TRUMP-KIM: APESAR DA PAIXÃO, A DESNUCLEARIZAÇÃO EMPACA.

Falando sobre suas relações com Kim Jong Un, Trump foi efusivo: ”Nós nos apaixonamos. Ele me escreveu lindas cartas. Foram grandes cartas. E, então, nós nos apaixonamos.”

Não, os dois presidentes não saíram do armário – na verdade, não há nenhum indício de que eles já estiveram ali.

Seja como for, estas frases, digamos, afetuosas, passam a ideia de que Trump e Kim são bons, se não fraternais amigos.

Mas os fatos não combinam com a palavras.

Ainda no mês passado, The Trump afirmou de forma definitiva: “As sanções continuarão em execução, sem falhas, até que a desnuclearização aconteça.”

E seu secretário de Estado, Mike Pompeo, ecoou o chefe: ”A execução das sanções do Conselho de Segurança da ONU (por sinal, promovidas pelos EUA) precisam continuar vigorosamente, sem falhas, até nós verificarmos uma desnuclearização completa, final e fiscalizada.”

Portanto, até que a Coreia do Norte acabe totalmente com seu programa de armas nucleares, que siga sofrendo os duríssimos efeitos das sanções.

Isso não é modo de tratar alguém apaixonadamente amigo.

Kim Jong Un manifestou seu ressentimento, através do seu ministro do Exterior, Ri Yong Ro, que declarou na Assembleia Geral da ONU ter a Coreia do Norte efetuado “significativas medidas de boa vontade,” tais como suspender os testes de mísseis e de armas nucleares, desmantelar as instalações de testes nucleares, prometendo ainda não proliferar (vender a outros países) bombas nucleares e tecnologia nuclear“.

E lamentou: “No entanto, nós não vemos nenhuma correspondente resposta dos EUA.”

Ri concluiu de modo preocupante: “Sem qualquer confiança nos EUA, não há confiança na nossa segurança nacional e sob tais circunstâncias, de modo algum nós nos desarmaremos unilateralmente, primeiro.”

O que os norte-coreanos esperam é que, em retribuição ao que já fizeram no caminho da desnuclearização, os EUA comecem a reduzir as sanções que pesam sobre Pyongyang.

John Bolton, assessor de Segurança Nacional e falcão de estimação do presidente, não concorda com nada disso: “É somente a Coreia do Norte que não tomou os passos que nós achamos necessários para a desnuclearização.”

Em suma, tudo o que os norte-coreanos alardeiam terem feito, não significam nada, para os EUA.

Vale o que Mike Pompeo reiterou ao voltar da sua primeira reunião com os ministro do ditador norte-coreano: as sanções não serão retiradas até que aconteça “ …a desnuclearização total, a completa desnuclearização.”

Na verdade, os americanos não se contentaram em apenas manter as sanções, tentaram mesmo aumentar seu número.

Em julho, o governo de Washington pressionou o Conselho Segurança da ONU pela proibição da exportação de petróleo refinado para a Coreia do Norte. Em agosto, propôs fossem colocados na lista negra do conselho dois bancos russos que atuam em Pyongyang, além de duas outras entidades.

A Rússia e a China conseguiram bloquear essas novas penalizações.

A esse respeito, disse Sergei Lavrov, ministro do exterior russo: “Adições posteriores às sanções nada tem a ver com cortes de financiamentos de mísseis proibidos e programas nucleares, sendo, na verdade, ameaças aos cidadãos da Coreia do Norte e lhes trariam extremos sofrimentos socioeconômicos e humanitários (Reuters, 24 de agosto).

O que ele não disse é que as sanções atuais já estão sendo de amargar para o povo norte coreano.

Cortando operações bancárias, transações e importações de bens por via marítima, além de proibir viagens de cidadãos americanos para o país, as sanções acabam forçando o cancelamento ou prejudicando fortemente o trabalho dos grupos de ajuda, conforme informações de funcionários de agências da ONU e de organizações privadas.

Por exemplo, a proibição do transporte de metais por via marítima atinge desde instrumentos para diagnóstico até clips,  impedindo a entrada no país de quaisquer equipamentos de saúde, mesmo os básicos. Veda também a importação de máquinas agrícolas, ambulâncias e estufas, além de peças de reposição de todo o tipo de veículos (Reuters, 24 de agosto).

Em novembro de 2017, grande número de organizações de ajuda – como a American Friends Service, que desenvolve projetos agrícolas há 20 anos, e a Save The Children, que oferece alimentos e serviços de saúde, retiraram-se do país.

Para você ter uma ideia do que representa a ação das ONGs para o povo norte-coreano, 40% da população (10 milhões de pessoas) necessitam de auxílio humanitário. Particularmente essencial para as crianças, das quais 20% padecem de males causados pela desnutrição (Reuters, 20 de abril).

Muito em função das proibições impostas pelas sanções às importações, as colheitas deste ano pintam como desanimadoras. Teme-se que haja enorme carência de alimentos. A situação do país, que já era grave, tende a piorar ainda mais.

Eis porque o governo de Pyongyang insiste que os EUA comecem a reduzir gradualmente as sanções, em contrapartida às ações por ele realizadas como etapas da desnuclearização total.

Por enquanto, Washington parece surdo ao clamor norte coreano. Até agora não demonstrou nenhuma vontade de aceitar esse mecanismo de troca.

Ou tudo ou nada, é o que seu governo impõe.

Talvez aposte no desespero crescente do povo norte coreano, à medida que se agudizem a fome e as doenças por falta de tratamento de saúde e de alimentos.

Diante deste quadro sombrio, o ditador Kim Jong Un acabaria baixando a guarda.

Com isso, se consagrariam tanto o orgulho americano, quanto a imagem de The Trump, fundamentais diante das próximas eleições parlamentares, nas quais ele pode perder a atual maioria republicana.

Confiante em seu jogo, o presidente afirmou, recentemente, que não tem pressa. A desnuclearização que ele exige “poderá levar dois anos, três anos ou cinco meses – não importa.”

Para Kim importa sim. E muito.

Quanto mais tempo as sanções durarem, pior para a vida diária do seu pobre povo. Mais insatisfação, mais raiva, mais chances do ditador vir a ser destronado por seus inimigos (que não devem ser poucos).

Não creio que acha amor na apregoada paixão de Donald Trump por Kim Jong Un.

A menos que seja amor de apache.

 

 

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