17 segundos que abalaram o Oriente Médio.

Depois do atentado de Paris parecia iminente um acordo de paz na Síria para permitir a formação da Grande Coalizão contra o selvagem Estado Islâmico Até a França e o Reino Unido aceitavam discutir a formação de um governo de transição de 18 meses com participação de Assad, desde que ele partisse ao se marcar eleições democráticas.

Obama ainda resistia, mas havia esperanças de que acabasse cedendo.

Elas sofreram um duro golpe quando um avião turco derrubou um bombardeiro russo na fronteira turco-síria.

Erdogan, o presidente da Turquia, justificou-se, alegando que o avião russo estava violando o espaço aéreo turco.

Tudo teria se passado em apenas 17 segundos.

Rapidamente esta versão foi espalhada pelo mundo pela grande mídia, apesar dos russos a contestarem.

Talvez eles tenham razão. Em 25 de novembro, a agência Reuters divulgou: ”Os EUA acreditam que o jato russo abatido pela Turquia na terça-feira foi atingido no espaço aéreo sírio depois de uma breve entrada no espaço aéreo turco  conforme oficial dos EUA informou à Reuters, em condições de anonimato.”

Mesmo que a versão turca seja correta, o ataque não deixa de ser estranha. É o que pensa o  tenente-general Tom McInerney, ex-chefe do estado maior da força aérea americana. Entrevistado na Fox News, ele condenou a ação como excessivamente agressiva, acrescentando que não estaria de acordo com as regras de guerra da defesa aérea americana.

Além de falar na defesa legal do seu território, Erdogan acrescentou que precisava proteger os turcomanos, cujas aldeias estavam sendo bombardeadas pelos russos.

Não poderia abandoná-los já que os turcomanos,  seriam “irmãos e irmãs dos turcos”.

Mais certo seria dizer “Primos e primas”, talvez, e com laços tão remotos que se perdem na história.

No século 10, durante a expansão do império turco seldjúcida, populações dessa raça instalaram-se em diversas regiões da Ásia, inclusive na Síria.

Hoje são 200 mil (1% da população síria), muitos deles arabizados.

Há muito mais turcomanos num país próximo, onde sua etnia é dominante, o Turcomenistão, que teria, portanto, muito mais motivos do que a Turquia para assumir o papel de paladino da raça.

Acontece que os turcomanos sírios apóiam os rebeldes. Suas milícias combatem Assad justamente numa região próxima à fronteira turca, lado a lado com grupos moderados e jihadistas , inclusive os terroristas do Nussra (filial da al Qaeda), movimento que recebe considerável ajuda militar da Turquia, grande inimiga do presidente Assad.

Estas forças estavam em plena ofensiva contra as tropas de Assad, quando a aviação russa, atendendo a pedido legal do governo, veio em seu socorro. Com o apoio aéreo dos aviões de Moscou,o jogo está revertendo, as tropas de Assad passaram da defensiva à ofensiva.

Os bombardeios russos atacam todos os grupos anti-Assad, inclusive os turcomanos, mas para Erdogan o pior não é isso.

Graças aos russos, o grupo de Assad ficou com cartas melhores na mão.

Além disso, o Ocidente, premido também pela onda de refugiados sírios que invadem a Europa, deu sinais de aceitar a negociar a paz sem a queda prévia do presidente sírio.

O atentado de Paris criou um clima emocional muito favorável à criação da Grande Coalizão de nações civilizadas contra o Estado Islâmico.

A qual vinculava-se estreitamente à na Síria.

Nada disso agradou a Erodogan.

Por que, na verdade, seus principais objetivos no Oriente Médio, são destruir o regime Assad e os curdos, com quem a Turquia também está em guerra.

Ora a idéia de Grande Coalizão é incompatível com a existência de  tantos conflitos no seu interior: turcos x curdos, rebeldes sírios x Assad, russos x rebeldes sírios, Ocidente, Turquia e Arábia Saudita x Assad, em assim por diante.

O governo de Ancara teria de renunciar a seus dois grandes objetivos em favor da destruição do Estado Islâmico. Projeto muito secundário para ele, ao qual só aderiu recentemente  depois que os bárbaros promoveram um atentado numa região turca.

Antes disso, recusava-se a permitir que os EUA usassem uma base aérea ideal para o bombardeio do Estado Islâmico.

Pior: deixava sua fronteira com a Síria aberta para a entrada de radicais jihadistas da Europa nas áreas sob controle do Estado Islâmico e sua volta para praticarem atentados na Europa.

E ainda permitia a passagem de frotas de caminhões do ISIS, trazendo petróleo para vender no mercado-negro turco. Aliás, na recente reunião do G-20, em Antalya, na Turquia, Putin apresentou imagens de satélites e de vigilância aérea mostrando uma fila de quilômetros de caminhões-tanques saindo do território controlado pelo ISIS e entrando na Turquia.

Não sei como o representante turco no G-20 explicou esta bizarra operação, que mostra um dos principais meios pelos quais os fanáticos conseguem recursos para suas operações.

Embora aderindo formalmente à guerra contra o Estado Islâmico, os turcos preocupam-se em bombardear muito mais as posições curdas na Síria e no Iraque, embora os curdos sejam hoje os mais eficientes combatentes na luta anti-ISIS.

Preocuparam-se agora com os desdobramentos das ações do presidente Hollande diante do atentado de Paris.

Ao invés de solicitar maior assistência militar aos países da OTAN, Hollande preferiu apelar para a formação da Grande Coalizão, incluindo a Rússia, que jamais desertaria de Assad.

Planejada ou não, a derrubada do avião russo trouxe conseqüências muito graves.

Obama aprovou o ato bélico: “a Turquia, como qualquer nação, tem o direito de defender seu território e seu espaço aéreo.”

Ele deve achar que a Síria não tem esse direito pois aviões dos EUA violam freqüentemente o espaço aéreo sírio para bombardear territórios do Estado Islâmico.

Donde se conclui que, para Obama, a Justiça não é cega mas tem os olhos sempre abertos para zelar por seus interesses.

A Casa Branca também quer acabar com o Estado Islâmico, mas tem em Moscou um rival que precisa ser contido por contestar sua liderança.

Por isso, os americanos aprovam a Grande Coalizão mas sem a Rússia e seu aliado Assad.

Contam com a entrada dos bombardeiros ingleses na guerra e que as aviações saudita, dos países do Golfo e da Turquia aumentem sua participação no ataque.

Esperam com o tempo aproximar Erdogan dos curdos, cortar de vez o comércio dos fanáticos, a entrada de suprimento, de dinheiro e de novos recrutas.

Em suma uma tática usada na Idade Média para se tomar um castelo bem defendido: fazer um cerco total até vencer o inimigo pela fome e falta de armamentos.

Claro, o plano americano demora, seus generais falam em muitos anos.

Com a Grande Coalizão, integrando todo mundo, as coisas iriam mais rápido.

A proximidade da Rússia implicaria num número maior de ataques e, possivelmente, como Putin já afirmou em off, um ataque terrestre decIsivo, com seus 150 mil soldados prontos para atacar.

Além disso, aconteceria uma aproximação natural entre os russos e os europeus, aliados nessa guerra.

É aí que Obama fica grilado. Ele teme que essa aproximação poderia resultar no alivio das sanções anti-russas pela crise da Ucrânia.

O que seria visto como uma derrota dos EUA. Com possíveis repercussões negativas nas urnas das eleições presidenciais do ano que vem.

E assim Obama esperou ansioso pela chegada de Hollande que vinha a Washington bater bumbo pela Grande Coalizão.

Pronto para pressionar o francês com tudo.

Como Hollande não é De Gaulle, tudo acabou com um happy-end ao gosto da Casa Branca. Numa declaração dos dois presidentes afirmando a necessidade de mais bombardeios e desprezando a necessidade de tropas terrestres.

E ainda Hollande disse “nada de Assad”, o que significaria nada de Rússia e, portanto, nada de “Grande Coalizão”.

Numa conferência posterior de imprensa , Hollande deu uma declaração contraditória, que alimentou esperanças: “Aqueles que estão nos ameaçando, estão ameaçando a Rússia.”

Em seguida, partiu para Moscou, onde encontrou um Putin, ardendo de raiva devido ao abate do seu avião, com aprovação de Obama. O pouco de confiança que ele tinha no Ocidente estava se esvaindo.

Saijan Gonel, diretor de segurança da fundação Ásia-Pacìfico, afirmou que a derrubada do avião russo iria dificultar os esforços para formar uma frente unida contra os terroristas do ISIS.

De fato, o porta-voz de Putin, Dimitri Peskow, disse que os russos não acreditam que a coalizão liderada pelos EUA está pronta para formar uma frente anti-ISIS unificada.

Comentando o ataque ao avião russo, disse Gohel; “Foi a última coisa que seria preciso agora, especialmente após os atentados em Paris, quando havia esperanças de que a Rússia poderia formar uma aliança com a França e os EUA contra o ISIS.”

Nem tudo está perdido.

No seu encontro com Hollande, Putin prometeu dar a maior colaboração às forças francesas na guerra contra o Estado Islâmico.

Investindo nesse “novo amigo”, o premier russo pediu um mapa localizando os rebeldes moderados na Síria para que seus aviões não os bombardeassem.

Com isso ele tenta por Hollande do seu lado. E, ao mesmo tempo, tira as críticas das bocas de turcos e americanos aos bombardeios russos na Síria.

Sinal que Putin não desistiu.

Ainda que muito ferida, a idéia da Grande Coalizão não morreu.

 

 

 

 

 

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