Adeus Iraque

Obama anunciou a retirada do Iraque como se fosse o cumprimento de uma promessa de sua campanha eleitoral.

Não foi bem assim.
O feito pode ser creditado a George Bush que, há 3 anos atrás, assinou um acordo pelo qual as forças americanas sairiam do Iraque em fins de 2011. Na verdade, Bush topou esse acordo muito a contra gosto.
Em 31 de dezembro de 2007 terminava o prazo do mandato da ONU que legalizava a presença das forças americanas no Iraque. Para elas poderem continuar, os governos dos EUA e do Iraque negociavam um tratado. O governo iraquiano exigia que todos os soldados americanos saíssem do país em 3 anos. Bush não queria. Sua idéia era ficar até quando os EUA achassem conveniente. Mas acabou tendo de topar, do contrário, seria embarcar numa grave ilegalidade. Os EUA ficariam irremediavelmente sujos perante a comunidade internacional.
Além de não ter sido o responsável pelo pull out (retirada das tropas), Obama procurou minimizá-lo. Neste ano, membros do seu governo e chefões das Forças Armadas fizeram de tudo para convencer o governo iraquiano a solicitar a permanência de 10 ou 12 mil soldados americanos para treinamento dos militares iraquianos. Claro, se necessário, também para defender a democracia no país, leia-se o bom comportamento do governo de Bagdá.
Como parte da campanha de persuasão, Robert Gates, o antigo Secretário da Defesa, declarou que “havia interesse (dos EUA) em continuar nossa presença mesmo depois do prazo.” E o secretário atual, Leon Panetta, garantiu que tinha “total confiança” em que o governo iraquiano pediria para os EUA manterem suas tropas além de 2011.
Diversos generais sediados no Iraque se revezaram, insistindo em que  era importante para o Iraque seguir contando com a sombra protetora das tropas americanas.
Por sua vez, o Almirante Mullen, Chefe do Estado-Maior combinado das forças dos EUA foi insistente nos apelos. E chegou a pedir pressa para o governo do Iraque decidir-se pois uma eventual retirada seria operação complexa e demorada. Deu umas poucas semanas de prazo para os iraquianos resolverem se queriam ou não o “fico” americano. O prazo passou. Como Bagdá continuasse muda, Jay Carney, porta voz da Casa Branca, humildemente informou que Tio Sam aceitaria um simples “sim”.
Bem que Maliki, o Primeiro-Ministro do Iraque, gostaria de atendê-lo.
Sendo um político fraco, se sentiria mais firme tendo por perto uma força bem treinada de americanos, prontos para o que desse e viesse.
Mas não estava nada fácil conseguir convencer sua base aliada.
Mutqa Al-Sadr, o belicoso líder da mais aguerrida facção shiita, exigiu o cumprimento do tratado. E disse mais: o pessoal da sua milícia, que havia combatido os americanos em Faluja, Nadjaf e Bagdá, atiraria em qualquer soldado dos EUA que estivesse no Iraque depois de 31 de dezembro de 2011.
A maioria dos políticos situacionistas não levavam assim tão longe sua oposição à permanência dos soldados americanos. Até que concordavam em tê-los no país por mais algum tempo. Mas exigiam que os soldados de Tio Sam ficassem sujeitos às leis do Iraque.
Tinham Abu Ghraib na cabeça, episódio que levou à prisão apenas militares americanos de baixa graduação, deixando impunes oficiais responsáveis pelas torturas. Lembravam também o assassinato de 12 civis inocentes por mercenários da Blackwater, ainda sendo julgados nos EUA, vários anos depois do crime.
Aí, não houve acordo. Os EUA jamais aceitariam que algum dos seus soldados pudesse ser submetido ao julgamento de estrangeiros, ainda mais de países cuja estrutura legal seria, na melhor das hipóteses, pouco recomendável.
Aparentemente Obama conseguiu tirar partido do pull out, pois pesquisas feitas em seguida à sua comunicação atribuíram a ele 46% de opiniões positivas. É seu índice mais alto deste ano.
Enquanto isso, os republicanos criticaram severamente o fim da Guerra do Iraque.
O senador John McCain considerou o pull out “uma vitória estratégica dos nossos inimigos no Oriente Médio, especialmente o regime iraniano.”
Os generais de Obama no Iraque devem ter concordado com ele pois, meses atrás, ao tentarem vender a idéia do “fico”  americano, já haviam advertido o governo do Iraque dos perigos que representava a proximidade com o Irã.
Não pegou por um motivo simples: a maioria dos governantes do Iraque são xiitas e estiveram refugiados no Irã durante os tempos de Saddam Hossein. Ficaram amigos dos aiatolás, que, aliás, também são xiitas.
Claro que agora, sem americanos de olho nas suas ações, os líderes iraquianos tendem a se aproximar ainda mais do Irã.
Não dá para culpar Obama por isso. Mais dia, menos dia, os americanos teriam mesmo de sair. Se ficassem mais tempo, haveria apenas um adiamento para Teerã e Bagdá estreitarem seus laços de amizade.
Se culpas existem, devem ser atribuídas a Bush. Foi ele quem sacou do poder Saddam Hossein, sunita e inimigo até a morte dos iranianos.
Como não poderia deixar de ser, também os pré-candidatos republicanos trataram de marcar sua oposição a Obama. Depois de condenar o pull out, Mitt Romney afirmou que a decisão do Presidente deveu-se “ou a seu ingênuo cálculo político ou a sua simples inaptidão para negociar com o governo do Iraque” No mesmo sentido, Rick Perry declarou que, ao concordar em deixar o Iraque, “Obama privilegiou expedientes políticos ao invés de razões militares e de segurança.”
Com esse adeusse encerra um episódio dos mais negros da história americana. Sob pretextos que se provou serem falsos, o Iraque foi invadido pelos EUA. E humilhado por forças de ocupação durante 9 anos.
Quem ganhou com isso?
Os EUA gastaram 1 trilhão de dólares na guerra. Perderam 4.600 soldados, além de contabilizarem centenas de milhares de feridos. Ganharam a inimizade e mesmo o ódio da maioria da população dos países islâmicos.
Por sua vez, o Iraque, então um país em fase de progresso, teve sua economia destruída. Segundo o Just Foreign Policy, baseado em estudo do conceituado jornal médico Lancet, 1 milhão e 400 mil iraquianos morreram direta ou indiretamente, devido à guerra. Conte ainda : 2 milhões e setecentos mil desalojados  no território iraquiano e 2 milhões na Síria e na Jordânia.
Tudo isso para derrubar a ditadura de Saddam Hossein. E, segundo George Bush, tornar o Iraque uma democracia.
Terá valido à pena?
Afinal, por pior que Saddam fosse, não matou tanta gente, nem causou tanta destruição no país. E, como todas as pessoas, ele não era eterno. Dificilmente poderia ser sucedido por outro personagem igual.
É fato que agora existem eleições no Iraque. Imprensa livre. Oposição. Mas o país está longe de ter alcançado algo que poderia se chamar de “democracia plena”. Por exemplo : recentemente, revelou-se que a prática de torturas era corrente nas prisões políticas do país.
E os atentados prosseguem. São diários. Teme-se por uma guerra civil opondo xiitas a sunitas.
Lembro que, antes da invasão, mesmo antes de Saddam Hossein, estas duas seitas religiosas não trocavam tiros.
Em entrevista recente, o deputado xiita Qusay AL-Suhail lembrou esse fato. E opinou:”Isso acontece porque os americanos estão no Iraque.”
Talvez tenha razão.
Em meados de 2007, foi relatado pelo repórter investigativo Seymour Hersh (ganhador do prêmio Pulitzer), na revista New Yorker, que o governo Bush decidira mudar sua estratégia no Oriente Médio. Pela chamada “Redirection”, os inimigos principais passaram a ser o Irã (o número 1), a Síria e seus aliados, os xiitas. Contra eles, todo o poder de fogo dos capitais, das armas e da diplomacia americana. Os sunitas, adversários seculares dos xiitas, receberiam apoio financeiro, militar e logístico, sendo incentivada a guerra civil entre as duas seitas para impedir a todo custo sua união, tida como desastrosa para os interesses americanos.
Segundo o artigo de Hersh, foi estabelecido que os americanos financiariam operações clandestinas contra seus inimigos, até mesmo de grupos sunitas  próximos à Al Qaeda e ao Talibã.
Como se sabe, na época, os sunitas eram os principais adversários do exército de ocupação americana, embora a insurgência fosse integrada também por importantes grupos xiitas, como a milícia  Mahdi, de Motaqa  al-Sadr.
É fato que o exército americano conseguiu trazer para o lado da legalidade grande número de militantes sunitas, simplesmente comprando seu apoio.
Não dá para saber se boa parte das operações dos sunitas convertidos tiveram por alvo grupos xiitas.
Mas é inegável que, depois de séculos de convivência razoavelmente pacífica, xiitas e sunitas só passaram a se matar com a ocupação americana.
Nos dias de hoje, os sunitas tem uma participação política proporcional a seu número de eleitores. Cerca de 35%. No entanto, o principal partido preponderantemente sunita, o Baath, está proibido  (era o partido de Saddam). Seus militantes tiveram grande atuação contra as tropas de ocupação. Há suspeitas de que parta deles os atentados que continuam sendo praticados contra alvos do governo e da religião xiita.
São grandes os riscos destes atentados aumentarem e acabarem deflagrando uma nova guerra civil.
E será assim, deixando problemas, depois de causar destruições, que a América vai dizer adeus ao Iraque.
Adeus, América. Para muita gente no Iraque, já vai tarde.

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