A Primavera Árabe ficou no meio do caminho.

O jornalista Abdul Ilan Haydar Shayi completou 2 anos numa prisão do Yemen pelo crime de revelar uma verdade inconveniente.

Em janeiro de 2010, ele foi condenado por uma Corte Criminal Especial pela acusação de manter contatos com a Al Qaeda, unir-se a esse grupo e agir como seu consultor de mídia.

Abdul não nega que esteve com o pessoal da Al Qaeda. Mas foi no exercício de sua função de jornalista.

Os promotores não encontraram provas das acusações.

Talvez com base nisso, o então Presidente Saleh ordenou a libertação de Abdul.

No entanto, por interferência do governo Obama, decidiu mantê-lo preso pelos 5 anos de sua sentença, mais banimento do país ao fim desse período.

Qual seria a razão dos americanos exigirem que Abdul fosse mantido atrás das grades?

Como se sabe, Saleh , ditador há muitos anos de um simulacro de democracia, fora alcançado no ano passado pela onda da Primavera Árabe.

O povo saiu às ruas, protestando contra o regime, exigindo sua queda.

Saleh respondeu com tiros e espancamentos, matando dezenas de manifestantes.

Depois de meses de lutas nas ruas, a Oposição aliou-se aos rebeldes e, bem organizada, assumiu sua liderança.

Para não repetir o erro cometido no Egito, Obama também entrou na jogada do mesmo lado.

Convenceu Saleh, seu amigo de tantos anos, a retirar-se com dignidade.

E mediou um acordo com a oposição no qual o ditador deixaria o poder, Mmas não seria nem processado nem obrigado a fugir do país.

Aí, sob o patrocínio dos EUA, foi realizado uma eleição talvez não muito democrática, pois o povo teria de votar no único candidato, o ex- Vice Presidente Hadi.

E a Primavera Árabe, aparentemente, venceu.

O Yemen foi ganho para a democracia.

Não exatamente, como se verá a seguir.

Desde os tempos de Saleh, a Al Qaeda estava muito ativa no Sul, atacando acampamentos de soldados e até mesmo assumindo o controle da cidades.

O governo do Yemen, com forte apoio da aviação e dos drones americanos, vinha combatendo os terroristas.

Em dezembro de 2009, forças iemenitas atacaram a comunidade de Majalah, supostamente cheia de terroristas. Aviões americanos tiveram papel de destaque, lançando bombas fragmentárias em grande quantidade. Note-se que esse tipo de bombas é proibido por um tratado assinado por 75 países. Os EUA ficaram de fora.

A imprensa local anunciou que 14  membros da Al Qaeda haviam sido mortos no ataque.

Mas Abdul, que esteve no local investigando, tinha outra versão.

Em artigos e entrevista à rede Al Jazeera, ele declarou que, na verdade, pacíficos civis foram as vítimas do bombardeio:  morreram 41, dos quais 21 eram crianças e 14 mulheres.

Foi o primeiro jornalista yemenita a denunciar a participação da aviação americana nesse massacre de inocentes.

Fez isso tranqüilo, a Primavera Árabe chegara ao Yemen trazendo a democracia. E democracia exige liberdade de imprensa.

Até certo ponto, como se viu a seguir.

Para os EUA que desejam conquistar “hearts and minds” dos árabes, a denúncia da matança de civis por sua aviação é extremamente desagradável.

Abdul foi preso, condenado e posteriormente mantido[L1]  na prisão por pressão americana.

“Desde sua prisão e julgamento, há fortes indicações de que Abdul Ilan Haydar Shayi foi indiciado por revelar evidências do papel dos EUA no ataque com bombas fragmentárias que matou dezenas dos moradores,” declarou Hassan Hadj-Sanahoui, Sub-Diretor do programa para o Oriente Médio e o Norte da África da Anistia Internacional.”

Até setembro de 2010, ele foi mantido incomunicável, sendo submetido a espancamentos e torturas que lhe causaram ferimentos no peito, queimaduras e um pé quebrado.

A Anistia não descobriu nada que pudesse justificar as acusações contra Abdul.

Devido à falta de evidências contra ele, às torturas que sofreu, a parcialidade da Corte Criminal especial e sua falta de independência, a Anistia considerou a prisão arbitrária, devendo ser cancelada e Abdul, libertado.

Provavelmente não será.

A guerra contra a Al Qaeda tem sido alegada como justificação de atos dessa natureza.

Ao contrário do que aconteceu no Egito, os EUA aderiram à Primavera Árabe em tempo.

Mas não se pode dizer que ela está realizando seus objetivos.

É certo que foi tirado do poder um tirano que governava o país há muitos anos.

Mas seus aliados continuam em posições importantes.

Não se pode considerar exatamente democrática uma eleição onde o povo é obrigado a votar num determinado candidato por ser o único.

Valores da Primavera Árabe como a liberdade de imprensa, a soberania nacional (por exigência da Casa Branca, Abdul continuou preso) e um judiciário independente não foram desrespeitados no caso do jornalista que denunciou o bombardeio americano com bombas fragmentárias.

A guerra contra a Al Qaeda tem absorvido todas as atenções e os recursos do governo e dos EUA, na região.

Enquanto isso, o Yemen segue sendo o país mais pobre do Oriente Médio.

Segundo a UNICEF, perto de 60% das crianças de até 5 anos sofrem, atualmente, de desnutrição crônica. Isso faz do Yemen o país com o mais alto índice de desnutrição crônica do mundo, depois do Afeganistão.

Cerca de 250 mil crianças estão sob risco de morrer de fome ou sofrer conseqüências danosas à saúde por toda a vida, se nada for feito imediatamente.

Informa Joy Singhal, da Ong inglesa Oxfam, que 44% da população – cerca de 10 milhões de pessoas – passam fome.

Um dos principais objetivos da Primavera Árabe é exatamente resolver este problema.

Enquanto nenhuma ação for tomada nesse sentido, pode-se dizer que ela mal começou no Yemem.

Esse pobre país pobre.


 [L1]

1 pensou em “A Primavera Árabe ficou no meio do caminho.

  1. Como os USA iam ser contra a prissão do Abdul se estão doidos por botar as mãos, prender, encarcerar e julgar o Assange por razões similares???

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