A próxima vítima

A vitória do ultra-conservador Ahmadinejad torna o Irã favorito para próxima vítima da política de guerra preventiva do governo Bush.

Com neoconservadores no poder em Washington, fica muito perigoso neoconservadores no poder em Teerã, diz um cientista político iraniano.  Espera-se que o novo presidente iraniano seja ainda mais duro no relacionamento com os Estados Unidos, o que deverá ensejar uma resposta também dura deste. A inimizade entre os dois países cresceu muito em 1953, quando um golpe militar dirigido pela CIA derrubou o regime do primeiro-ministro Mossadegh, que havia acabado de nacionalizar o petróleo. Seu sucessor, o xá Reza Pahlevi, foi um governante elitista opressivo, muito popular nos Estados Unidos, mas odiado pelo povo. A revolução que instituiu uma república islâmica e cujos seguidores seqüestraram por mais de um ano os diplomatas americanos em Teerã contribuiu para aumentar o ódio entre os dois países. A situação pode agora ficar crítica quando os Estados Unidos pressionam o governo iraniano para abandonar um suposto plano de produzir armas nucleares. O que Bush considera tão grave que poderia levá-lo a uma guerra.
Já em fins de 2003, os Estados Unidos denunciavam o programa nuclear iraniano por violar o Tratado de Não-Proliferação de Armas Atômicas, do qual Teerã era signatária. O Iraque replicou afirmando que seu objetivo era exclusivamente pacífico. Em 2004, os americanos argumentaram que os reatores existentes seriam suficientes para produzir energia, sendo os 5 novos encomendados à Rússia prova de que se objetivava algo mais. Somou-se a isso o início do enriquecimento do urânio no Irã, etapa tanto da produção de energia quanto de armas nucleares. A Europa, então, através da Alemanha, França e Inglaterra, procurou resolver o problema por via diplomática. A princípio, Bush não concordou. Queria propor sanções no Conselho de Segurança da ONU. Não dando certo, teria, então, moral para atacar. Mas os europeus insistiram na sua posição. Sua idéia era oferecer ao Irã compensações, que incluiriam até usinas nucleares elétricas prontas. E pediram 6 meses para fazer uma proposta concreta. O governo do Irã concordou em interromper o enriquecimento do urânio até o fim desse prazo. Bush acabou se conformando.
A eleição de Ahmadinejad pode ser um complicador. Ele é aliado dos religiosos fundamentalistas que, através do Conselho dos Guardiões, detém um poder ainda maior do que o do Executivo. Na campanha eleitoral, seus adversários o mostraram como um verdadeiro taleban. Mas será o diabo tão feio quanto o pintam?
Ahmadinejad baseou sua campanha no ataque às desigualdades sociais e à corrupção, que identificava no seu concorrente, o conservador moderado Rafjanasi, um dos homens mais ricos do país, cuja fortuna tinha origem duvidosa. Apesar do considerável progresso econômico do Irã, 76% da renda nacional vão para os 10% mais ricos, enquanto 18% vivem abaixo da linha de pobreza. Os governos anteriores, inclusive o do reformista Katami, preocuparam-se mais em investir em projetos de desenvolvimento. Enquanto os outros candidatos falavam em reaproximação com os Estados Unidos, para Ahmadinejad isso não seria necessário. Com sua plataforma anti-corrupção, pró reformas sociais e nacionalista, Ahmadinejad, embora reacionário em questões como direitos civis e emancipação feminina, acabou vencendo.
Eleito, declarou que “governará com moderação”, que “os verdadeiros problemas do país são o desemprego e a falta de habitações, não o modo como as pessoas devem se vestir”. As afirmações de Mehdi Kahor, seu provável ministro da Cultura, surpreenderam: “Ahmadinejad fará o máximo para evitar a interferência do Estado na vida privada. Pretendemos parar a censura e a pressão. Sob Ahmadinejad, não veremos mais medidas duras”.
Tudo isso faz supor que o povo do Irã se unirá a seu presidente num confronto com os Estados Unidos. Ahmadinejad já afirmou com firmeza que o Irã não abre mão do seu projeto de usar a energia nuclear para fins pacíficos. Por sua vez, o governo dos Estados Unidos está preparando a opinião pública para uma possível guerra. Bush tem reiterado seus ataques, qualificando o governo iraniano como ditatorial e apoiador dos terroristas, até mesmo da Al Qaeda (o que é impossível, os aiatolás xiitas dão-se pessimamente com os sunitas de Bin Laden). Um Irã potência nuclear é apontado por ele como uma ameaça terrível.
Enquanto isso, aviões americanos sem piloto vêm realizando vôos de espionagem sobre o território do Irã, o que é um ato de guerra. A CIA, segundo Scot Ritter – ex-militar americano que foi um dos fiscais da ONU no Iraque -, tem apoiado ações terroristas do MEK (Mujahadin el- Khaik), grupo iraniano de oposição. O interessante é que o MEK está na lista americana das organizações terroristas, tendo seus integrantes sido treinados no assassinato com explosivos pelos serviços de inteligência de Saddam Hussein. Os jornalistas Julian Borger e Ian Traynor, no “The Guardian”, 18/01/05, relatam que os integrantes do MEK estão baseados no Camp Ashraf, perto de Bagdá, sob proteção dos Estados Unidos, enquanto Washington decide qual estratégia  seguir. Além disso, unidades de comandos americanas realizam missões secretas de reconhecimento no Irã.
Na vizinha ditadura amiga do Azerbaijão, militares americanos estão preparando uma grande base para atacar o Irã. A proximidade de Teerã e outros alvos-chaves irão facilitar muito as missões de bombardeio, permitindo uma presença de 24 horas por dia no ar. A CIA treina azeris, etnia que habita tanto o Azerbaijão quanto o norte do Irã, formando unidades especiais para agir no território iraniano.
Em fins julho, a situação começa a se definir. Mas, ainda que Ahmadinejad recuse as propostas européias, será difícil para os Estados Unidos conseguirem o apoio do Conselho de Segurança às suas sanções. A China as vetará, pois já se declarou a favor do Irã. A Rússia também. Seus fornecimentos para o programa nuclear iraniano são essenciais para levantar sua combalida indústria do setor.
É possível que, mesmo assim, Bush vá à guerra. Claro, é preciso que a tormenta no Iraque se acalme, que o povo americano deixe de rejeitar sua política nesse país, que o recrutamento para o exército volte a ser bem visto, que a economia venha a ter condições de suportar as imensas despesas de mais uma invasão…
Se tudo der certo para Bush, o Irã deverá ser sua próxima vítima. Mas não será a única. Também o povo americano sofrerá. E bastante, pois essa nova guerra causará muito mais perdas humanas do que a do Iraque.

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