Afeganistão: os “senhores da guerra” afiam as garras.

A retirada das tropas da OTAN, em 2014, poderá criar novos e graves problemas.

O plano de deixar um Afeganistão bem organizado, capaz de controlar a segurança e enfrentar os talibãs, parece agora ameaçado pelos “senhores da guerra.”

Eles são poderosos chefes regionais, com verdadeiros exércitos particulares, fundamentais na derrota dos comunistas que governaram o país até 1989.

Armados, organizados e orientados estrategicamente pela CIA e pelo Paquistão, eles se aliaram a milícias islâmicas para derrotar o governo comunista, apoiado pelos exércitos soviéticos.

Logo a seguir, desencadearam uma guerra civil entre si pela disputa do poder, entre 1991 e 1996, que causou a morte de centenas de milhares de civis, além do estupro de milhares de mulheres e crianças, e destruiu a precária infra-estrutura afegã.

Um relatório de uma Comissão de Direitos Humanos independente acusa 500 membros e líderes de grupos políticos e étnicos rivais, alguns deles ocupando elevados cargos no governo, de atentados contra os direitos humanos no período entre 1970 e a queda dos  talibãs, em 2001.
Segundo estudo de John Glaze, para o Strategic Studies Institute do U.S. Army War College :”Vários dos poderosos “senhores da guerra” do Afeganistão são também altos “senhores do ópio”.Em alguns casos, são os mesmos que cooperaram com os EUA na expulsão do governo dos talibãs.”

Por sinal que o Afeganistão responde pela produção de 90% de todo o ópio mundial.

Com a derrocada do regime Talibã, em 2001, o governo formado sob a proteção da OTAN procurou desarmar os “senhores da guerra”, integrando-os na Administração.

Na ocasião, diversos ministérios e governos de províncias foram entregues a eles.

Um dos mais poderosos, Ismail Khan, foi nomeado governador da província de Herat, a base de suas forças, na fronteira com o Irã.

Mas, em 2004, o Presidente Karsai o removeu, provocando grandes manifestações de protesto dos seus seguidores.

Khan continuou com grande influência em todo o oeste do Afeganistão, criando muitos problemas com o atual governador de Herat, Daud Shah Saba, com quem entrou em choques várias vezes.

Em 1 de novembro último, o belicoso “senhor da guerra” reuniu milhares de pessoas em Martyrs´Town, subúrbio de Herat, uma comunidade criada para oferecer moradia e terra grátis às famílias de mujahedins que lutaram por ele.

Muitos chefes tribais estiveram presentes nessa manifestação, onde Khan criticou os exércitos da OTAN por terem desarmado os guerreiros muçulmanos e não terem tornado o Afeganistão seguro.

“Eles recolheram nossos canhões e tanques e os transformaram em pilhas de lixo”, ele clamou.”Eles trouxeram soldados brancos da Europa e negros da África esperando garantir nossa segurança, mas falharam.”

Em seguida, Ismail Khan apelou para os presentes para que reativassem e coordenassem suas forças.

Ele já estaria empenhado nessa tarefa, alistando novos recrutas e organizando estruturas de comando distritais.

O objetivo seria defender o país dos talibãs depois da retirada dos exércitos dos EUA e da OTAN, já que não via condições para o governo legal enfrentar o inimigo sozinho.

No dia 10, Khan fez novas declarações nesse sentido à imprensa, no seu escritório em Kabul : “Nós somos responsáveis por manter a segurança em nosso país   e não deixaremos que o Afeganistão seja novamente destruído.”

E acrescentou que suas ações não representavam um desafio ao governo: ”Há regiões do pais onde as forças governamentais não podem operar e nestas áreas os habitantes locais devem tomar armas e defender o país.”

Mas o governo não concordou em nada com estas idéias.

Longe de achar Khan digno de elogios, o governador de Herat considerou a reorganização de suas milícias um desafio ilegal às forças de segurança do governo.

Por sua vez, o porta voz do Presidente Karsai foi incisivo: “O governo do Afeganistão e o povo afegão não querem nenhum grupo armado irresponsável, fora das estruturas das legítimas forças de segurança.”

Há receios de que outros “senhores da guerra” sigam o exemplo de Ismail Khan, enfraquecendo o apoio ao governo. Pior do que isso; criem-se condições objetivas para uma repetição da devastadora guerra civil que causou centenas de milhares de vítimas nos anos 90.

Alguns membros do Parlamento reagiram prontamente às declarações de Khan consideradas provocativas.

Para eles, o chefão de Herat e outros senhores de guerra estariam se preparando para tirar vantagem da retirada da tropas americanas, em 2014.

‘Pessoas como Ismail Khan cheiram sangue”, disse o senador Beis Roshan, em entrevista. “Eles pensam que logo que as tropas estrangeiras saírem terão outra vez a chance de iniciar uma guerra civil e conseguir alcançar seus objetivos de enriquecer e liquidar seus rivais locais.”

Mais senhores de guerras tem se pronunciado de modo semelhante a Khan.

Mohamed Farook Hussaini, um dos mais importantes mulás da província de Herat, informou que as pessoa estavam procurando seus líderes tradicionais por proteção e que ainda tinham armas para o caso de precisarem lutar.

Qasim Fahim, um comandante da etnia Tajik, apesar de vice-presidente da república, mostrou-se receptivo às idéias de Khan: “Se as forças de segurança afegãs não são capazes de conduzir a guerra, então que convoquem os mujahedins.”

Ahmad Zia Massoud, também um importante comandante de milícias, afirmou que todos estão preocupados com o que acontecerá em 2014, com a saída da OTAN.

Ele estaria convocando seus seguidores para se prepararem para novas lutas.

Segundo Massoud, os mujahedins o procuram, vindos de toda parte, dizendo que estão querendo se armar para “assumirem a responsabilidade de oferecer segurança privada aos moradores das suas regiões.”

Ele lembrou ser significativo o fato do preço do fuzil Kalashnikov, que sempre foi de 300 dólares, ter subido para 1.000 dólares.

Estes fatos preocupam muito os comandantes da OTAN pois a volta às armas dos “senhores da guerra” e a conseqüente e fatal luta entre eles poderiam arruinar todos os esforços para se construir um estado afegão, trazendo para o governo os principais líderes regionais.

Khan procurou dissipar essas nuvens, garantindo que não está rearmando seus liderados para se opor às forças do governo. Na verdade, sua proposta seria trabalhar junto com o exército e a polícia como uma força de reserva.

Isso é exatamente o objetivo da Polícia Local Afegã (ALP), organizada e treinada pelas Forças Especiais dos EUA, aliás, com péssimos resultados.

Diz o jornalista inglês John Glaser, em Antiwar, de 11-7-2012: “A ALP em usado o apoio dos EUA para afirmar sua autoridade e cometer graves crimes contra os civis afegãos.’

Em um relatório sobre a ALP, a Human Rights Watch detalha esses crimes; “…sérias atrocidades tais como:assassinatos, estupros, detenções arbitrárias, raptos, apropriação de terras à força e raids ilegais praticados por grupos armados irregulares na província de Kundu, no norte, e pela Polícia Local Afegã (ALP).”

Tudo indica que os senhores de guerra afegãos tendem mesmo a tomar armas, assim que as tropas aliadas se retirarem.

De um lado, eles não acreditam no fraco governo Karsai, cujas tropas ainda não deram demonstrações de eficiência no combate aos talibãs, infiltrados em grande número nas fileiras legais.

De outro lado, parece que muitos desses chefões pretendem recuperar o poder que tiveram antes mesmo da ascensão dos talibãs ao governo, tendo em vista, principalmente, assumirem mais lucros da rendosa indústria de produção de heroína.

Num clima assim, os choques seriam inevitáveis e uma guerra civil poderia muito bem estourar.

É verdade que a existência de um inimigo comum, os talibãs, poderia manter os “senhores da guerra” unidos temporariamente, mas não é de se descartar a possibilidade de guerras paralelas contra os talibãs, contra o governo e entre eles próprios.

Também não se pode esquecer que deverão ficar no país cerca de 20 mil soldados americanos depois da partida do grosso das tropas.

A dúvida é se eles seriam suficientes para controlar tantos interesses armados em jogo.

Tudo desenhando um cenário bastante sombrio para o Afeganistão pós-2014.

 

 

 

 

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