A revolução egípcia no seu momento de decisão

As multidões que encheram a Praça Tahir exigindo a queda de Mubarak mostram-se  apreensivas quanto ao futuro da sua revolução. A transição para a democracia conduzida pelos militares está sendo decepcionante.

O povo já saiu às ruas repetidas vezes, protestando contra a permanência em cargos importantes na polícia e no exército de figuras que deitaram e rolaram na ditadura Mubarak.  E a repressão é próxima ao estilo daqueles tempos nada saudosos. Cerca de 14.000 manifestantes, desde fevereiro, foram presos.
                      Há também reclamações generalizadas pelos julgamentos de civis por militares continuarem sendo realizados. Centenas dos manifestantes presos já foram assim condenados por penas que vão de alguns meses a até 7 anos de cadeia. Enquanto isso altas autoridades que se destacaram nos quesitos “corrupção” e “violência” estão sendo tratados com duvidosa leniência. Os juízes absolveram os ex-ministros Anas El-Fiqi, da Informação, Youssef Boutros Ghali, das Finanças, e Ahmed El-Maghrabi, da Habitação. Por sua vez, o ex-Primeiro Ministro Habib El-Aisdly, que mandou atirar no povo, teve seu julgamento adiado.
                    O Supremo Conselho das Forças Armadas respondeu, anunciando a demissão de 600 policiais, que praticaram violências contra os manifestantes da Praça Tahir. Quanto aos julgamentos de civis por tribunais militares, foi alegado ser uma necessidade temporária para lidar com a “desordem e o aumento de criminalidade”, mas cessariam logo que a Lei de Emergência fosse revogada, o que se daria antes das eleições parlamentares de novembro.
                   Apesar disso, os líderes da oposição, de um modo geral, desconfiam dos militares. Há dúvidas de que eles resistam a renunciar aos seus privilégios e poderes. Que são muitos.
                             Depois do acordo de paz com Israel, em 1979, o então presidente, Anuar Sadat, iniciou um processo de desenvolvimento no qual as forças armadas  tornaram-se um dos principais playerseconômicos do país. A Organização Árabe pela Industrialização, criada em 1970 para financiar tecnologias militares, voltou-se para a área civil. Utilizando recursos dessa entidade, o exército investiu em indústrias de veículos, plásticos,  alimentação e aparelhos elétricos. Atuou como uma empresa de engenharia construindo pontes, estradas, estádios de futebol, aldeias de beduínos, projetos turísticos e conjuntos habitacionais. É, atualmente, um grande proprietário de terras.

                             Num estado moderno e democrático, as funções do exército não são nem de longe iguais àquelas que lhe são atribuídas no Egito. Abrirão mão os militares de todo esse complexo de poderes e propriedades, aceitando apenasas funções que lhes são próprias nos países modernos? Lembrando que essa renúncia implica também em perda de consideráveis bens, penso que não será fácil, nem poderá acontecerá em prazo curto.
                               Apesar de todas as dúvidas e reticências que os civis da revolução fazem aos militares, a verdade é que eles tem sido sensíveis a certas reivindicações populares. A fronteira com a faixa de Gaza foi reaberta e as eleições dos parlamentares que redigirão a nova constituição foram marcadas para novembro, embora as presidenciais ainda não tenham data.
                               De acordo com pesquisas do Gallup Center, as intenções de voto para deputado estão muito divididas. Os grupos políticos preferidos pelo povo são a Irmandade Muçulmana , com 15%, e o NDP, com 10%. Os demais aparecem com números bem inferiores porque foram criados recentemente, sendo, portanto, pouco conhecidos, ao contrário dos outros que já tem uma longa tradição. Note-se que o NDP, o partido de Mubarak, foi fechado e seus líderes terão de se candidatar por outros partidos ou fundar um novo. A Irmandade Muçulmana declarou que não terá seu próprio partido mas candidatos inscritos por diversas legendas. A opinião geral é que os membros da Irmandade formarão  2 ou 3 partidos, que se unirão no Parlamento.
                           Quanto aos candidatos presidenciais, pesquisa do Pew  Research mostra Amr Moussa em primeiro com 41% das intenções de voto, seguido por Ayman Nour, com 32% e El Baradei, com 25%.
                            Moussa tem contra si o fato de ter sido Ministro das Relações Exteriores de Mubarak. Alega que jamais aderiu ao partido do governo e trabalhou com correção em seu posto. Atualmente secretário-geral da Liga Árabe, condenou, em junho de 2010, a duplicidade americana que faz vistas grossas à política de armamento nuclear de Israel enquanto não admite que o Irã tenha a sua.  Em 2006, manifestou-se contra os EUA e a Europa por não reconhecerem as eleições palestinas vencidas pelo Hamas . Após a queda do governo Mubarak, Moussa esteve na linha de frente do movimento pela reabertura da fronteira com Gaza. Posições estas que amenizaram seu comprometimento anterior com a ditadura, pois Israel e os EUA são mal vistos no Egito. Os americanos apresentaram apenas 20% de opiniões favoráveis contra 79% contrárias, segundo  pesquisa da Pew Research, em abril deste ano.  

                                Na presidência da agência nuclear da ONU, El Baradei teve uma atuação imparcial, por se opor às pressões das potências ocidentais para impor sanções ao Irã, mesmo sem haver indícios de um programa militar nuclear .Anteriormente já havia contestado as acusações contra Saddam Hussein, afirmando que o Iraque não possuía nem bombas atômicas nem químicas (como depois ficou provado) .  Ganhador do prêmio Nobel da Paz, dispõe de reconhecimento internacional, embora pouco conhecido no seu país, apesar de ter lançado uma campanha contra Mubarak antes mesmo da revolução popular que defenestrou o ditador. Como Moussa, ele defende uma política externa independente, tendo mesmo declarado que, eleito, reataria relações diplomáticas com o Irã.
                              Ayman Nour foi um dos principais líderes da oposição a Mubarak. Derrotado pelo ditador nas eleições fraudadas de 2005, sofreu perseguições que o levaram à prisão sob falsas acusações. Depois de alguns anos, pressão internacional por parte dos EUA e da Europa forçaram o governo a libertá-lo. Ele se declara um liberal democrata. Deve ser o candidato mais bem visto pelo governo americano apesar de ter se declarado firmemente favorável à revisão do Acordo de Paz Egito-Israel, de 1979, de modo a favorecer os interesses do seu país.
                             Os outros candidatos apresentam menor expressão, por enquanto. Esse quadro pode mudar quando as Forças Armadas e a Irmandade Muçulmana definirem suas posições.
                             A Irmandade Muçulmana foi fundada em 1928. Sob o lema “o Islã é a solução”, defendia que a constituição do Egito deveria reproduzir as leis do Alcorão. No início, pregava a não-violência. Posteriormente, mudou sua postura, promovendo diversos atentados o que levou o governo do Coronel Nasser a colocar a Irmandade fora da lei. A partir de 1970, voltou a ser um movimento pacífico, tendo inclusive condenado o atentado contra as Torres Gêmeas. Perseguida por Mubarak, a Irmandade, nas eleições de 2005, uniu-se a diversos partidos de oposição, lançando candidatos independentes que conseguiram 20% dos votos. Participou ativamente da revolução que depôs o ditador. Recentemente, alguns dos seus principais líderes lançaram um novo partido – o Partido da Liberdade e da Justiça – que defende a criação de um estado democrático, nacionalista e moderno, inspirado nos princípios do Islã, mas secular, sem tornar leis os ensinamentos do Alcorão.
                            A Irmandade Muçulmana conta hoje com 100 mil militantes e 600 mil contribuintes, uma força respeitável. Garante que não lançará candidato próprio a presidente, somente ao Parlamento. Seu apoio a um candidato a presidente poderá ser decisivo.
                           Não foi lançado ainda nenhum candidato dos militares. Apesar do poder de que dispõem por serem governo, eles não contam com a confiança da maioria da população. Tem procurado se identificar com o povo, adotando uma postura nacionalista e anti-americana.
                           Em julho, o general Mohamed Al –Assar, membro do Supremo Conselho das Forças Armadas, criticou os EUA por financiarem grupos egípcios pró-democracia, sem autorização do governo. Disse que se tratava de uma violação da lei e que os egípcios  se opunham à interferência estrangeira por uma “questão de soberania”.  Por sua vez, o general Ahmed Wadan, um ex-comandante do exército, foi mais além: afirmou que o Ocidente representa a ocupação, o imperialismo e o colonialismo. Mas os militares decepcionaram quando, diante da morte acidental de 8 soldados egípcios pelo exército de Israel, limitaram-se a exigir pedidos de desculpas. A opinião pública queria mais, queria que o governo imitasse a Turquia, que reduziu suas relações diplomáticas com Israel pelo massacre da Flotilha da Liberdade e cortou todas as relações comerciais e militares.
                                 Esses dois grupos, Irmandade Muçulmana e Forças Armadas, aparentemente inimigos, tem se aproximado, ultimamente. Robert Fisk, conceituado  expert em política do Oriente Médio, aponta como provável uma aliança entre eles, que, ele teme, poderia preservar os privilégios dos militares na era Mubarak.
                          O futuro da primavera árabe no Egito ainda é incerto. O que se pode dizer é que daqui pra frente, nada será como antes. Provavelmente haverá democracia no Egito, embora a atitude dos militares ainda seja uma incógnita. As relações com Israel deverão esfriar. Mas o Egito não será hostil à Casa Branca, pois ainda precisa de sua ajuda econômica. Somente o Exército, recebe 1 bilhão e 100 milhões de dólares por ano. De outro lado, não se espera que o país continue sendo um aliado dos EUA tão concessivo quanto foi nos tempos de Mubarak. Pelas manifestações das principais forças políticas, tudo indica que terá uma política externa independente, semelhante à da Turquia.

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