As revoluções americanas

Nos últimos anos, maciças manifestações de rua vem derrubando governos. Elas apresentam alguns elementos comuns: são contra governantes corruptos e fraudadores das eleições; o povo é motivado à ação por bem articuladas campanhas de opinião pública e o exército mantém-se neutro.

Analisando estas revoltas, notamos que, na maioria delas, o governo americano, diretamente e através de ONGs, tem papel destacado, quando não o principal.

As novas “revoluções americanas” representam uma estratégia do governo Bush para a promoção internacional dos interesses americanos, adaptada aos tempos de hoje.

As intervenções armadas para substituir governos rebeldes por ditaduras cruéis mas obedientes já eram. Elas cobram alto preço em vidas e dinheiro, desgastam o prestígio do presidente. E chocam-se com a filosofia da sua cruzada pela conversão do mundo à democracia. Por isso, Bush usa este recurso somente em último caso, como aconteceu no Iraque. Quando a situação permite, prefere promover levantes populares.

Os alvos preferenciais têm sido países integrantes da ex-União Soviética. Depois da queda do comunismo, todos eles permaneceram ligados à Rússia. Trazê-los para o lado dos Estados Unidos é muito importante. Convém enfraquecer a Rússia de um pouco amigável Putin. Afinal, ela vem desobedecendo às leis do neoliberalismo, ao re-estatizar grandes empresas e prender seus proprietários, fornece tecnologia nuclear ao Irã, vende mísseis à Síria e Kalashnikovs à Venezuela. Além disso, a maioria dos antigos integrantes do mundo soviético detém vastos recursos em petróleo, gás e minérios e têm elevado interesse estratégico pela sua situação geográfica. Dispor destas riquezas e ainda cercar a Rússia com bases da Nato são objetivos altamente desejáveis.

Foi fácil garantir a adesão de países como o Uzbequistão e o Azerbaijão, sequiosos por dólares em troca do seu petróleo e da instalação de bases militares em seus territórios. Não se levou em conta o fato deles serem dirigidos por governos que nada têm de democráticos. 

O Uzbequistão é considerado pela Human Right Watch como um dos maiores violadores dos direitos humanos, com prisões em massa de dissidentes (entre 7 mil e 10 mil encarcerados em 2003), torturas e violências. Mas, para Bush, é um bom amigo, ao qual paga 500 milhões de dólares por ano para ter uma base militar no país.

Por sua vez, no Azerbaijão, cujo presidente foi eleito fraudulentamente, os oposicionistas são presos, não há liberdade de imprensa e de religião e os direitos humanos são constantemente desrespeitados. O país está em disputa com a Armênia pelo enclave de Karabakh (77% de população armênia). A respeito disso, declarou o presidente Ilham Alyev : “nós esmagaremos a cabeça dos armênios”. 

Mas, em 1998, fechou um contrato de exploração de petróleo no valor de 13 bilhões com a BP, o que o tornou um estadista democrático e amante da paz…

Com a Geórgia e a Ucrânia foi necessário usar táticas agressivas de marketing político. Ambas nações ofereciam condições ideais para provocar a revolta popular. Seus governos eram autocráticos, corruptos, ineficientes e estavam fracos diante da opinião pública.

Os pretextos foram fraudes nas eleições parlamentares da Geórgia, ganhas pelo partido do ex-presidente Eduard Shevarnadze, e nas presidenciais da Ucrânia, que elegeram o candidato do governo, Leonid Kuchma.

Foram trazidos experts em comunicação de massa para criar e orquestrar campanhas de opinião pública.

Contando com grande cobertura na mídia, o uso competente de propaganda e de eventos de massa, a “revolução rosa” da Geórgia e a “revolução laranja” da Ucrânia levaram centenas de milhares de pessoas às ruas, exigindo novas eleições e governos democráticos.

Os recursos para estas operações vieram de ONGs de origem americana como o Liberty Institute, apoiado pela United States Agency for International Development; a Open Society do megafinancista George Soros e o National Endowment for Democracy (NED), entidade financiada pelo Congresso dos Estados Unidos. Deu certo. Estando os governos desmoralizados, a polícia reprimiu pouco, o exército se omitiu e os parlamentos e tribunais atenderam à oposição dita democrática que, assim, assumiu o poder.

Desde logo, os novos governos buscaram aproximar-se da Nato e dos Estados Unidos. Além disso, restauraram a GUUAM, um pacto há muito tempo desativado, que unia Geórgia, Ucrânia, Uzbequistão, Azerbaijão e Moldávia – para “contrabalançar o poder da Rússia”.

No Líbano e na Venezuela, o modelo ucraniano foi fielmente aplicado. Embora houvesse sucesso parcial no país oriental – quando a oposição conseguiu a retirada do exército sírio, mas não a queda do governo -, na Venezuela, Chávez venceu.

Esses países não saíram da mira de Washington, mas quem parece ser o próximo a sofrer uma “revolução americana” é a Bielorússia. A campanha contra o regime do presidente Alexander Lukashenko está em marcha. Bush já determinou sanções contra a Belarus e ajuda financeira a organizações não-governamentais e à mídia independente, para “promover a democracia”…

Logo depois do referendo de 2004, que deu a Lukashenko o direito de candidatar-se pela terceira vez em 2006, sucederam-se os ataques de autoridades e jornais ocidentais. Bush declarou o país “a última ditadura da Europa”, e Condoleezza Rice, secretária de Estado norte-americana, afirmou ser “hora de mudar”.

A British Helsinki Human Rights Group vê exageros nas críticas: “dizem que a Bielorússia é o ultimo regime stalinista na Europa, embora existam vários partidos políticos; não tem liberdade de imprensa, embora haja mais jornais de oposição do que pró-governo; é um estado policial, embora não haja presos políticos”.

O certo é que Lukashenko restringe as ações da oposição, o que é melhor do que não lhes permitir nada como fazem no Uzbequistão e no Turcomenistão. Embora o presidente tenha certo prestígio popular (48% dos votos no referendo de 2004), a “revolução americana” pode contabilizar mais um triunfo. Depende em grande parte de como vão as coisas nos vizinhos, governados pelas revoluções rosa e laranja.

Na Geórgia, que Bush chama de “o farol da liberdade”, o presidente Mikhail Saakashivili começou mal, sendo eleito por uma maioria altamente suspeita de 96% dos votos. Nestes seus 18 meses de governo, a tortura continua sendo praticada nas prisões; o direito de reunião é restringido e verificaram-se expurgos em massa de funcionários públicos da era Shevardnadze. A Assembléia Parlamentar do Conselho da Europa notou que a nova constituição “deu poderes excessivos ao presidente sobre uma enfraquecida oposição parlamentar” e “não garantiu um sistema judicial eficiente e independente e introduziu auto-censura na mídia.”

Por sua vez, a Human Rights Watch reporta tolerância governamental diante de violências contra minorias religiosas. Crises nos fornecimentos de água e de energia causaram grandes demonstrações populares de protesto. A desilusão começa a fermentar refletindo-se na redução de 25% no prestígio de Saakashivili, conforme recente pesquisa. 

Na Ucrânia, o presidente Yushensko concluiu recentemente cem dias de mandato. Ele tem sido duro no relacionamento com os empresários ligados ao antigo regime. E negou à rede de televisão NTN, de propriedade de amigos do líder da oposição, o direito de transmitir para todo o país. 

É pouco para ser julgado, mas o fracasso dele e de Saakashvili porá em risco não só as “revoluções” que já estão programadas como também as que eles lideraram.

Com a “revolução rosa” e a “revolução laranja”, o povo aprendeu que é capaz de derrubar governos. E pode muito bem fazer o mesmo com os revolucionários de ontem.

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