Acordo Nuclear com o Irã: fracasso à vista.

Dá para suspeitar que não vai haver um final feliz nas negociações do Acordo Nuclear com o Irã.

Há um imenso abismo entre as propostas dos EUA e do Irã, conforme mostram as informações sobre as primeiras negociações com a participação do governo iraniano recém-eleito.

Para os americanos, as propostas iranianas seriam de brincadeira, prova de que seus adversários não querem saber de paz. Além de cortar fatos já aceitos pelas partes, teriam novas proposições totalmente absurdas.

De fato, o Irã parece mal-intencionado ao exigir garantias de que os EUA jamais se retirariam do Acordo Nuclear. Não dá para Biden assegurar que um dos seus sucessores não iria repetir Donald Trump, renegando o acordo.

Mesmo sendo inviável o que Teerã exige, o país tem suas razões, considerando  recentes provas de que os americanos não seriam confiáveis. Lembro a acima mencionada retirada dos EUA em 2018, ordenada por The Trump e a falta de cumprimento da promessa de Biden de rapidamente voltar ao Acordo Nuclear com o Irã, cortando as odiadas sanções. O retorno americano ainda não aconteceu, apesar de já terem se passado 11 meses, espaço de tempo que não pode ser classificado como “rápido”.

Na verdade, pouco adiantaria que Biden garantisse uma permanência dos EUA pelo menos durante seu governo. As empresas internacionais dificilmente topariam investir no Irã, sabendo que um novo presidente americano poderia eventualmente repetir Trump e sancionar as que não se retirassem do país.

Nos últimos meses, a imprensa internacional tem informado exigências de Biden: volta do Irã ao enriquecimento do uranio nos índices definidos no acordo; prolongamento dos prazos das restrições no programa atômico iraniano de 15 para 25 anos; manutenção das sanções posteriores à marcha-a-ré de Trump; controle do programa de mísseis -balísticos e fim das intervenções políticas nos países vizinhos.

Por sua vez, o Irã deu sua versão sobre as últimas reuniões, enfatizando que sua proposta mantinha o Acordo Nuclear, sem mudar uma vírgula.

Quanto às exigências acrescentadas, vou me reportar ao publicado no Entelkhab,ir, site iraniano chapa branca: “Bagheri vai requerer que Washington suspenda todas as sanções impostas, pague compensações pelos danos que as sanções de Trump infligiram ao Irã, garantir que as futuras administrações dos EUA  não apliquem as sanções outra vez. Bagheri também vai declarar que o Irã se recusa a negociar seu programa de mísseis e sua política no exterior e , antes do Irã retornar a suas obrigações com o Acordo Nuclear, ele precisa poder exportar seu petróleo e receber seus lucros.”

 Acredito que algumas destas proposições sejam meros bois de piranha, suscetíveis de serem retiradas em troca de concessões do Ocidente.

Israel está muito feliz com essa desinteligência, que pressagia a volta dos representantes dos EUA de mãos vazias. Desde que isso aconteça  logo, pois os israelenses sustentam que os “malignos iranianos” estão aproveitando a demora para acelerar o enriquecimento do urânio e instalar novos e modernos equipamentos nucleares, aproximando-se perigosamente do necessário para produzir uma bomba atômica.

Apesar do Irã negar que seu programa nuclear tenha objetivos militares, os americanos e europeus duvidam. Veja o que disse o ministro do Exterior francês, Jean-Yves Le Drian: “Sentimos que os iranianos querem prolongar isto (as negociações), quanto mais prolongarem, mais voltarão atrás nos seus compromissos…e ficará mais próxima sua capacidade de fazer uma bomba nuclear (Middle East Eye, 03/08/2021).”

Esta foi sempre a opinião de Israel para justificar sua ansiedade em atacar o Irã logo. O mal-estar nos EUA e europeus diante das novas exigências iranianas é visto por Telavive como uma oportunidade para convencer, Biden especialmente, de que está na hora de colocar sobre a mesa a alternativa da guerra.

O premier Naftali Bennett, o ministro da Defesa Benny Gantz e o ministro do Exterior Yar Lapid vem se revezando em viagens aos EUA , com apelos guerreiros à Casa Branca.

Dizem que o Irã está prestes a produzir sua bomba atômica, coisa que Israel impedirá com suas forças armadas, preparadas para entrar em ação a qualquer momento.

Com a ajuda dos EUA, claro. Afinal, Biden não prometeu que os EUA impedirão os modernos persas de perpetrarem sua brutal empreitada.?

Como argumento extra para convencer os EUA a não se fazerem mais de difícil, Gantz rugiu que Israel pode atacar mesmo sem seu grande irmão:: ”O Estado de Israel não é obrigado a coordenar sua defesa com qualquer outro Estado.”

Já o major-general Eyal Zamir, prestes a ser nomeado  chefe do estado-maior combinado das forças israelenses, foi menos arrogante: “Embora Israel agirá independentemente contra o Irã, um ataque contra as instalações nucleares da República do Irã seria mais difícil sem coordená-lo com os EUA. “

Se não fosse mera cascata, os chefes israelenses não gastariam tanto tempo, tantas energias e tanta saliva, pedindo o auxílio do braço forte de Tio Sam, em suas incessantes viagens a Washington.

A verdade, diz o Haaretz (edição de 1/12/2021), é que, sem as forças americanas, é duvidoso que Israel possa liquidar seu inimigo número 1.

E põe dúvida nisso.

Acredito que não convém ao governo sionista travar uma guerra com um adversário que, mesmo mais fraco, teria amplas condições de infringir pesados danos materiais e humanos a Israel.

Tudo indica que o plano israelense é usar o poder da sua força aérea para destruir de uma vez as instalações nucleares iranianas, além de centros de comando, centros de comunicações e sistemas aéreos,  num único e inesperado bombardeio.

Assim, não dariam tempo para os iranianos se defenderem. De uma hora para outra se veriam desarmados, sem condições de retaliar.

 Só lhes restaria aceitar um acordo de paz. Ditado por Bennett.

Acho que não passa de wishful thinking.

Para garantir a necessária surpresa, os aviões de Israel teriam de chegar ao Irã rapidamente, usando o novo F-35, o avião certo para esta missão.

Para alcançar um resultado de tal magnitude, os aviões israelenses precisariam levar o máximo possível de mísseis e bombas.

A rota Israel-Irã mais curta passa sobre a Jordânia e o Iraque, países onde há milhares de milicianos e ativistas pró-Irã. Estando os F-35 tão carregados, teriam de ser reabastecidos em pleno ar, o que não se faz em poucos minutos, dando tempo para os partidários do Irã observarem e comunicarem a Teerã o que estava a caminho.

E aí, adeus segredo, adeus surpresa.

Na verdade, as coisas são ainda mais difíceis porque Israel não dispõe de tanques-aéreos , necessários para reabastecer os F-35. Pediram a Biden, mas a resposta foi negativa: segundo o New York Times, somente em 2.024 esses produtos bélicos estarão à disposição dos israelenses.

Acho que o governo sionista não está muito disposto a esperar até lá.

Agora, suponha que os F-35 consigam evitar  estes obstáculos e  chegar ao Irã, pegando seus chefes militares de surpresa.

Logo desabará sobre esse país uma tempestade de mísseis e bombas, e antes de um dia, a fatura estaria liquidada. Só que muitos dos principais objetivos militares iranianos ficam em profundos subterrâneos, situados em locais desconhecidos, a salvo de bombardeios.

Com isso, o Irã teria como contra-atacar,  causando estragos em Israel.

Caso os EUA atacassem em conjunto com Israel, esses inconvenientes seriam superados. Eles possuem tanques aéreos, seus aviões não serão retardados por reabastecimentos no voo. Têm também bases militares em todos os países do Golfo Pérsico. É um pulo para alcançarem o Irã.

Mas são mínimas as chances de Biden aderir a essa guerra. Depois da chanchada da retirada do Afeganistão, ele teme embarcar em outra nova e dispendiosa furada.

 Ainda mais porque os objetivos atuais da política externa americana concentram-se na contenção da expansão internacional da China.

Contrário ao que Israel afirma, um Irã nuclear não ameaçaria a segurança  dos EUA, mas só a de Israel (talvez de alguns países do Golfo Pérsico).

Por sua vez, o povo americano já se manifestou várias vezes contra novas aventuras militares. Está farto de ver o governo de Washington envolver-se em guerras inúteis e fracassadas, como no Vietnam, no Iraque e no Afeganistão, onde muitos milhares de soldados americanos morreram.

Não convém contrariar a  vox populi. Especialmente em anos eleitorais.

Tendo pela frente uma eleição parlamentar em novembro de 2022, Biden e seu Partido Democrata não podem se arriscar a perdê-la. O perigo é real, motivado pela grande alta da inflação.

Entre outras contrariedades, uma eventual maioria republicana na Câmara dos Representantes e/ou no Senado, deixaria o governo com pouca margem de ação, reduzindo as chances de Biden se reeleger em 2024.

O presidente tem uma boa razão para calar os nervosos israelenses.

Para provar a necessidade de guerrear o Irã, eles garantem que o programa nuclear iraniano seguia, clandestinamente, a pleno vapor. Não sendo interrompido pela força das armas, logo estaria apto a produzir artefatos nucleares.

Willian Burns, diretor da CIA, em evento do Wall Street Journal, contestou, disse que ”não via evidências de que o Supremo Líder (Kamenei) tomou a decisão de armar o programa nuclear (Times of Israel, 7/12/2021).”

Por outro lado, não parece certo que o inquilino atual da Casa Branca faria concessões capazes de agradar aos iranianos, abrindo caminho para a volta dos EUA ao Acordo Nuclear e à retirada das sanções. O que permitiria ao país sair da crise econômica e partir para um desenvolvimento acelerado.

Acho que esse quadro cor-de-rosa não vai pintar. Falta a Biden  coragem para encarar a indignação de Israel e, mais importante, do poderoso lobby israelense, dos bilionários Israel-americanos financiadores dos democratas e dos conservadores do seu partido, além dos congressistas republicanos.

Se os EUA não vão perfilhar a alternativa guerreira, nem voltar ao Acordo Nuclear com o Irã, cancelando suas sanções, só resta ao governo Biden voltar à situação anterior, dos tempos de Trump.

O alívio que os americanos sentirão possivelmente compensará o fracasso das negociações de Viena. Biden tentará livrar a cara, exigindo que o Irã prove que seu programa nuclear é pacífico.

 E lançando novas sanções. Não sei se vai adiantar muito, uma vez que as mais destruidoras já estão em ação há anos, sem êxito.

 Biden poderia proibir a venda de medicamentos e alimentos dos quais o Irã carece, mas iria pegar muito mal na comunidade internacional. Além disso essas medidas não teriam muito efeito, empresas estrangeiras dificilmente ousam realizar tais operações, com medo de serem punidas pelo Tesouro dos EUA, com base nos seus complexos regulamentos.

O que Biden pode (aliás já começou a fazer) é tornar mais severa ainda a aplicação das sanções e apertar a vigilância sobre vendas camufladas de empresas de países pouco amigáveis, como a China.

Acho que essa situação seria dolorosa para o Irã. Mas não insuportável.

Há sinais de que sua economia começa a sair do buraco. Um bom indício é a reversão do PIB, que após 3 anos (2018/1019/2020) de quedas abaixo de 0%, aponta em 2021 um crescimento de 3,4%, previsto pelo FMI.

Também é expressivo o aumento de 600% nas exportações de gasolina, em 2020, que atingiram 8 milhões de toneladas, (The New Arab, 17/9/2021).

Para reduzir os prováveis efeitos das novas sanções de Biden e da rigorosa fiscalização do seu cumprimento, o Irã contaria com o apoio  chinês.  Que não deve faltar, no interesse de Beijing na ampliação do seu arquipélago de nações que ficariam a seu lado no conflito econômico com os EUA.

Mas, será que Israel se limitará a ficar vendo a banda passar?

Bem, lançar a guerra depende da autorização dos EUA, que não parecem dispostos a dar seu nihil obstat.

 No entanto, nada impede que Telavive venha a alastrar significativamente sua guerra clandestina contra o Irã, promovendo mais atentados nas instalações nucleares, explodindo bombas e matando cientistas.

Não sei se os dirigentes iranianos iriam ignorar essas ações.

 O perigo é que acabem por perder a paciência e decidam retaliar à altura.

Aí, tudo é possível.

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