Trump troca as leis internacionais pela lei da selva.

Em 1815, na batalha de Waterloo, oficiais ingleses perceberam que o imperador Napoleão

entrara no raio de ação dos seus canhões. Mas seu comandante, o duque de Wellington,

não permitiu que atirassem naquele que era o maior inimigo da Inglaterra.

Considerou que seria desonroso para seu país.

Já não se fazem ingleses como antigamente, durante a 2ª Guerra Mundial, as

manobras do general Rommel no deserto do Sahara estavam fazendo os britânicos

perderem a fleugma. Surgiu uma oportunidade, e comandantes do exército de Sua

Majestade não vacilaram em mandar assassinar a chamada “raposa do deserto.”

Não conseguiram.

Como também fracassaram 8 tentativas  da CIA para liquidar Fidel Castro, entre 1960 e 1965, conforme revelou o Comitê Franck Church do Senado americano, em 1975.

Os EUA tem algumas experiências bem sucedidas neste tipo de ação política: os

assassinatos do almirante Yamamoto, na guerra contra o Japão, dos terroristas bin Laden e al Bagdadhi e, neste mês, do general iraniano Qassem Suleimani.

Nos três primeiros casos, até que havia motivos aceitáveis.

Os chefes da al Qaeda e do Estado Islâmico tinham um passado sombrio, manchado

por inúmeros atentados, que mataram pessoas de vários países.

Seria irrelevante o fato deles terem sido executados por militares americanos

em nações estrangeiras. Afinal, supõe-se que terroristas, mesmo curtindo seu árak

ou caçando dromedários no deserto, não param de planejar ataques à bomba.

Há quem discuta o assassinato do almirante Yamamono, cujo avião foi derrubado por

caças americanos na chamada “Operação Vingança.”

Certo que ele era um almirante de verdade, viajando em missão oficial do governo do seu país, o Japão.

Por outro lado, Yamamoto fora o planejador do ataque traiçoeiro a Pearl Harbour, que

resultou na morte de muitos americanos, sendo por esta proeza considerado o inimigo

público no. 1 dos EUA, honraria partilhada por personalidades como Al Capone e Dillinger, o maior assaltante de bancos da história.

Mas, Suleimani não era terrorista, liderou milícias que mataram

soldados de Tio Sam, mas fôra numa guerra justa, pela libertação de um país.

Tratava-se de um oficial general, que comandava uma unidade, o Quds Forces, integrante das forças armadas iranianas, reverenciado como a segunda figura de maior prestígio do país.

Seu assassinato foi praticado de forma clandestina, sem autorização, nem mesmo

conhecimento, do governo do Iraque, onde ele estava de passagem.

Trump alega que o general vinha ultimando os detalhes de um plano de explosão da

embaixada americana em Bagdá.

Não ofereceu qualquer prova, nem um mísero indício, só a sua palavra, a qual não é

exatamente das mais confiáveis.

Gentilmente, The Donald se dispôs a argumentar: tendo sido responsável pela morte de 700 soldados americanos nas mãos de milícias xiitas comandadas por ele, o general merecia ser executado por um ou mais mísseis, como terrorista que era.

Sucede que, esses atos, em si reprováveis, foram cometidos durante a guerra da

libertação do Iraque, invadido e ocupado pelas forças americanas a mando do ex-

presidente Bush, em 2003.

Lembro que o governo inglês, por sua vez, também considerou criminosas as

mortes de seus soldados praticadas pelos revolucionários americanos na Guerra de

Independência.

Com o ilegal assassinato de Suleimani, o governo Trump proclamou urbi et orbi o primado da lei da selva sobre esse amontoado de montes de leis internacionais elaboradas por multilateralistas na aprazível cidade de Genebra.

Nos tempos modernos, um país civilizado jamais incorreu numa ação, digamos, tão

vergonhosa quanto o assassinato praticada pelos EUA de um general de outro

país, em pleno território de um terceiro.

Mas o governo Trump não ficou por ali na perpetuação de novidades que horrorizam

pessoas ainda crentes em princípios.

Ofendido por ver a soberania do Iraque tão mal tratada, o presidente Mahdi declarou

que pediria a Trump a retirada de suas tropas instaladas no país.

Afinal, tinha direito, era o dono da casa.

Enganou-se.

The Donald mostrou que o dono da casa era ele, por isso mesmo suas tropas

ficavam. A menos que os iraquianos pingassem bilhões de dólares nas ávidas mãos de Tio Sam para o indenizar pelos gastos na construção de bases militares,.

Para enfatizar seu diktat, ameaçou lançar sanções tão terríveis que deixariam suaves as devastadoras medidas aplicadas no Irã, caso a discórdia  não se resolvesse  numa boa.

Mais recentemente, já calmo, depois de saber que a retaliação iraquiana  poupara

our boys, o morador da Casa Branca foi tranquilo. Um dia suas tropas sairiam do Iraque, mas não agora, somente quando bem entendesse.

Só faltou acrescentar que sua decisão era plenamente legal, firmemente lastreada na

lei da selva. Também chamada a lei do mais forte, este diploma jurídico preceitua que

Os EUA tem direito de impor sua vontade aos demais países graças a seu poder econômico e militar, absolutamente superior.

Por isso mesmo, o fiel secretário de Estado, Mike Pompeo, lembrou ao Iraque que seria muito perigoso insistir na retirada americana.

 Não se brinca com o leão… ooopss… com o país da liberdade.

Intimidado, o presidente iraquiano já começou a recuar. Só as tropas combatentes

eram convidadas a voltarem para seus lares. Os americanos assessores e treinadores de soldados iraquianos podem ficar, sim.

Neste episódio, não foi só o Iraque que saiu machucado.

Os sábios estadistas europeus saíram  muito mal na fotografia.

Empurraram para debaixo do tapete as duas graves violações da soberania do Iraque,

somaram com a Casa Branca nas falsas acusações de terrorismo aplicadas no general

Suleimani e limitaram-se a apelar para a des-escalada de EUA e Irã. Especificamente,

o Irã, em prol da paz, teria de se conformar em cancelar as retaliações prometidas diante  da brutal agressão que sofreu.

Ficou transparente que o medo já penetrou na culta e liberal Europa.

Às vezes seus líderes posam de independentes.

O audaz Macron até critica a OTAN, a sólida Merkel até protesta contra rugidos

do espontâneo Trump.

Mas nos momentos mais agudos, todos eles ficam ao lado do presidente americano.

 E não abrem, por piores malazartes que The Donald tenha praticado.

Tudo para evitar que um dia possam ser colocados na desconfortável posição de réus pela lei das selvas.

Réu por infração de algumas leis (opostas à lei das selvas), o estadista Benjamin

Netanyahu contribuiu, malgré lui, com as ideias deste texto, em conversa com gente do

Likud:

 “Outras nações respeitam princípios até certo ponto,

 mas elas respeitam muito mais o poder.”

1 pensou em “Trump troca as leis internacionais pela lei da selva.

  1. Maravilha, grande Luís Eça. Pena que a nossa “grande imprensa” passe longe da acuidade de olharomundo, depois diz que Bolsonaro é desavisado pelo alinhamento automático.

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