Bárbaro, selvagem, irresponsável

Assim o governador da cidade iraquiana de Basra qualificou um incidente que chocou profundamente a população. Não, não foi mais um atentado terrorista. Foi isso sim uma ação das tropas inglesas , ordenada pelo comandante da região. E apoiada pelo Secretário da Defesa da Inglaterra.

No domingo, 19 de setembro, um carro transportando dois homens vestidos com roupas tradicionais árabes foi detido pela polícia num posto de controle. Reagiram atirando e matando um policial. Dominados, revelaram serem soldados ingleses das Forças Especiais, agindo disfarçados. A polícia iraquiana, então, os conduziu à delegacia de Jamiat no centro da cidade, onde foram fotografados pela imprensa.

Rapidamente, o comando inglês da cidade solicitou a libertação dos seus espiões, o que foi recusado.

Enquanto isso, formara-se uma multidão em volta da delegacia, exigindo a manutenção dos soldados ingleses na prisão. No conflito que se seguiu, o povo incendiou dois blindados ingleses que estavam no  local.

Diante disso, por ordem do brigadeiro Lorimer, comandante inglês da região, uma força integrada por 10 tanques, com apoio de helicópteros,  atacou a delegacia, derrubando seus muros exteriores. Os  soldados foram libertados. Aproveitando a situação, cerca de 150 presos fugiram. A ação britânica deixou um saldo negativo de 5 civis mortos.

O brigadeiro Lorimer alega que, por acordo entre  o governo iraquiano e os exércitos da coalizão, seus soldados não estão sujeitos à lei do Iraque. Portanto, os espiões deveriam ser soltos. Por aí se vê que,  no Iraque,  a lei não se aplica a todos – os soldados estrangeiros estão acima dela. Não é uma condição característica dos países independentes.  Em países assim, ninguém pode se esquivar à obediência às leis.

Ao tomar pela força pessoas legalmente aprisionadas pelas autoridades locais, o exército inglês mostrou que é a verdadeira autoridade na região. O que nos leva a concluir que, nas tão saudadas eleições democráticas de janeiro, o que se elegeu foi um governo fantoche, sem poder para realizar suas funções e fazer cumprir as leis iraquianas.

Perguntado por que não procurara resolver o problema através de negociações, o brigadeiro Lorimer declarou que tinha pressa. Decidiu-se por um ataque imediato por temer pela segurança dos soldados ingleses, pois recebera informações de que eles haviam sido entregues às milícias locais. O que foi contestado pelo ministro do Interior iraquiano (por sinal, aliado dos ingleses) em entrevista à BBC. Ele garantiu que os ingleses estiveram sempre sob custódia da polícia.

A atitude do exército inglês foi firmemente apoiada pelo secretário da Defesa da Inglaterra, John Reid. Aparentemente, o exército inglês está abandonando a postura prudente  que vinha mantendo no sul do Iraque. O que seus oficiais mais criticavam nos americanos, o uso desproporcional da força, mesmo em função de indícios apenas tênues, aconteceu no ataque à delegacia de Basra. Como no far-west, eles primeiro atiraram para depois fazer perguntas.

A ação do brigadeiro Lorimer é muito grave. Ela significa um claro desrespeito às autoridades constituídas, ou seja, os policiais nomeados pelo governo iraquiano legitimamente eleito. A aprovação oficial do ministro da Defesa John Reid agrava o feito. Faz lembrar o chamado “Domingo Sangrento”, na Irlanda do Norte, quando pára-quedistas britânicos atiraram à queima-roupa contra uma marcha pacífica de protesto, matando 13 pessoas e ferindo dezenas, e foram ilibados pelo governo inglês, que ainda condecorou seu comandante.

Esse ataque à delegacia de Jamiat causou uma crise em Basra.

Já no dia seguinte, o governo da região proibiu reuniões com militares ingleses, sua presença em qualquer edifício público e em patrulhas conjuntas com soldados iraquianos. E 500 manifestantes saíram às ruas, exigindo a volta dos espiões ingleses para a cadeia. Um dos cartazes que carregavam dizia: Os ingleses prometeram soberania. Onde está esta soberania, depois de  destruírem uma delegacia e matarem 5 civis?

Para muitos analistas, está onde sempre esteve: em parte alguma.

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