A herança maldita da guerra do Iraque.

O décimo aniversário da guerra do Iraque foi comemorado em Bagdá com uma série de explosões que mataram 50 pessoas, ferindo dezenas.

Atribui-se a culpa à Al Qaeda, atualmente, muito poderosa no país.

Antes das invasões americanas, os terroristas de Bin Laden não representavam nada, combatidos a ferro e fogo pelo ditador, que não admitia nenhum poder além do dele.

A Al Qaeda iraquiana fortalecida e atuante é uma das dádivas da herança maldita da guerra do Iraque.

Da mesma natureza é o acirramento do ódio sectário entre xiitas e sunitas, cujas milícias mais radicais já se empenham em ataques que, em conjunto com a Al Qaeda, produzem uma média anual da ordem de 4.000 mortes.

Elas se juntam às centenas de milhares de iraquianos mortos na guerra e durante a ocupação e aos 4 milhões de refugiados, obrigados a abandonar seus lares destruídos.

Como destruídas foram várias cidades, a infraestrutura sanitária do país e o crescimento econômico que existia antes da invasão e só agora começa a ser recuperado.

A herança maldita da guerra do Iraque se completa com a revelação de informações alarmantes.

Suspeitas sobre o caráter maligno das munições com urânio enriquecido usadas pelo exército americano foram confirmadas por fatos.

Vem surgindo em todo o Iraque um número extremamente elevado de nascimentos com enfermidades congênitas, de casos de câncer e algumas doenças antes nunca vistas no país- no fígado, pulmões e rins, provocando muitas vezes  colapso total do sistema imunológico.

Associa-se também ao DU (urânio empobrecido) o altíssimo aumento dos casos de leucemia, problemas renais e anemia, especialmente entre as crianças.

Nas áreas onde se travaram combates, elevou-se em níveis extraordinários o número de abortos e partos prematuros.

Estatísticas oficiais do governo do Iraque mostram que até 1991, antes da 1ª guerra do Iraque, a média de casos de câncer no país era de 40 em 100 mil pessoas.

Em 1995, esse número cresceu 20 vezes – passou para 800 em 100 mil.

Em 2005, 2 anos depois da 2ª invasão e da ocupação do Iraque, dobraram os casos de câncer, foram para 1.600 em 100 mil iraquianos.

Ou seja, 40 vezes mais do que antes dos ataques americanos ao país.

O Dr.Salah Haddad da Sociedade Iraquiana de Administração de Saúde não tem dúvidas de que esse desastre humano está ligado diretamente ao uso pelas tropas americanas e inglesas de munição com urânio empobrecido (DU).

Como prova, ele cita o que aconteceu na cidade de Faluja.

Em 2004, o exército dos EUA promoveu dois ataques maciços a Faluja, usando grande quantidade de munições com DU.

“Meus colegas e eu,” informou o dr.Haddad, “verificamos em Faluja um aumento de más formações congênitas, esterilidade e infertilidade. Tivemos esses problemas devido aos tóxicos trazidos pelos bombardeios americanos e aos armamentos que eles usaram, com DU.”

Num estudo epidemiológico intitulado “Câncer, Mortalidade Infantil e Nascimentos, por Sexo, em Faluja”, entre 2005 e 2009, foram pesquisados altos índices fora do comum de casos de câncer e defeitos de nascença.

Um dos autores do estudo, Chris Busby, afirmou que a crise de saúde na cidade representa “o mais alto índice de danos genéticos em qualquer população jamais estudada.”

A dra.Samira Alani, uma pediatra do Hospital Geral de Faluja, estudou a explosão de anormalidades congênitas que aconteceram na cidade a partir de 2005, após os ataques maciços das forças americanas, usando munição com DU.

No ano passado, entrevistada pela Al Jazeera, ela declarou:”Temos todos os tipos de defeitos agora, desde doenças congênitas do coração até sérias anormalidades físicas, ambas em quantidades que você não pode imaginar.”

Ela é co-autora de um estudo, publicado em 2010.

Alguns dos seus dados: defeitos no coração são agora em número 13 vezes maior do que a média da Europa; há 33 vezes mais crianças iraquianas com defeitos no sistema nervoso do que na média dos países europeus.

Entre outubro de 2009 e dezembro de 2011, a Dra.Alani já havia tratado 677 crianças com defeitos de nascença. Oito dias depois, quando a Al Jazeera voltou a entrevistá-la, esse número já havia saltado para 699.

A Dra.Alani mostrou aos entrevistadores centenas de fotos de bebês nascidos com cabeças anormalmente alongadas; membros excessivamente curtos; orelhas, narizes e colunas mal formadas; além de um bebê com um único olho no meio do rosto.

Ela visitou o Japão anos atrás, onde cientistas lhe contaram que a incidência de defeitos de nascença no país estava entre 1 e 2 por cento devido a radiações das bombas atômicas de Nagasaki e Hiroshima.

Em Faluja esse número era 14,7% de todos os bebês, cerca de 14 vezes o índice japonês.

No mês passado, a médica iraquiana informou à Al Jazeera que , 8 anos depois dos ataques a Faluja, a média de bebês com más formações congênitas continuava sendo de 14%.

Em outras regiões onde se concentraram ataques americanos usando munição com urânio empobrecido (DU) as consequências são igualmente dramáticas.

Na província de Bailur, reporta o dr.Sharif AL-Alwachi, chefe do Centro de Câncer de Bailur: “O ar, o solo e a água estão poluídos por essas armas (com DU) e quando entram em contacto com seres humanos tornam-se venenosos. Isto é novo em nossa região e o povo aqui está sofrendo.”

De fato, desde a invasão de 2003, os índices de câncer vem crescendo assustadoramente em Babil.

O “Boletim de Toxicologia e Contaminação Ambiental”, um jornal baseado em Heidelberg, informa que o número de bebês com defeitos de nascença multiplicou-se por 7 na província iraquiana de Bassra, entre 1994 – após a 1ª guerra do Iraque – e 2003.

Ainda nessa cidade, aconteceram fatos graves que o dr. Jawal AL-Ali, diretor do Centro de Operações do maior hospital de Bassra, atribui às munições com urânio empobrecido: “Dois estranhos fenômenos, que eu nunca vi antes, foram verificados em Bassra. O primeiro é dois ou três tipos diferentes de câncer, no mesmo paciente. O segundo é a concentração de doentes de câncer numa mesma família. Temos aqui 58 famílias com mais de um membro afetado por câncer.”

Desde os últimos decênios do século XX, a comunidade internacional se mostra preocupada com os efeitos das munições com urânio empobrecido.

Diversas propostas tem sido discutidas na ONU, visando pesquisar, controlar e limitar o uso do DU.

No parlamento europeu chegou a ser discutida a ideia de uma moratória sobre esse tipo de munição.

Sistematicamente, os EUA, o Reino Unido, Israel e a França são contra quaisquer medidas que o restrinjam.

Várias resoluções da ONU pedem maior transparência das potências que o usam.

A última delas, em 2010, dispunha que os países usuários deveriam transferir dados quantitativos e geográficos aos países afetados que solicitassem.

Esta resolução foi aprovada por 155 países, com 27 abstenções e 4 votos contrários dos opositores de sempre: EUA, Reino Unido, Israel e França.

Alegam que não há nada que prove a malignidade especial do DU.

Trata-se de uma munição eficiente demais para que os estados-maiores dos exércitos desses países aceitem resoluções que venham a dificultar seu uso.

Informa o dr.Ahmad Hardam, conselheiro da Organização Mundial da Saúde: ”As forças americanas admitem ter usado mais de 300 toneladas de armamentos com DU em 1991(1ªguerra do Iraque). A verdadeira cifra chega perto de 800. Como se não fosse suficiente, a America usou 200 toneladas mais somente em Bagdá na última invasão.”

Enquanto isso, acumulam-se as provas contra o DU.

Diz o dr.Hardam: ‘Em Bassra, levamos 2 anos para conseguir provas conclusivas do que o DU faz, mas agora sabemos o que pesquisar e os resultados são aterrorizantes.”

Outro médico, este americano, o dr.Durakovic do Medical Research Center, dirigiu uma pesquisa de campo no Iraque, em outubro de 2003, depois da invasão americana.

Foram coletadas 100 amostras de substancias como solo, urina humana e tecidos de cadáveres de soldados iraquianos em 10 cidades, incluindo Bagdá, Bassra e Najaf.

Testes preliminares mostraram que amostras do solo, ar e água continham de centenas a milhares de vezes o índice normal de radiações.

De acordo com o artigo 35 do Protocolo I, uma emenda à Convenção de Genebra, proíbe o uso de quaisquer meios ou métodos de guerra que causem ferimentos supérfluos, sofrimento desnecessário ou danos extensivos e a longo prazo à saúde humana e ao meio ambiente.

O artigo 36 obriga todo Estado que estiver estudando, desenvolvendo ou adquirindo uma nova arma a proceder a uma pesquisa legal dessa arma.

Os dados médicos que vem do Iraque enquadram nesses artigos as munições com DU  e  classificam seu uso como crime de guerra.

Não só centenas de milhares de iraquianos são agora vítimas de doenças raras ou inexistentes no país antes das invasões americanas, como também as gerações futuras serão afetadas.

As contaminações causadas pelo DU usado pelas tropas americanas nas duas guerras do Iraque, em 1990 e 2003, continuam, passando de pai para filho.

Embora considere a guerra do Iraque um erro, o presidente Obama afirma que o país agora está muito melhor.

Ignora a herança maldita deixada pelos seus exércitos ao povo iraquiano.

 

 

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