Trump: L´etat c´est moi.

Gostaria de fazer algumas reflexões sobre o desejo de Trump comprar a Groelândia, contrariado pela objeção da ministra dinamarquesa, o que causou o cancelamento da visita oficial e bizarros comentários do morador da Casa Branca.

Sabe-se que, com a visita, inicialmente  marcada em cima da hora, o reino dinamarquês tomou-se por preocupações, a rainha mandou fazer vestidos novos, os ministros, inundados por adrenalina, programaram com precisão escandinava cada evento e cada movimento da comitiva presidencial, para agradar o líder do Ocidente.

Mas, quando soube que o goveno americano queria comprar  parte do território pátrio, a primeiro ministra Mette Fredericksen reagiu espontaneamente, qualificando a proposta de “desagradável” e “inapropriada”, pois a Groelândia não estava à venda, como se fosse uma mercadoria.

Indignado The Donald taxou as palavras daquela senhora como um crime de lesa-pátria, explicando: “Ela não está falando comigo, está falando com os EUA. Você não fala com os EUA desse jeito.”

Repetiu assim a ideia, digamos ideológica, de Luiz 14, o mais absolutista dos reis, ao garantir que “O Estado sou eu” (L´etat c´est moi”).

A comparação entre os dois tem alguma razão de ser.

Trump vem agindo na linha do que fez o monarca francês: desrespeitando tratados internacionais, ameaçando nações,  lançando ataques contra algumas (vide dois bombardeios da  Síria), aplicando sanções…e nomeando parentes para altos cargos. Sua princesa herdeira manda e desmanda na Casa Branca e o príncipe consorte dela foi contemplado com a importantíssima função de conseguir a paz na Palestina (onde fracassou), para a qual não estava nem de longe habilitado.

Só não está certo pretender que ele, The Donald, com suas grosserias diplomáticas, amizade estreita com assassinos tipo o príncipe saudita, violações de soberanias alheia e do direito internacional, perseguições a imigrantes, inimigo da imprensa livre ,etc- seja os EUA.

Se aceitássemos esta inaudita encarnação, a América seria culpada de todas as malazartes, em cuja prática Donald Trump tem se revelado extremamente fértil.

Além da injusta identificação dele com o país de Jefferson, Abraham Lincoln e Benjamin Franklin, outros aspectos foram focados por um mundo de críticos.

 “Agora, nós nos tornamos imprevisíveis e não confiáveis” , sentenciou Evelyn Farkas, secretário-assistente de Defesa no governo Obama. ”E uma vez que você é imprevisível e não confiável, seus aliados buscam em outras partes a sua segurança e estabilidade e as suas parcerias e também ultimamente suas alianças.”

É erdade. E a Turquia é um bom exemplo. Ela acabou de comprar o sistema anti-míssil russo, desprezando o concorrente americano. E , vem firmando acordos com a Rússia e o Irã para resolver a questão síria.

Farkas também acusa o presidente de desrespeito um aliado fiel como a Dinamarca, que até forneceu soldados para a invasão do Iraque (foi dos raros aderentes a este vegonhoso ataque) a para a intervenção militar dos EUA no Afeganistão.

“Ele está insultando um aliado na OTAN, um aliado próximo que lutou para nos defender”, acrescentou Farkas, referindo-se à participação dinamarquesa no Afeganistão e no Iraque.    

Há quem tenha ficado chocado, pois fora um incidente diplomático a proposta de compra da Groelândia (talvez em suaves prestações e o posterior cancelamento da visita do republicano a Copenhague.

Choque injustificado, como  se já não existisse uma nutrida lista de incidentes desse tipo praticados por The Donald.

Luke Coffey, um especialista em política externa da Heritage Foundation, perguntou o que The Donald diria se a ministra dinamarquesa sugerisse a compra de Porto Rico ou da ilha de Guam.

A resposta é fácil, o presidente obedece ao pé da letra um princípio básico de sua filosofia de governo: “O que condenamos nos outros torna-se correto quando fazemos a mesma coisa.”

 Foi de acordo com este profundo conceito que os EUA de Donald Trump invadiram o Iraque e intervieram com armamentos e/ou soldados no Afeganistão, Iêmen e Síria. E, atualmente, acusam o Irã de desestabilizar o Oriente Médio, fornecendo armamentos e/ou soldados na Síria e no Iêmen, e de apoiar o movimento Hisbolá (movimento inteiramente legal no Líbano), nas suas ações na Síria e no Iraque (ambas em defesa dos governos legais).

As lições da sabedoria comportamental do esposo da maravilhosa Melanie foram administradas num evento público, onde ele aproveitou para falar sobre seu tema recorrente: a escassez de fundos enviados por países europeus para as forças da OTAN que os protegem.

Incluiu a Dinamarca nesse rol de mal agradecidos: “Para ser lembrado, a Dinamarca contribui apenas com 1,35% do seu PIB para as despesa da OTAN. Nós protegemos a Europa e, no entanto, apenas 8 dos 28 países da OTAN atingem os 2% devidos”.Os EUA mandam tropas, gastando muito dinheiro, somente para defender esses  ingratos europeus que sequer fazem sua parte, negando-se a comparecer com os recursos que lhes cabe.

Há aí uma pequena distorção.

Embora a OTAN seja uma barreira contra discutíveis ações expansionistas da Rússia na Europa, é também, útil aos EUA.

Afinal, ela é uma força avançada do complexo militar americano, que obrigaria eventuais invasores a batalhas épicas, lhes impondo baixas ponderáveis. Mesmo que os russos,  por exemplo, vencessem, teriam seu poder bélico muito reduzido, facilitando um contra-ataque das forças armadas dos EUA.

Além disso, como Washington sempre teve a voz mais forte na aliança com a Europa, conseguiu que a OTAN enviasse tropas para ajudar os americanos na guerra do Afeganistão.

Atualmente, Trump está mais interessado em reforçar as tropas da OTAN nas fronteiras com a Rússia. Inclusive porque será uma forma de aumentar as vendas das indústrias armamentistas dos EUA a seus aliados da OTAN.

Nenhum deles jamais sonhou em comprar equipamentos militares da Rússia. Afinal,  é o país de Putin a grande ameaça que justifica a própria existência da OTAN.

Por isso mesmo, quando os turcos resolveram adquirir o sistema anti-míssil S-400, desprezando o Patriot, americano, The Donald ergueu-se enfurecido. Através do seu secretário de Estado, o parça Mike Pompeo,  ameaçou várias vezes lançar sanções      devastadoras contra a audaciosa Turquia, caso persistisse na compra pecaminosa. Mesmo sendo membro da OTAN, os turcos mantiveram a decisão. Erdogan, seu presidente, rugiu em protesto, falando em “soberania”, “se sancionados, reagiremos” entre outros brados afins.  

Não querendo perder um forte aliado para a inimiga Rússia, Trump teve de engolir seu orgulho e fazer vistas grossas à teimosia de Erdogan.

No desaguisado com a Dinamarca, o presidente republicano também se deu mal. Não conseguiu levar a Groelândia pra casa.

Que esses casos lhe sirvam de lição.

Apesar dele pretender ser os EUA em carne e osso, a maior potência militar e econômica do mundo, seu poder não é ilimitado.

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