A última chance.

Antes das eleições iranianas, ninguém esperava que a linha dura perdesse. Considerado um candidato sem força, Rouhani fez uma campanha corajosa, defendendo direitos civis, transparência e uma nova postura na política externa – marcada pela moderação e o desejo de fazer as pazes com o Ocidente.

Propostas como “abrir os cadeados que restringem a vida das pessoas”, “acabar com o clima de perigo iminente” e condenações das perseguições dos civis pelos “policiais à paisana”, empolgaram o povo, antes desiludido com a política.

Como resultado, houve um comparecimento às urnas recorde de : 73%. Note-se que lá o voto não é obrigatório.

Depois da apuração, Rouhani continuou repetindo as mesmas propostas de mudança da campanha.

Numa reunião com membros do clero, ele afirmou:”A liberdade e o direito das pessoas tem sido ignoradas, mas aqueles dos dirigentes que agem assim, restringindo criticas, apenas produzirão repressão e ineficiência.”

O que não deixa de ser uma censura direta ao establishment, que tem agido no sentido contrário.

Na área da política externa, o novo presidente reiterou sua intenção de buscar um fortalecimento da confiança entre o Irã e os outros países e reestabelecer relações com os EUA.

O passado de Rouhani dá confiança de que ele será fiel às suas promessas.

Como secretário do poderoso Conselho de Segurança Nacional, ele conseguiu impedir que os membros da linha dura islâmica levassem o Irã a uma aliança com Saddam Hussein.

Foi também Rouhani que enviou as inesperadas declarações de solidariedade do Irã aos EUA pelo atentado das Torres Gêmeas.

O nome do provável Ministro do Exterior já é um sinal de que Rouhani vai mesmo buscar com seriedade um acordo na área nuclear.

Trata-se de Javad Zarif, que foi embaixador do Irã na ONU entre 2003 e 2007, no governo do reformista Khatami, quando Rouhani era o negociador iraniano do contencioso nuclear.

Sobre ele, disse o Vice-Presidente dos EUA, Joe Biden: “Zarif é pragmático, não dogmático. Ele pode desempenhar um papel importante para ajudar na solução pacifica de nossas significativas diferenças com o Irã.”

Em 2003, Zarif foi um dos arquitetos da “grande barganha”, uma proposta do governo Khatami para resolver os principais problemas entre EUA e Irã, que, porém, não deu em nada. O presidente George W.Bush, não tinha a menor intenção de fazer as pazes com o governo de Teerã.

Quando soube da indicação de Zarif, Hagel, o Secretário da Guerra dos EUA, pediu publicamente “negociações diretas” com o Irã.

Bijan Zanganeh, outra figura marcante do governo reformista de Khatami, foi apontado para o estratégico Ministério do Petróleo.

Também ele é um político pragmático que, durante sua gestão, atraiu bilhões de dólares de investimentos estrangeiros para a indústria petrolífera iraniana. E ganhou o respeito dos dirigentes da OPEP.

O “fator Rouhani” já começou pesar positivamente no cenário internacional.

Hollande, o presidente da França, afirmou que agora admitia a participação do Irã na conferência que discutirá a paz na Síria. Antes de Rouhani, era radicalmente contrário à ideia.

William Hague, o Ministro do Exterior do Reino Unido, informou ao governo iraniano que aceitaria reatar relações diplomáticas completas com Teerã. Elas tinham sido reduzidas ao nível mais baixo, desde o cerco da embaixada inglesa  por estudantes.

E o Presidente Obama suavizou as sanções para permitir a importação pelo Irã de mais equipamentos médicos, numa aparente e inusitada intenção de demonstrar boa vontade.

Netanyhau, porém, não ficou vendo a banda passar.

Se Rouhani é esperança para quem deseja a paz, para Bibi, que aspira a destruição do regime islâmico, o novo mandatário é um verdadeiro pesadelo.

Em meados de julho, ele foi aos EUA e num programa de TV de grande audiência onde fez um apelo para que o Ocidente “não caísse no canto da sereia iraniana, chamando Rouhani de “lobo em pele de cordeiro”. E o premier israelense solicitou mais pressões, inclusive ameaças “concretas”de ataque militar.

5 dias depois, uma carta, assinada por 131 parlamentares americanos, enviada a Barack Obama, exortava-o a “revigorar os esforços dos EUA para assegurar um acordo nuclear negociado”, diante da oportunidade potencial representada pela eleição de Rouhani, que vinha insistindo na importância de aliviar as tensões com seus vizinhos e com o Ocidente, durante  e depois da campanha.”

Mas a AIPAC (maior lobby judaico-americano) redobrou seus esforços.

E, passados mais alguns dias, a Casa dos Representantes aprovou novas e destruidoras sanções por uma maioria de 400 votos versus 20…

Ou seja, cerca de 111 ilustres parlamentares aparentemente mudaram de ideia, num abrir e fechar de olhos.

Acredita-se que a escolha do momento, pouco antes da posse de Rouhani, mostra um claro objetivo de sabotar as novas negociações do grupo dos  P+5 (EUA, China,Rússia, França, Reino Unido e Alemanha) com o Irã, a se realizarem em setembro.

Essas sanções proíbem que qualquer pais faça negócios com o Irã usando euros, além de alvejarem os setores automobilístico e de navegação do país. E ainda limitam o poder do presidente de autorizar exceções. Assim, Obama teria de mandar a China e a Índia reduzirem suas quotas permitidas de importação de petróleo do Irã.

Para se converter em lei, a decisão da Casa dos Representantes tem de ser aprovada pelo Senado e por Obama.

Não se deve esperar nada do Senado, dominado pelo Israel, First.

Mas, e de Obama?

Vai deixar que Netanyahu vença e , assim, seja criado um mal estar capaz de complicar tudo?

Alguns analistas acham que, de qualquer maneira, Khamenei será um obstáculo mais perturbador do que o próprio premier israelense.

Sendo ele a maior autoridade no Irã, não irá permitir que Rouhani mude o jogo que, até agora, vem acontecendo sob sua orientação.

Mas, não é bem assim.

Embora a mais importante, a opinião do Supremo Líder não é a única que conta nas grandes questões do país.

A estrutura do governo iraniano é formada por uma verdadeira coleção de conselhos. Todos eles tem seus poderes para discutir, propor e participar das decisões.

Como presidente, Rouhani é um membro importante dessa estrutura. Seu voto também tem muito peso.

Lembro ainda que o Supremo Lider Khamenei não se opôs à candidatura Rouhani, nem tentou virar a mesa quando as apurações começavam a mostrar sua vitória esmagadora.

Acredito que ele não está a fim de se colocar contra o veemente desejo de mudança do povo.

Certamente ele sentiu que a linha-dura de Ahmadinejad não deu certo, os problemas do Irã estão cada vez mais agudos, é hora de dar chance a um governo moderado. Que abrande o sistema da revolução islâmica, até mesmo para garantir sua sobrevivência.

Em uma reunião com líderes estudantis, Khamenei enfatizou a necessidade de todos apoiarem e ajudarem o novo governo.

Rouhani está consciente de que precisa de fato de um apoio geral – tanto dos moderados e dos reformistas, quando dos radicais.

Porque sua tarefa é, não apenas ousada, mas também extremamente dificil.

Ele não perde tempo.

Relata o New York Times que, Maliki, o primeiro-ministro do Iraque foi portador de uma mensagem do presidente iraniano à Casa Branca, propondo negociações diretas.

Está pintando uma chance prometedora para se exorcizar o fantasma da guerra.

Talvez a última.

 

 

 

 

 

 

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