Abbas na ONU: arreglou.

O discurso na ONU de Abbas, o Presidente da Autoridade Palestina, era muito esperado.

Contava-se como certo que ele iria pedir formalmente o ingresso da Palestina como nação observadora.

Sabia-se que os EUA e Israel estavam fazendo o diabo para evitar isso.

Abbas começou abordando o problema dos assentamentos, que foi classificado como : “Uma campanha de limpeza étnica contra o povo palestino através da demolição dos seus lares e da proibição de construções; da revogação de direitos de residência; da negação de serviços básicos, especialmente os referentes à construção de escolas; do fechamento de instituições e do empobrecimento da comunidade palestina de Jerusalém, cercando-a de muros e check-points que estão sufocando a cidade e impedindo milhões de palestinos de livremente acessarem suas mesquitas, escolas, hospitais e mercados.”

Continuando seu discurso,  Abbas denunciou os ataques diários de moradores dos assentamentos israelenses que chegaram a 535 somente neste ano.

E acrescentou: ”Nosso povo tornou-se alvo fixo de atos de assassinato e de abusos dos israelenses assentados com a completa conivência das forças de ocupação e do governo de Israel”.

Segundo Abbas, todos estes fatos provavam que Israel estava desenvolvendo “uma política de guerra, ocupação e colonização de assentamentos, que promete aos palestinos uma nova catástrofe, um novo Nakba (expulsão dos palestinos de Israel na fundação do país) “.

Considerou que tal política de Israel só podia significar rejeição à solução dos 2 estados independentes na Palestina.

E, de fato, a direção do Likud, partido do premier Netanyahu, já declarou os assentamentos israelenses uma “realização dos valores sionistas” e que toda a Margem Oeste e Jerusalém pertencem de direito a Israel.

Finalmente, Abbas pediu que a comunidade internacional obrigasse Israel a respeitar a Convenção de Genebra, suspender o bloqueio de Gaza e investigar as condições de detenção dos palestinos prisioneiros, enfatizando a necessidade de sua libertação.”

Tudo isso não chocou, em absoluto, os representantes das 193 nações da ONU.

Estão acostumados a, ano após ano, ouvir dezenas de relatórios de comissões especiais relatando situações desse tipo, que Abbas em seu discurso classificou como “crimes de guerra”, sem que nada aconteça.

Nem sanções contra o estado de Israel, réu comprovado de tantas violações do direito internacional e dos direitos humanos, nem sequer condenações do seu governo.

Os EUA, soi disant país paladino da liberdade e da justiça, impedem com seu decisivo veto no Conselho de Segurança.

Mas, decisões da Assembléia Geral, nenhum país tem poderes para vetar.

É verdade que seu alcance é limitado.

No caso da Palestina, o máximo que poderia ser conseguido é seu       reconhecimento com  estado observador não-membro.

O que não é pouca coisa: além do efeito moral, a proclamação urbi et orbi da Palestina como país, o direito de participar de uma série de entidades internacionais e de instaurar processos no Tribunal Criminal Internacional. O que permitiria submeter a julgamento os governantes de Israel como incursos numa série de artigos das leis penais internacionais.

Provavelmente com  ansiedade, o plenário da Assembléia Geral esperou que Abbas concluísse seu discurso, solicitando o ingresso do seu país na ONU como observador.

E Abbas falhou.

Falou, sim, em pedir o espaço desejado para a Palestina.

Mas que o faria somente em novembro.

Acrescentou que esperava que em setembro do ano que vem seu pedido já tivesse sido acolhido…

Por que não agora, neste setembro?

Seria o momento certo, pois sendo a abertura da Assembléia da ONU, grande número de chefes de estado estavam presentes.

O mundo inteiro estava de olho no que iria acontecer.

E a vitória era absoltamente certa. E por esmagadora maioria.

Além de  Israel e dos EUA, quem teria coragem de votar contra?

Por que Abbas deixou escapar este momento crucial, adiando para mais um ano a conquista de uma importante etapa no processo de luta pela  independência da Palestina?

A resposta quem deu a repórteres foi Hanan Ashrawi, membro do comitê executivo da Organização pela Libertação da Palestina: “O presidente Abbas disse abertamente que ele não vai apresentar a proposta antes das eleições americanas.”

Portanto, mais uma vez, Abbas cedeu a Obama.

Se ele levasse seu caso à ONU, Obama teria de lançar-se a uma campanha de pressões fora do comum para conseguir que a maioria ficasse ao lado de Israel.

E teria sido em vão. A vitória palestina era inevitável.

Apesar de todos os esforços de Obama, Romney o acusaria de não ter feito o bastante para defender o “aliado especial.”

Obama poderia perder muitos votos judeus.

E os EUA perderiam ainda mais: sua imagem desceria aos níveis mais baixos no Oriente Médio, comprometendo todo o trabalho que seu governo vem fazendo para ganhar a confiança dos países onde a Primavera Árabe triunfou.

Seria justo os palestinos se sacrificarem só para ajudar Obama a vencer?

Na verdade, sua política no Oriente Médio tem sido norteada exclusivamente pelos interesses de Israel.

Em algumas ocasiões começou a defender causas justas palestinas como a interrupção dos assentamentos e as negociações de paz com base nos limites de 1967.

Mas, diante das reações de Netanyahu e de seus acólitos no congresso americano, Obama sempre recuou prontamente.

Nem Romney,  nem ninguém, conseguiria fazer menos.

Menos do que nada é nada.

A retirada de Abbas tem uma causa muito objetiva: problemas financeiros.

Em 19 de setembro, relatório do Banco Mundial afirmava que a situação das finanças da Autoridade Palestina era crítica.

Se não houvesse logo um grande aporte de dinheiro, o caos seria inevitável.

Os tradicionais doadores de dinheiro aos palestinos são os países do Golfo e a Europa ,especialmente, e também os EUA e entidades não-governamentais.

Acredito que os EUA ameaçaram fechar sua bolsa caso Abbas fosse desobediente.

Os europeus, diante da crise financeira que estão sofrendo, são tendentes a aceitar pressões do seu líder, os EUA.

Quanto aos países do Golfo, embora simpáticos aos palestinos, tem dificuldade em resistir à Casa Branca, na sua condição de satélites.

Todos eles temem a Primavera Árabe.

Para se manterem, contam com o apoio dos EUA, que não faltou nem ao Bahrein, nem ao Yemen.

A ameaça dos dólares salvadores não chegarem pesou fundo na decisão de Abbas.

Isso para não falar do chumbo grosso que certamente viria de Israel.

Para começar, já se sabia que Bibi iria reter os impostos que os israelenses cobram em nome da Autoridade Palestina.

Voltando derrotado, Abbas deveria cumprir sua promessa de renunciar em favor de alguém a ser nomeado por seus pares.

O que não resolveria nada.

O buraco parece ser mais embaixo.

A Autoridade Palestina já completou 19 anos e não conseguiu nada em favor da independência do país.

Continua dependendo das doações estrangeiras, sua economia não decola. Nem tem condições para isso devido às restrições impostas por Israel, conforme conclui relatório do Banco Mundial.

Sem os recursos vindos do exterior não pode nem pagar seus funcionários. Só é útil mesmo a Israel.

Nas áreas sob sua administração, garante a segurança, perseguindo e prendendo terroristas e até simples ativistas que atuam em Israel ou nos territórios dos assentamentos.

Organiza as atividades comerciais, favorecendo assim a comercialização de produtos israelenses.

A renúncia Abbas não raria nenhuma mudança substancial nesse estado de coisas.

Possivelmente, seu fracasso na ONU poderá fortalecer os defensores da tese da Resistência Civil.

Auto-extinguir a Autoridade Palestina; negar-se a colaborar com Israel em todas as áreas, inclusive de segurança; fechar suas lojas para a venda de produtos israelenses; boicotar qualquer relacionamento com entidades de Israel; promover internacionalmente o boicote dos produtos e serviços desse país e dos assentamentos.

Todas estas medidas foram propostas no início do ano pelo líder palestino Marwan Barghouti, preso numa penitenciária de Israel.

É um caminho áspero, difícil, pois vai acabar exigindo sacrifícios de todo o povo palestino.

Mas existirá outro?

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