Anexação: vitória de Israel e derrota da justiça.

Enquanto o dia da anexação se aproxima, os palestinos parecem em dificuldades para oferecer uma resistência relevante.

Escarmentado pelas pesadas perdas em três guerras de Gaza e por inúmeros conflitos pontuais com os israelenses, o Hamas, governante de Gaza, sabe que não está preparado para lançar um confronto militar. Não é a hora.

 Embora já possua mísseis de longo alcance, que poderão causar sérios danos o território de Israel, o inimigo ainda é bem mais poderoso.

 Caso o Hamas optasse por operações militares de impacto, o premiê Netanyahu reagiria, atacando Gaza, talvez até às últimas consequências, com o apoio incondicional de Donald Trump. Mesmo a maioria do povo americano, atualmente simpático aos palestinos, tenderia a ficar contra eles, se cidades israelenses fossem atingidas com perdas humanas.

Para evitar essa situação indesejável, o Hamas não se propõe a uma ação consistente contra a anexação, limita-se a ataques verbais.

Provavelmente, o mesmo que se espera da Europa, dos países árabes e até da Turquia e do irã, que são islâmicos, porém não são árabes. Todos eles, além da ONU e da Liga Árabe, têm manifestado total condenação à decisão israelense.

Reflexo desse sentimento na Europa foi a revogação pela Corte Europeia de Direitos Humanos de uma sentença condenatória de ativistas do BDS. Decisão emblemática, pois este movimento, que reage contra os assentamentos e a ocupação, defende o boicote das relações econômicas, culturais, esportivas e artísticas com Israel, vem sendo perseguido nos EUA e em países do Velho Mundo. 

A justiça, nesse caso do tribunal europeu, ficou do lado da opinião pública.

É possível dizer que nunca houve uma tão grande confluência em favor dos direitos do povo palestino, violados sistematicamente por Israel.

A anexação prometida é ilegal pelas convenções de Genebra e pelo Direito Internacional, pois não passa da aquisição pela força de um território estrangeiro. Um verdadeiro roubo – ou seja, um furto, com uso da força.

Some-se a isso a chocante decisão do governo de Jerusalém de negar cidadania aos palestinos habitantes das áreas anexadas.  Isso se trata de apartheid, algo totalmente inaceitável, repelido universalmente como repulsivo e criminoso.

Lembro que o apartheid, na sua versão aplicada na África do Sul, foi alvo de sanções partidas de países do Ocidente, principalmente.

Mas, no mundo de hoje, a Europa, a maioria dos países da América do Sul e da África, além do Japão, Coreia do Sul e Austrália estão submetidos à hegemonia dos EUA, aliado e protetor incondicional de Israel.

Não se espera que ousem enfrentar as iras do morador da Casa Branca.

Embora Heiko Maas, ministro do Exterior da Alemanha, tenha informado a seus amigos de Jerusalém que alguns países europeus poderão recorrer a sanções se a anexação e o apartheid se confirmarem, acho duvidoso. No máximo deverão atacar Israel somente com palavras, talvez mesmo duras.

 Foi o que recentemente fez Bojo Johnson, premiê do Reino Unido, país aliado especial dos EUA. Irritou Trump, mas aposto que o inglês ficará nisso isso.

 Rússia e Irã, irreverentes opositores do America, first, já se arriscam muito ao se envolver na guerra da Síria e nos seus conflitos com os EUA. Deverão ser afrontosos, usando como armas pouco mais do que desaforos. Talvez com alguma ação agressiva pontual, através de proxis como os Houthis ou o Hisbolá.

Quanto à China, prefere disputar o comando mundial dos EUA disparando investimentos nos países em desenvolvimento na América Latina, África e Ásia. Começam a brigar em escala global, com o 5G da Huamwei, arrebatando clientes das tecnologias americanas.

Só resta aos palestinos contarem com eles próprios para deixar Israel se mordendo de raiva.

Como, por ora, não tem condições de liderar um enfrentamento geral à anexação, tanto o Hamas quanto a Jihad Islâmica e os oposicionistas do Fatá optaram por apoiar o plano de Abbas para confrontar Israel.

O povo palestino tem pouca fé nas ameaças de retaliações a Israel prometidas por esse dirigente palestino.

Mahmoud Abbas completou 15 anos na presidência da Autoridade Palestina, fundada em consequência dos Acordos de Oslo, em 1993.

Firmado por israelenses e palestinos, sob supervisão dos EUA, esse acordo objetivava criar o Estado da Palestina, garantindo segurança a Israel, através de uma série de fases progressivas.

Na primeira fase, o território da Palestina a oeste do rio Jordão foi dividido em três partes: a área A, sob administração e segurança a cargo  da Autoridade Palestina; a área B, com administração palestina e segurança dividida entre as duas partes e a área C (maior do que as outras duas juntas) , onde fica a maioria dos assentamentos, com administração e segurança  por Israel.

 A medida que o processo se desenvolvesse, aconteceriam negociações entre palestinos e israelenses, para definir as condições para a fundação do Estado Palestino e as medidas que garantiriam a segurança de Israel.

Desde o início de sua gestão, Abbas acreditava que só com a intervenção dos EUA se chegaria a um acordo justo para seu povo.

Apesar dos governos americanos terem sido quase sempre mediadores parciais, favorecendo interesses de Israel, Abbas continuou defendendo uma solução moderada sob a desejada égide dos EUA, renegando opções bélicas.

 Manteve suas ideias mesmo diante do contínuo avanço de novos assentamentos em terras dos palestinos, que tornaram a ocupação um fait accompli, impondo uma redução fatal na área de um futuro Estado palestino.

Chegou mesmo a confiar nas promessas milagrosas de Trump, ignorando as abundantes evidências da estreita ligação entre The Donald e Netanyahu.

Na condição de líder de seu povo, reconhecida pela comunidade internacional, Abbas jamais cumpriu eventuais ameaças de reação a fatos particularmente espúrios que prejudicaram os palestinos.

A mais grave aconteceu em 2016, quando anunciou que sairia do Acordo de Oslo.

Abbas explicou que Israel recusava-se a cumprir o acordo, expandindo os assentamentos ilegais em terras palestinas, sabotando as negociações de paz e violando uma data de direitos humanos e resoluções da ONU.

Israel não mudou seu comportamento e Abbas desistiu da ameaça.

Em outras ocasiões, diante de atos da maior gravidade como a mudança ilegal da embaixada americana para Jerusalém ou o massacre de 116 palestinos em manifestações pacíficas na fronteira com Gaza, esperava-se uma atuação vigorosa de Abbas. Que não veio.

Natural que a opinião pública palestina veja com descrédito seu plano Abbas contra a anunciada anexação de 1/3 da Palestina-ocupada- incluindo todos os principais assentamentos e o vale do rio Jordão, onde se acham as terras mais férteis.

O plano Abbas denuncia a anexação planejada e ameaça a retirara da Palestina dos Acordos de Oslo, reduzir o papel da Autoridade Palestina a funções civis, entregar a segurança da região ao exército de Israel e cortar as relações com Jerusalém e Washington, cancelando todos os acordos existentes.

Sair de Oslo não tem muita importância, uma vez que o acordo já morreu há muito tempo, obra das muitas violações praticadas por Israel.

Grave mesmo será o corte de acordos e outras relações com Israel.

Se Abbas findar mesmo a colaboração com Israel na segurança e na administração da Cisjordânia-ocupada, as coisas ficarão pretas para o governo Netanyahu.

As forças de ocupação perderão as informações de inteligência fornecidas pelo aparelho de segurança palestino, que tem monitorado os movimentos de elementos radicais, intervindo para evitar o lançamento de operações em território de Israel.

Os próprios oficiais de inteligência israelenses afirmam a importância dos serviços palestinos.

Eles calculam que as forças palestinas de segurança impediram entre 30% a 40% de ataques conduzidos da Palestina ocupada. De acordo com Majid Faraj, chefe do serviço de inteligência palestina, durante o período Outubro 2015/Janeiro 2016, os membros do seu serviço evitaram cerca de 200 violentos ataques contra objetivos israelenses e prenderam mais de 100 palestinos (Instituto da União Europeia para Estudos de Segurança,-02-05-2017) .

O aparelho de segurança palestino seria particularmente útil a partir de agora, na prevenção de ataques provocados pelo ódio e a fúria gerados pela anexação.

Sem a ajuda dos agentes palestinos, a situação na região poderá se deteriorar forçando o exército de Israel a assumir a responsabilidade pela segurança nas áreas administradas pela Autoridade Palestina.

 Terá de aumentar consideravelmente suas incursões na região, diante da explosão de ações terroristas de islamitas radicais e de violentas ações repressivas do exército de Israel, que fariam muitas vítimas, em geral civis palestinos.

Essas ações acabariam noticiadas com destaque pela imprensa mundial, influenciando a opinião pública, especialmente os jovens, hoje partidários da causa palestina.

Os governos democráticos costumam ser influenciados por essas coisas.

Sem contar que, como os oficiais israelenses não tem as facilidades e conhecimentos dos oficiais palestinos na sociedade local, terão menos êxito no controle da penetração de elementos exaltados em Israel.

Tudo isso, além de piorar a segurança até no próprio território israelense, vai aumentar consideravelmente despesas não previstas do governo de Jerusalém.

Jerusalém terá de pagar salários a um número de agentes de segurança que possam substituir os 30 mil palestinos, até hoje encarregados dos serviços de inteligência de Mahmoud Abbas.

Alguns analistas sustentam que a retirada prometida por Abbas causaria inevitavelmente o fim do Acordo de Oslo e portanto, da Autoridade Palestina, que existe como parte do acordo.

Para Israel, o melhor seria fazer de conta que a Autoridade Palestina continua mantendo os mesmos direitos sobre as áreas A eB.

Não se livraria dos problemas oriundos da renúncia de Abbas à colaboração dos seus serviços de inteligência, eficientes na  segurança de Israel.  Mas, o governo Netanyahu não teria de administrar a educação, saúde, água e esgoto, energia elétrica, entre outros serviços civis que prosseguiriam sob responsabilidade da Autoridade Palestina.

Mas, se fechar a Autoridade Palestina, todas estas funções passariam para o governo de Jerusalém, elevando os gastos a números nada agradáveis para o orçamento de Israel.

Além de ter de encarar problemas políticos imprevisíveis, tanto internamente, quanto na comunidade internacional.

Segundo as agências noticiosas, o premiê Netanyahu está agora diante de mais uma opção: anexar totalmente a área já definida ou limitar-se a uma anexação parcial, deixando a parte restante para outra oportunidade.

Possivelmente. ele próprio vacila. Teme que uma anexação total soaria agressivamente, afastaria os vizinhos árabes, com quem ele vem negociando a formação de uma frente contra o inimigo comum, o Irã.

Já anexando somente uma primeira parte, não haveria garantia de que as outras partes seguiriam o mesmo caminho, o que poderia tornar a medida mais palatável às monarquias do Golfo e à Jordânia.

Acredito que o premiê de Israel não teria dúvidas em reduzir o alcance do seu ato caso Trump já tivesse dado seu sinal verde.

The Donald ainda não se pronunciou porque pretende que a anexação seja consensual entre Netanyahu e Benny Gantz e Gabi Ashkenazi, do partido Azul e Branco, que partilham o poder com o líder do Likud.

Eles, ainda  hoje ( 29 de junho) se mantêm em silêncio.

Preocupam-se em não desagradar seu eleitorado, cuja maioria não gostou nada da adesão do partido a Netanyahu, que os próprios Gantz e Ashkenazi atacaram durante as campanhas eleitorais como o pior problema sofrido pelo Estado de Israel.

Talvez pegaria mal a incoerência entre anterior declaração de Gantz de que só aceitaria uma anexação se não fosse unilateral que é exatamente como pode ser qualificada a proposta de Netanyahu.

Acredita-se ainda que a anexação parcial seria engolida com mais facilidade pelos líderes do Azul e Branco do que a total, influenciados por membros atuais e antigos dos serviços de inteligência, que a condenam como fonte de conflitos destruidores.

Não duvido que esses cidadãos deixem seus receios e escrúpulos de lado e acabem fechando com Netanyahu, do modo e no dia que ele definir.

Com eles ou sem eles, Trump vai igualmente marchar em apoio à iniciativa do premiê de Israel.

Temos ainda de considerar a possível derrota do amigão, Donald Trump, nas eleições americanas, em novembro.

Joe Biden, o candidato democrata, já se mostrou radicalmente contrário às anexações.

Haveria sinceridade nisso?

Para alguns observadores, caso eleito, Biden encararia mesmo uma anexação total como um ato de confrontação. O que não seria nada bom para o governo Netanyahu.

Biden seria mais tolerante se a ação israelense for apenas parcial, esgotando-se ali a sede israelense por mais territórios.

Há quem sustente ser necessário resolver a questão antes das eleições pois, ganhando o candidato democrata, ele a assumiria como um fato consumado.

 Nenhum político americano teria coragem de afrontar os lobbies judaico-americanos, forçando Israel a devolver aos palestinos territórios que lhes havia tomado.

1 pensou em “Anexação: vitória de Israel e derrota da justiça.

  1. Desde a injusta expulsão dos Palestinos em 1948, autorizado pela ONU,
    Israel vem sistematicamente anexando ilegalmente áreas que a ONU confirmou, que continuariam pertencer ao Palestinos , que lá viviam desde a expulsão de Jerusalém PELOS ROMANOS ao redor de 200 da era Cristã.
    Não foram os Palestinos que expulsaram os judeus, mas sim OS ROMANOS, mas os Palestinos foram prejudicados sob a alegação da Terra Prometida. Não existe na face da Terra nenhum “Código de Direito” que mantenha um direito não utilizado por quase 2 mil anos.
    Nesta lógica os índios americanos e os brasileiros, deveriam receber de volta seus territórios antes por eles habitados.
    As inúmeras tentativas da ONU, de impedir as ações ilegais de Israel de anexação de territórios palestinos são sempre bloqueados pelos USA.

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