Derrota do Labour: uma realidade menor venceu um grande sonho.

Em 2015, os ingleses votaram favoravelmente à saída da União Europeia.

Por ser contrário a esta posição, o primeiro ministro conservador, David Cameron, renunciou.

Sua substituta, Teresa May, recebeu a missão de negociar os termos da separação, o chamado Brexit.

Fez várias tentativas, mas a oposição, aliada a diversos conservadores, rejeitou todas. A solução que Teresa May encontrou foi marcar novas eleições, em maio de 2017, esperando que o povo elegesse uma maioria que ficasse a seu lado.

Falhou outra vez. A oposição trabalhista cresceu ainda mais. E a bancada dos conservadores fieis murchou, embora continuando a  ser a maior no Parlamento.

Teresa seguiu tentando aprovar novas propostas para o Brexit, em negociações com os deputados ingleses e a União Europeia. Não conseguiu nada.

Em maio de 2019, a primeira ministra optou por renunciar.

Sem maioria no parlamento, Boris Johnson, o novo primeiro ministro não tinha como aprovar o Brexit. Resolveu marcar mais uma eleição, esperando conquistar a maioria dos assentos para membros do seu Partido Conservador.

 As perspectivas eram boas para ele. O  Partido Trabalhista Inglês parecia sem chance. Tendo perdido para os conservadores em maio de 2017, por muito pouco, nos meses seguintes assumiu a liderança nas pesquisas.

Mas não manteve essa posição privilegiada.
Dividido entre apoiar a saída da União Europeia ou defender um novo referendo, no qual a opinião pública poderia mudar em favor do remain (permanência), o partido relutou em se pronunciar.

Esta postura ambígua desagradou à população, irritada com quatro anos de debates estéreis sobre o Brexit, que tinham cobrado seu preço em sensíveis prejuízos à economia nacional.

A situação tinha se invertido: os conservadores assumiram a liderança das pesquisas e aumentaram rapidamente a diferença a seu favor.

O Labour aproximou-se do dia da eleição 10 a 12 pontos atrás do seu rival.

Os dirigentes do partido estavam conscientes de que tinham pouco mais de um mês para reverter o domínio dos Conservadores, cujo slogan, “Vamos fazer o Brexit logo”, era um apelo que atendia aos desejos da população.

O partido liderado por Jeremy Corbyn esperava que as novas soluções do seu programa recuperariam os votos que estavam fugindo. Afinal, elas representavam uma mudança total, trariam a cada um benefícios muitas vezes superiores à simples e rápida saída do impasse do Brexit.

Mas não conseguiram.

Enquanto os conservadores conquistaram a maioria do Senado, com 365 deputados eleitos e 47 assentos a mais, os trabalhistas perderam 59 assentos, elegendo apenas 203 partidários. A grande imprensa não esperou pelos resultados oficiais e informou errado que a perda fora de 60 assentos. Errou ainda ao afirmar que nesta eleição o Labour amargara o pior resultado desde 1935, já que no pleito de 2010, sob a liderança de Tony Blair e Gordon Brown, as perdas trabalhistas chegaram a 97 assentos (BBC, 13-12-2019).

O Brexit ainda divide a população. Atualmente, no entanto, muitos ingleses que votaram a favor da permanência na União Europeia preferem resolver logo esse problema cansativo, inclusive porque desistiram de ver um novo referendo aprovado depois quatro anos de negociações inconclusas.

Talvez por isso, o único partido declaradamente adversário da retirada, o Partido Liberal, elegeu apenas 11 parlamentares.

O programa do Labour, o chamado manifesto, propunha um prazo de três meses para oferece uma nova proposta à União Europeia. Se aceita, haveria mais seis meses para ser submetida a um referendo. Em caso de rejeição, o Reino Unido permaneceria na União Europeia.

Não era uma tese popular pois metade da população inglesa ansiava por tirar da frente esse problema o mais breve possível (pesquisa Ipsos Mori, 20-09-2019).

Foi nos Midlands, País de Gales e Norte, tradicionais redutos trabalhistas, favoráveis ao Brexit no referendo, que o Labour perdeu a maioria dos seus assentos no parlamento.

Nessas regiões, que concentram boa parte da população operária inglesa, tinha havido muito desemprego, fecharam-se indústrias carboníferas e de outros setores. E os operários temiam a entrada de massas de imigrantes que iriam tomar seu trabalho. Tudo isso se atribuía à participação do Reino Unido na União Europeia.

Todas as esperanças dos trabalhistas estavam depositadas no seu programa de governo, o manifesto, ao qual os mais capacitados membros dedicaram muitos meses na elaboração.

Diz editorial do Guardian (24-11-2019): “Não há dúvidas de que o manifesto do Labour, se realizado, mudaria a rota da Grã-Bretanha para torna-la um lugar melhor e mais justo para se viver”.

Provavelmente a maioria dos operários dos Midlands, Norte e País de Galesas, onde os conservadores tiveram ganhos não previstos, teriam continuado a votar no Labour se acreditassem que suas promessas de governo fossem realmente factíveis.

O manifesto, tido como ideal até por críticos, pareceu aos trabalhadores algo como um ilusório presente de Papai Noel, confrontado com a concreta promessa de Boris Johnson: ”vamos logo resolver o Brexit.”

Coisas como educação da pré-escola à universidade para todos, eliminação rápida do déficit habitacional, redução ds desigualdades, participação dos funcionários nas ações e lucros das empresas e novos impostos para os ricos pagarem os gigantescos programas sociais pareciam muito bons para ser verdade.

E as pessoas trocaram um sonho maior e talvez impossível por uma realidade menor, porém possível.

Não acho que a socialização de serviços públicos propostas pelo partido de Jeremy Corbyn tivesse muito a ver com sua derrota.

Pesquisa do You Gov, realizada em maio de 2017, provou que a maioria dos ingleses preferia uma administração estatal à atual administração privada, conforme os números a seguir: Serviços de Água: 58% versus 25%; Energia Elétrica: 52% versus 25%; Correio 65% versus 21%; Educação 81% versus 6%; Transporte Urbano 50% versus 35%.

Portanto, as áreas a serem socializadas pelo Labour teriam sido escolhidas – não por princípios ideológicos – mas pela vontade popular, que desejava melhoria em serviços essenciais, deficientemente prestados por empresas privadas.

Não concordo com os que consideram a má imagem de Jeremy Cronyn responsável pela derrota do seu partido.

Boris Johnson, o líder conservador era igualmente mal avaliado nas pesquisas.

Não nego que talvez a performance trabalhista não seria tão baixa se o seu líder fosse bem visto pela população.

O desprestígio de Corbyn deveu-se à maciça e inteligente campanha de descrédito.

A hipótese de um muito possível governo trabalhista não era propriamente do agrado das grandes corporações. Muito pelo contrário: a habitual fleuma britânica foi substituída por feroz reação. Não dava mesmo para seus respeitáveis líderes aceitarem coisas negregandas como socializações, impostos pesados, redução forçada das desigualdades, regulamentos de toda ordem em favor dos operários.

A grande mídia, sempre solidária com seus fraternais anunciantes, lançou-se em massa na tarefa de destruir a imagem de Corbyn e dos trabalhistas, com repetidas acusações e notícias com viés crítico, sem um compromisso exato com a verdade.

O principal tema abordado por esse pessoal foi o presumido antisemitismo de Corbyn e seus seguidores.

Aconteceu uma aliança virtual com os lobbies pró-Israel, que também tinham razões de sobra para demonizar o líder do Labour. Em sua longa carreira política, Corbyn sempre defendeu a independência da Palestina e os direitos humanos do seu povo, com absoluta firmeza.

Agindo assim era inevitável criticar as violências do governo de Israel e suas frequentes violações do direito internacional e das decisões da ONU.

Na hipótese da vitória eleitoral do Labour e elevação de Corbyn a primeiro ministro, o Reino Unido, até então pendendo para o governo de Telaviv, tendia a mudar de lado. E os palestinos ganhariam um aliado de muito peso, deixando Trump enaltecendo praticamente sozinho o governo do amigo Bibi Netanyahu.

Determinados a sujar a imagem de Corbyn, os lobbies pró-Israel lançaram mão do antisemitismo, amparados pelas notórias posições do líder do Labour, que provocavam urticária em Telaviv.

Os principais líderes da comunidade judaico-inglesa tomaram para si a responsabilidade pela moderna guerra santa.

Foi fácil empolgar a maioria da colônia. Os judeus sofreram cruéis perseguições desde a Idade Média, culminando na barbárie do nazismo. É natural que sejam extremamente sensíveis a tudo que possa cheirar a antisemistimo, mesmo levemente.

Estimulados pelos cidadãos mais influentes, a maioria deles aderiu à campanha de denúncia do antisemitismo de Corbyn, supostamente  espalhado pelo partido.

Grandes e pequenas demonstrações de judeus ingleses repetiram-se desde 2015 (nomeação de Corbyn a líder do Labour) até as eleições gerais de 2019.

A grande imprensa atuou de forma decisiva,  focando situações de forma enviesada, levantando tempestades, não apenas em copos d´água, até mesmo em cálices.

 Apenas o jornal Mirror ficou fora, atrevendo-se a defender votos em Corbyn na última eleição. O Guardian manteve sua posição independente, criticando os excessos da cruzada, embora publicando durante estes quatro anos um número bem maior de matérias contrárias ao líder trabalhista, do que a seu favor.

Os blairites (membros do partido favoráveis a Tony Blair) entraram na campanha, engrossando as críticas a Corbyn, dentro do partido.

No período eleitoral, essa onda ficou ainda mais bravia, chegando o próprio rabino-mor da Inglaterra a pedir votos a seu rebanho contra o lobo vestido de cordeiro.

As várias manifestações de intelectuais, escritores e jornalistas judeus, criticando a autêntica caça ao bruxo trabalhista e defendendo seu anti-racismo, não refletiram o pensamento da comunidade, por eles serem relativamente poucos.

Tudo indica que essa onda não foi um tsunami, mas não deixou de molhar as expectativas de vitória do Labour em algumas zonas eleitorais.

Como era esperado, Corbyn, líder na derrota, renunciou a seu cargo.

Os blairites voam como urubus em redor de um cadáver. Só que o Labour socialista ainda está vivo. Provavelmente, a esquerda elegerá seu novo líder.

O sonho de uma mudança perfeita, expresso no manifesto, perdeu para as modestas perspectivas populares de fim do Brexit.

O povo poderia estar errado, mas era o que ele queria.

Nas próximas eleições, o Labour deveria estar atento a expectativas dessa origem.

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