A democracia a ferro e fogo

“Uma das campanhas militares mais rápidas e humanas da história”.

George W. Bush (sobre a guerra do Iraque)

A edição on-line da Al-Jazeera Internacional de 28 de novembro revela que aviões americanos teriam usado napalm nos bombardeios diários, ditos “pontuais”, que antecederam o ataque a Faluja. Apontam nesse sentido os corpos parcialmente “derretidos” e o testemunho de vários civis gravemente feridos. Como o do morador, Abu Sabah: “Eles usaram estas estranhas bombas que soltam fumaça em forma de nuvem de cogumelo… Então, pequenos pedaços caem do ar com longos rabos de fumaça atrás deles”. De acordo com Abu, partes dessas bombas explodiam em chamas que queimavam a pele, mesmo quando se jogava água para tentar apagar.

Sabe-se que são estas a aparência e os efeitos das bombas de napalm.

As bombas de napalm foram muito usadas pelo exército americano e seus aliados sul vietnamitas durante a guerra do Vietnam. Toneladas delas foram lançadas sobre os vietcongues e o território norte vietnamita, eliminando milhares de soldados inimigos e camponeses.

Robert Musil, da ONG Phisicians for Social Responsability, refere-se assim ao napalm: “Exige uma imensa quantidade de recursos médicos… Cria horríveis ferimentos…”.

O mundo tomou consciência do horror que elas causam através da famosa foto de um correspondente de guerra que mostrava crianças nuas e queimadas, fugindo em desespero de sua aldeia em chamas.

Foi tão grande a repercussão negativa que, em 1980, uma convenção internacional, patrocinada pela ONU, proibiu seu lançamento em áreas de população civil. Os Estados Unidos foram a única nação que não a assinou. No entanto, dobrando-se ao clamor internacional contra armas químicas, concordaram, anos depois, em destruir seu estoques de napalm.

Aparentemente, o governo Bush esqueceu tudo isso quando invadiu o Iraque, em 2003. Pilotos dos fuzileiros navais fizeram afirmações muito comprometedoras em entrevistas após o bombardeio das pontes sobre o canal Saddam e o rio Tigre.

“Nós ‘napalizamos’ aquelas pontes”, disse o coronel Randolph Alles, comandante do Marine Group 11, “infelizmente, havia pessoas lá porque você podia vê-las no vídeo. Eram soldados iraquianos. Não é um grande modo de morrer…”. E Alles completou: “os generais adoram o napalm. Ele tem um grande efeito psicológico”.

Oficiais anônimos dos fuzileiros navais contaram à rede CNN e ao jornal australiano Sidney Morning Herald, que seus aviões também despejaram napalm sobre posições iraquianas. Nessa ocasião, o uso de napalm foi negado pelo Pentágono.

Seus porta-vozes insistiram que não se tratava de napalm mas sim de “bombas de fogo”. Essas bombas, em vez de usarem gasolina e benzeno como combustível, usam um combustível baseado em querosene, com menor concentração de benzeno. Embora tendo um efeito “notavelmente similar” ao do napalm, elas se diferenciariam pois não destroem o meio ambiente.

“Você pode dar um nome diferente do napalm à bomba, mas ainda é napalm”, diz John Pike, diretor do grupo de estudos militares Global Security. “Ele foi reformulado no sentido de que, agora, usam um destilado de petróleo diferente, mas é só isso”, conta.

Por sua vez, Robert Musil, refere-se à sutil distinção do Pentágono como “bastante escandalosa”.

Diante das denúncias veiculadas pela Al Jazeera, deputados trabalhistas ingleses solicitaram que o primeiro ministro Tony Blair desse explicações à Câmara dos Comuns sobre o uso do gás na cidade de Faluja.

A deputada Alice Mahon declarou: “há informações de pessoas que estiveram em Faluja e viram muitos corpos queimados com as marcas do napalm… Nós somos parte da coalizão e igualmente responsáveis. Eu convoco Blair para fazer uma declaração de emergência aos Comuns e explicar porque isto está acontecendo. Uma questão aparece: sabíamos do uso desta arma escondida no Iraque?”.

Para esses deputados trabalhistas a questão é tão grave que a Inglaterra deveria ameaçar os americanos de retirar suas tropas do Iraque caso não parassem de usar napalm.

Dois dias depois, em 30 de novembro, surgiu mais um indício corroborando a denúncia. Um médico iraquiano, o doutor Ibrahim Al-Kubais, foi enviado pelo ministro da saúde do governo interino num comboio com médicos e medicamentos para socorrer os feridos de Faluja. Foram detidos pelo exército americano e avisados que só poderiam seguir depois de 8 a 9 dias.

Ele acusa: “há um terrível crime acontecendo em Faluja e eles (os americanos) não querem que ninguém saiba. Eu transferi quatro feridos de um hospital de campo jordaniano para um hospital em Bagdá. Eles me contaram que bombas químicas estão sendo usadas. Seus corpos não tinham marcas de balas mas manchas negras. As forças americanas permitem que se entre em al-Hadra-Muhamadya Artea, em Faluja, mas proíbem qualquer pessoa de entrar nas vizinhanças de al-Julan, al-Askari e al-Senai”.

Bush assumiu a missão de impor a democracia a todo o mundo, mas a cumpre de forma diferenciada. Ditaduras amigas, como as do Paquistão e da Arábia Saudita, são tratadas com benevolência. Já com o Iraque, as coisas são outras. O país não tem mais Saddam Hussein, mas continua tendo muito petróleo e rebelde belicoso, hostis à pax americana. No afã de neutralizá-los, o exército americano já matou cerca de 100 mil pessoas , a maioria civis, conforme pesquisa das universidades Columbia, John Hopkins (ambas dos Estados Unidos) e Al-Mustansirya (iraquiana).

Convenções internacionais não tem limitado estas ações. Vide Abu Ghraib e agora as bombas de napalm, ou melhor, “bombas de fogo”, como explica o Pentágono.

Tudo se justifica pelo objetivo de garantir um “regime democrático” para os iraquianos que conseguirem sobreviver.

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