A nova maldade de Donald Trunp.

A nova maldade de Donald Trump.

A última guerra do Líbano terminou há 14 anos, mas, quando  o exército de Israel se retirou, deixou um sinistro legado. Cerca de 350 ml minas terrestres anti-pessoais espalhadas ao longo de toda a fronteira Israel-Líbano.

São engenhos diabólicos. Implantadas nos campos de batalha, explodem quando tocadas, ainda que levemente, mutilando ou matando.

Nos campos minados, parte destas armas mortíferas não são ativadas durante os combates. Intactas, conservam seu potencial devastador por muitos anos. Mesmo depois do conflito acabar, elas continuam explodindo e matando civis que inadvertidamente passam por esses campos contaminados. Incluindo também os efeitos das minas na guerra civil de 1975, um total de quatro mil libaneses foram mortos ou mutilados, somente até fins de 2008 (The National, 04-04-2009).

O mais trágico é que as crianças são as primeiras vítimas porque pegam esses engenhos letais pensando que se trata de brinquedos. No Líbano, 70% ds vítimas das minas terrestres foram meninos e meninas (Bint Jbeil.com) Por isso, em alguns países, onde ainda estão implantadas minas terrestres anti-pessoais, é comum se encontrar crianças sem braços ou pernas.

Estas implacáveis armas não foram utilizadas apenas nas guerras do Líbano.

Nas guerras do Vietnam, do Iraque, do Afeganistão, da Ucrânia, da Angola, do Iraque e da Síria, os países envolvidos as usaram largamente.

De acordo com a ONU, a partir do início da guerrada Ucrânia, cerca de 2.000 pessoas foram mortas ou mutiladas por minas terrestres.

Trata-se de uma ameaça de amplitude mundial. Contam-se 120 mil pessoas vitimadas no período 1999-2018 (Landmine Monito.com), a maioria civis.

Cada ano, 2 mil pessoas são mortas e 8 mil, mutiladas, muitas vezes anos depois do fim dos conflitos (France 24, 04-04-2018).

Apesar da opinião pública libanesa condenar por unanimidade  o uso de minas terrestres, durante um certo tempo o governo do país recusou-se a retirar todas aquelas que os soldados israelenses deixaram numa grande área em todo o comprimento da fronteira.

Como explicou , Timur Goksel, ex- membro da UNIFIL, força pacificadora da ONU no Líbano: “Tecnicamente, o Líbano não está em paz com Israel, há ainda muitas tensões. Israel pode iniciar um novo conflito. AS MINAS SÃO A MAIS BARATA DEFESA QUE NÓS TEMOS.”

De fato, a paz sempre esteve sob altos riscos, por lá. Possuindo Israel uma força militar muito superior à do Líbano, uma invasão do país seria dificilmente repelida. Julgava-se que nessa circunstancia as minas seriam uma eficiente barreira contra o avanço do exército israelense, justamente o responsável por sua instalação. Seria o feitiço virando contra o feiticeiro.

Depois da guerra de 2006, Israel continuou assustando o Líbano.

Por exemplo : em 5 de julho de 2016, em entrevista ao jornal Haaretz, o general Hertzi Halevy, comandante da  91ª divisão do exército israelense, declarou que seu país possivelmente iria invadir o Líbano, em breve.

Nesse caso, segundo o cabo de guerra, a retaliação israelense seria mais dura e mais violenta do que na última invasão do Líbano, entre julho e agosto de 2006, quando o exército de Telaviv matou mais de 1.100 libaneses, a maioria civis, ferindo 4.400.

Em janeiro de 2018, Yisrael Katz, ministro do governo Netanyahu foi mais duro: “O Líbano voltará para atrás muitos, muitos anos, alguns dizem que até a Idade da Pedra e outros dizem que até os tempos dos homens das cavernas.”

Mais recentemente, o governo de Beirute superou o medo de Israel pelo desejo de fazer as coisas certas. Em fins de 2018, o país afirmou sua decisão de remover todas as minas terrestres do país, o que lhe daria condições de aderir ao Tratado de Proibição de Minas Terrestres, a chamada Convenção de Otawa, que proíbe a produção, armazenamento, uso e comércio desses engenhos.

133 estados assinaram a convenção, em 1997. Atualmente, já são 164. Ficaram de fora a China, a Rússia, o Egito, a Índia, Israel, o Paquistão e os EUA.

Sempre houve uma pressão especial para que os americanos aderissem à causa da destruição das as minas terrestres do planeta. No entanto, o presidente Clinton negou-se a comprometer seu país com esse objetivo. Seu sucessor, George H.W.Bush (o pai), seguiu seu exemplo: na Guerra do Golfo, 1990- 1991, pelo menos 117 mil minas choveram sobre o Iraque e o Kuwait, lançadas por aviões americanos (The Economist, 13-02-2020). Não se sabe se mataram mais civis do que soldados de Saddam Hussein.

Planeja-se bombardeios aéreos ,objetivando atingir alvos militares. As mortes de civis são normalmente efeitos colaterais. Lançar bombas especificamente contra concentrações de civis são atos raros e condenados como crimes de guerra, a não ser, é claro, quando as potências infratoras venceram (vide Hiroshima, Nagazaki, o ataque a Dresden, na 2ª Grande Guerra, e a cidades houthis na guerra do Iêmen).)

A partir da assinatura da Convenção de Otawa, a opinião pública mundial conscientizou-se da malignidade particular das minhas terrestres anti-pessoais. Elas se destacam das demais armas por sua capacidade , mesmo não acionadas, de matar civis e continuar matando por tempo indefinido tanto soldados, quanto mulheres e crianças, que nada tinham a ver com guerras.

Em 2014, o presidente Obama emitiu uma diretiva política, anunciando que seu país, que, a décadas, não produzia ou adquiria minas terrestres, iria destruir todos seus estoques, reservando-se o direito de usar esta arma na zona desmilitarizada entre as duas Coreias, necessário para a segurança da Coreia do Sul (Human RIgths Watch, 06-10-2014).

Coerente com essa decisão, o ex-presidente democrata iniciou um programa de remoção e destruição de minas terrestres , armazenadas ou enterradas em todo o mundo.

Não foi nada fácil vencer a pressão contrária dos meios militares, avessos à destruição de armas, que consideravam importantes nas guerras que os EUA vinham se envolvendo.

Esperava-se que o tempo trabalhasse a favor dos defensores dos direitos humanos dos civis, habitantes de regiões conflagradas.

De fato,  como a indústria de armas americanas estava produzindo novos equipamentos que faziam pela segurança da Coreia do Sul muito mais do que as minas, seria lógico que o caminho aberto por Barack Obama fosse completado pelo presidente seguinte.

Mais uma vez Trompa decepcionou.

Nos primeiros meses de 2020, anunciou e depois efetivou o cancelamento das restrições ao uso de minas terrestres pelas forças americanas.

Segundo o feliz esposo da maravilhosa Melanie, a política de Obama poderia colocar as tropas americanas em “desvantagem severa.” Coisa que ele jamais admitiria pois estaria promovendo o que chamava reconstrução ds forças armadas dos EUA. Queria elevar seu cardápio de armas, não reduzi-lo.

Reproduziu as ideia de um dos secretários de Defesa demitidos por ele no primeiro ano do seu governo, o general James Mathis. Revisando as políticas do Pentágono, esse oficial, apelidado de “cachorro louco” por seus colegas, declarou que a proibição de Obama “aumentava os riscos de sucesso das missões (militares)” e gerava perigo crescente para as forças armadas dos EUA (CNN, 2017).

Tentando se mostrar humanitário, o governo americano afirmou que sua decisão não ameaçava civis pois  só seriam liberadas as chamadas “minas expertas”, que explodiam no campo inimigo só ao serem acionadas por um operador afastado das batalhas.

Os especialista consideram que as novas minas anti-pessoais não livram os civis dos riscos de serem explodidos.

 “Como qualquer dispositivo eletrônico baseado em microchips elas estão sujeitas a falhas”, diz Mark Isnay, diretor associado da Human Rights Watch. A conclusão do Pentágono sobre sua segurança teria sido formulada calculando as médias de falhas de componentes não estudos reais sobre implantação de minas (Washington Post, 01-02-2020).

Rob Berschinski, que foi chefe da política de minas terrestres de Barack Obama afirma que elas são, não apenas uma ameaça humanitária, mas também, militarmente obsoletas.

Na Guerra do Golfo, por exemplo, estudos do departamento de Defesa mostram que elas serviram principalmente para limitar a capacidade de manobra das forças terrestres.

Seja como for, não dá para negar que a decisão de Trump é uma sentença de morte para os civis, conforme diz Jeff Meer, diretor executivo da Humanity& Inclusion (org americana de direitos humanos).

Mais uma vez The Donald coloca os EUA em rota de colisão com a maior parte do mundo civilizado, como ele já fizera ao romper o Acordo de Paris e o Acordo nuclear com o Irã.

Ele pouco se importa, o que lhe interessa é como a maioria dos americanos vê seu governo. Trump acredita que reforçar sua imagem de machão, mandando assassinar generais inimigos e pondo os interesses militares do país acima dos interesse humanos, terá mais chances de vencer as novas eleições.

Até novembro deste ano, sai de baixo, The Donald não vacilará em cometer novas malignidades desde que facilitem sua reeleição.

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