Herói iraquiano balança no pedestal.

Em 2003, depois da derrota final das tropas de Saddam Hussein,  o presidente Bush declarou orgulhosamente: “A missão está cumprida.”

Não estava. A insurgência exp,lodiu em vários pontos do país, incluindo as duas facções rivais – os sunitas e os xiitas.

Deste logo, destacou-se  o clérigo islâmico Muqtada al-Sadr.

Durante o governo do ditador, al-Sadr construiu sua liderança, defendendo em especial os mais pobres. Perseguido no governo Saddam Hussein, ele havia se exilado no vizinho Irã.

Ele voltou logo após a queda do regime deposto, esperando colaborar na recuperação do país. Ao perceber que os americanos não pretendiam entregar o governo às forças locais,  uniu-se aos grupos que começaram a lutar pela liberdade do Iraque.

Organizou, então, um grupo militar, o chamado “exército Madhi”, que praticou uma série de ações violentas contra as forças de ocupação, lutando nas ruas, atacando comboios militares, explodindo minas de estrada, praticando guerra de guerrilhas.

Em 2004, Al Sadr tornou-se líder de todos os movimentos xiitas libertadores. O comando americano designou-o como terrorista. Procurado em todo o país pelas forças de ocupação, al Sadr expandiu sua liderança por todo o país, causando tantas perdas aos EUA que o então presidente Bush chegou a enviar 170 mil soldados para garantir o domínio do país.

Em 2008, tendo o governo de Washington assinado um acordo determinando a retirada gradual do país até 2011, quando então seria completada, al Sadr ordenou o desarmamento da maioria de suas forças. Manteve, porém, alguns grupos  para vigiar, de armas na mão, o cumprimento pelos americanos dos termos pactuados.

Com os invasores voltando para seus países, o governo passou a ser disputado por forças iraquianas. Fortalecido por sua imagem de líder rebelde, al Sadr exerceu forte influencia na política local, controlando um bloco de parlamentares..

Em 2012, o clérigo xiíta, que sempre defendera a violência contra os adversários, lançou-se numa pregação de moderação e tolerância. Que culminou em 2014, quando ele anunciou que se retirava da política para se dedicar somente á religião.

Não levou mais do que um ano para surpreender de novo .Em 2015, fundou o Partido da Integridade, baseado nos xiítas militantes do exército Mahdi, aliando-se ao Partido Comunista e a grupos sunitas, seculares e independentes.

A ideologia da nova formação era o nacionalismo, com rejeição da interferência dos EUA e do Irã na política iraquiana, afastando-se do sectarismo (como a diversidade dos integrantes da coalisão indicava). Na campanha eleitoral, sua plataforma  centrava-se no combate á corrupção através de uma reforma no estado que privilegiasse os interesses dos mais pobres e dos trabalhadores em geral,

O impacto da liderança de al Sadr ficou demonstrado, em 2016, por um comício  anti-corrupção,  por ele convocado, que atraiu um milhão de participantes.

Conforme se esperava, a coalisão de al Sadr foi a grande vencedora das eleições parlamentares em maio de 2018, elegendo 54 membros, deixando em segundo a coalisão as milícias xiitas, apoiadas pelo Irã, e em terceiro um partido liberal.

O Partido da Integridade tentou formar uma coalisão majoritária, mas não conseguiu. Optou-se pela nomeação de um primeiro-ministro interino obstáculos, com a missão de nomear jum gabinete de ministros que garantisse deputados suficientes para governar.

Em outubro de 2019,  explodiu uma grande manifestação de protesto, sem líderes, exigindo a solução de problemas que já estavam se tornando endêmicos: a elevada corrupção dos dirigentes políticos, mais preocupados em assegurar postos de mando e vantagens abusivas do que em enfrentar os problemas do desemprego e dos elevados níveis de pobreza.

Formado em maioria por estudantes, o movimento exigia um governo de personalidades apartidárias e a reforma da lei eleitoral para assegurar a participação de candidatos independentes.

A intervenção na política nacional dos EUA e do Irã, em especial, também era objeto dos protestos.

O governo reagiu com violência, usando os costumeiros balas de borracha e gases de efeito moral, e mesmo, em alguns casos, armas com  munição letal.

Apesar de suas ligações com um dos partidos do sistema, al Sadr apoiou os manifestantes, exigindo que as forças da ordem respeitassem os direitos humanos deles..

Nos meses seguintes, as mortes causadas pelas violências policiais aumentarem, os protestos continuaram diariamente expandindo-se em cidades de todo o país e atingindo novos patamares, como o fechamento das escolas e ocupação de espaços públicos, especialmente a praça Tahir, onde os manifestantes montaram um acampamento, de ocupado permanentemente.

Em 1 de dezembro, o primeiro-ministro Medi não resistiu á pressão ds ruas e pediu demissão.

O presidente do Iraque decidiu, aparentemente, também ceder nomeando como novo primeiro-ministro Mohamed Allawi, ex-ministro das Comunicações no primeiro governo  após a retirada americana.

Quando foi anunciado a sua próxima indicação, Allawi prometeu aderir às principais reivindicações dos manifestantes: escolha de ministros independentes- sem filiação partidária, combate á corrupção, marcação de novas eleições, reforma das regras eleitorais, extinção dos privilégios da classe política, etc

Repercutiu mais sua declaração depois de formalmente nomeado: “Eu prometo a vocês que o sangue dos manifestantes e das nossas forças de segurança não terá sido derramado em vão. Os agressores e criminosos serão responsabilizados e levados a julgamento (al Jazeera, 03-02-2020).”

Nessa ocasião (2 de fevereiro), já havia cerca de 600 mortos, a maioria manifestantes assassinado pelas forças de segurança.

Apesar dos bons propósitos de Allawi, as ruas o rejeitaram, por ser considerado um político “muito próximo da elite dominante”, oposto portanto ao ;objetivo de queda de todo o sistema política (uol, 03-02-2020).

Inesperadamente Moqtada al Sadr afirmou sue apoio ao novo primeiro-ministro interino.

O clérigo que, durante as lutas contra os invasores, atacou os EUA, mudou ligeiramente de rota na campanha eleitoral, quando, embora alvejando EUA e Irã, deu mais ênfase ás críticas ao governo de Teerã.

Ao manifestar-se em apoio aos protestos, voltou a colocar os americanos na sua lista negra, em desacordo com a posição dos manifestantes. Embora também contestassem a atuação dos EUA no Iraque, eles preferiam atacar as interferências do Irã, devido ao relacionamento intrusivo dos iranianos no jogo político local ao, aliar-se inclusive a um sistema que se objetivava destruir.

Que o anti-americanismo no país ainda é sólido ficou comprovado pela participação de uma multidão de 200 mil pessoas num comício com o objetivo de pedir a expulsão dos 5 mil soldados dos EUA ainda localizados em bases locais.

O apoio a um membro do establishment, cuja derrota era o leitmotiv da campanha, já abalou um tanto a fama de heroico defensor do povo iraquiano desfrutada por al Sadr.

Piorou muito quando ele enfatizou a necessidade das escola serem reabertas no sul e no centro do iraque e pediu a seus seguidores que trabalhassem ao lado ds forças de segurança para desocupar os locais dos protestos.

O resultado desse apelo foram choques violentos entre os manifestantes e os milicianos de al Sadr, particularmente na cidade de Najaf, onde seis pessoas foram mortas.

Vídeos que circularam pelas redes sociais mostraram cenas onde os seguidores do clérigo, os chamados blue caps (bonés azuis), atiravam com munição real em pacíficos grupos anti-governo numa tentativa de abrir estradas.

Fontes médicas informaram o MIddle East Eye queos hospitais de Najaf estavam cheios de corpos mortos de pessoas assassinadas pelos sadristas

O escândalo foi tão grande que o clérigo ordenou a desmobilização dos blue caps e a investigação de suas ações criminosas contra os manifestantes. Essa decisão foi publicada em tuite no qual AL Sadr lembrou que ele já havia anteriormente prevenido seus seguidores de que não usassem de força contra os grupos de protesto, que seu dever seria defender escolas mas não suprimir as críticas o;u ofender as pessoas.

Não adiantou muito. Foi interpretado como oportunismo.

O herói balançou no pedestal, perigosamente.

 Para alguns analistas,começou a cair. ”O sentimento de traição entre antigos aliados e amigos do sadrismo é palpável (Chatam House, 12-02-2020).

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