Licença para matar prisioneiros.

Matar prisioneiros de guerra é expressamente proibido pelas regras básicas da “Lei Humanitária Internacional das Regras de Combate das forças armadas dos EUA (rules of engagement)  e pela 3ª Convenção de Genebra.

No dia 15 de novembro, Donald Trump rasgou estas duas leis humanitárias com a sem cerimônia de quem já se acostumou a fazer esse tipo de coisas.

Ele perdoou três militares dos EUA envolvidos em processos na justiça militar pelo assassinato de prisioneiros de guerra indefesos e de civis iraquianos inocentes.

Justificou-se, informando que agira assim para dar aos soldados americanos “confiança para lutar.”

O próprio presidente, por telefone, deu a grata nova a cada um dos beneficiados, como se estivesse reparando uma gravíssima injustiça que estava sendo perpetrada contra esses autênticos heróis da pátria.

O oficial mais graduado entre os três, o major Mathew Golsteym, estava sendo julgado pela morte de Rasoul, prisioneiro afegão, acusado de ser talibã por um patriarca tribal.

Tendo passado o prazo da prisão, sem que fosse encontrado indícios  válidos para manter Rasoul sob custódia, as autoridades ordenaram sua libertação.

Golsteyn obedeceu, deixou o prisioneiro sair mas, discordando de seus chefes, agiu como um dos famigerados “vigilantes” do Velho Oeste: armou uma emboscada fora da base, na qual tratou de executar o suposto talibã.

Crime de guerra, portanto.

Devidamente processado na justiça militar, o major confessou sua ação criminosa. No entanto, defendeu-se, alegando que agira de forma legal pois  o suspeito estaria “tentando retornar aos talibãs.” Não pegou.


Por sua vez, o tenente Clint Lorane,  já condenado anteriormente pela prática de assassinatos injustificados na Guerra do Iraque, mandara sua tropa abrir fogo contra dois incautos civis que passavam de motocicleta.

Durante o julgamento, houve a apresentação de abundantes provas, inclusive o documentário Leavenworth, que mostrava os soldados do pelotão de Lorane discutindo os detalhes da ação criminosa praticada pelo seu superior.

Mais um crime de guerra para não deixar ninguém na dúvida.

No terceiro caso, um sargento-chefe do SEAL (tropas de operações especiais), Edward Gallagher, tinha encarado um julgamento sob múltiplas acusações de assassinatos, inclusive de um adolescente prisioneiro , membro do ISIS. O sargento era ainda acusado de ter feito ser fotografado posando ao lado do cadáver de um miliciano.

Também no caso Gallagher não faltaram provas: 14 testemunhos, inclusive soldados que serviram sob as ordens dele que contaram ter visto seu chefe matar a facadas o prisioneiro do ISIS, que, aliás, se encontrava ferido.

Craig Miller, comandante de operações especiais do SEAL, deu um testemunho bastante detalhado: Gallagher teria esfaqueado o prisioneiro “no lado direito do seu pescoço, visando a veia jugular” da vítima.

Foi justamente após a morte do miliciano adolescente que o sargento-chefe quis gravar o momento para a posteridade, mandando que o fotografassem ao lado do cadáver.

Em seguida, Gallagher enviou a foto a um amigo, com uma mensagem de texto: “Boa história está por trás, eu o acertei com minha faca de caça”.

Outras malfeitorias foram atribuídas a Gallagher, diversos dos seus colegas testemunharam que o viram atirar, aleatoriamente, contra um grupo de afegãos não combatentes, atingindo inclusive um velho e uma mocinha.

No julgamento, o sargento-chefe escapou das piores acusações mas a foto revelou-se fatídica. Declarado culpado de infração a regulamentos militares, foi condenado a quatro meses de prisão, rebaixamento de posto e perda de condecoração.

Talvez empolgado com as proezas de Gallagher, The Donald o distinguiu de forma especial: além de perdoá-lo mandou que fosse reconduzido a seu cargo de sargento chefe no SEAL, devolvida sua condecoração e reestabelecidas as vantagens de sua pensão (que haviam sido retiradas em função da condenação).

Confesso que não entendo como os doutos juízes militares encontraram  razões para absolver Gallagher, com tantas testemunhas contrárias.

A imprensa americana informou que importantes chefes militares do Pentágono tentaram demover Trump de sua sanha libertária. Eles mostraram sérias preocupações de que a decisão presidencial iria solapar o sistema de justiça militar. A disciplina seria prejudicada. Soldados poderiam violar as leis de guerra, sentindo que perdões presidenciais garantiriam sua impunidade.

O democrata, Jack Reed, por sinal ex-veterano de guerra, membro do Comitê de Serviços do Senado, também protestou. Para ele, a generosidade presidencial enviava uma mensagem danosa não apenas aos soldados envolvidos nos processo em causa, mas igualmente ao resto das forças armadas (Military Times, 24-11-2019).

Felizmente nem todos os membros do governo são trumpetes. O próprio secretário da Marinha, Richard Spencer (favor não confundir com o racista do mesmo nome), a quem cabia providenciar as providências resultantes do perdão do presidente,  demitiu-se, publicando carta que dizia; “Em boa consciência, eu não posso obedecer ordens que eu acredito violam o juramento sagrado que eu fiz diante da minha família, minha bandeia e minha fé”. Informou ainda que The Donald e ele discordavam quanto a “princípios chave de boa ordem e disciplina.”

Na verdade, não é a primeira vez que o atual morador da Casa Branca livrou da cadeia soldados americanos implicados em crimes de guerra.

Em maio de 2008, o tenente Michael Behema matou um prisioneiro suspeito de pertencer à Al Qaeda. O processo terminou no governo do sucessor de Obama. A sentença aplicada pelo tribunal foi de condenação a 25 anos de cadeia por ter despido o suspeito, interrogado-o sem autorização e, finalmente, atirado duas vezes nele, até que morresse.

Por estas violentas ações,  The Donald o premiou com um sonoro perdão (The Washington Post,16-11-2019).

Na ocasião, deu uma bizarra explicação aos que protestavam contra seu surto de humanitarismo.

“Nós treinamos nossos garotos para serem máquinas de morte, depois os processamos quando eles matam…”

Concluo que, como não convém a um país belicoso acabar com um tipo de treinamento tão eficaz, o jeito é soltar todos os soldados que matarem prisioneiros, suspeitos, civis inocentes, mulheres, crianças etc

E que Deus salve a América.

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