente das companhias americanas. Ela praticaria preços diferenciados para os países subdesenvolvidos, inferiores aos do mercado internacional. Cuba e Jamaica já estão se beneficiando. Washington teme que essas benesses da Petrocaribe sabotem a unanimidade pró-ianque existente na América Central e Caribe.
Para Bush, admitir um novo Fidel Castro justamente no seu quintal é algo inaceitável. Mas o que fazer? Apelar para pressões econômicas não daria certo. A Venezuela não depende nem do FMI, nem das finanças internacionais, pois não tem uma colossal dívida externa. Se os Estados Unidos cortassem suas importações de petróleo, ela não teria dificuldades em substituí-los pela China e o Mercosul. Os americanos é que sofreriam, como se viu acima.
Já tentaram, sem êxito, vencer Chávez em eleições e referendos, subsidiando fartamente a oposição, e derrubá-lo via golpe de Estado. Sabem que também não será por aí. Chávez dispõe de imenso apoio popular, 70,5%, conforme pesquisa da Datanalise, realizada em março deste ano. Cifra que só tende a aumentar. Com a escalada dos preços do barril de petróleo de 10 para 50 e agora 65 dólares, nos últimos seis anos, Chávez tem recursos para os mais ambiciosos programas sociais já realizados na América – latina. Aumentando os royalties das petrolíferas de 1 para 30% e destinando 1/3 do total para investimentos sociais, eles dobraram entre 2003 e 2005, chegando a 24,6 bilhões de dólares. O que é muito para uma população de 25 milhões de habitantes.
A última saída seria  a invasão. Porém, aí também fica difícil. Bush não conseguiu jogar os governos latino-americanos contra Chávez. Pelo contrário, Chávez conta com a amizade da Argentina, Brasil, Uruguai, Cuba e, provavelmente, do México, com a iminente vitória do esquerdista Lopes Obrador, e a boa vontade do Chile, do Equador e dos países caribenhos e centro-americanos beneficiados pela Petrocaribe.
Se, mesmo assim, resolver atacar sozinho, terá de enfrentar uma resistência feroz. Chávez já se preparou, adquirindo da Rússia 50 Migs, 40 helicópteros e grande estoque de fuzis e metralhadoras moderníssimos. Já há alguns anos, vem treinando milícias de autodefesa em todo o país e oficiais em Cuba.
Seria mau negócio para Bush manter 2 Iraques, quiçá 3  (o Irã está na alça da mira), desagradando e até enfurecendo aliados e sofrendo pesadas baixas. Os custos militares, financeiros, políticos e em vidas humanas somados representariam um custo eleitoral brutal, a ser pago logo em 2006, na renovação do congresso americano. 
Suportar um Fidel já é dose para Bush, dois passa dos limites. Ele não desistirá: intrigando Chávez, desacreditando-o e, sobretudo, esperando que ele faça alguma besteira. Portanto, se Chávez não for longe demais nos seus ataques, acabará marcando um gol de placa: a união da América Latina, livre da discutível associação ao poderoso irmão do norte – que Chávez, sem se arrogar a condição de líder, tem as maiores chances de conseguir.

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