Tratar sintomas não cura doenças.

Entre três e cinco de maio travaram-se combates em Gaza, que surpreenderam por sua altíssima intensidade, foram os m ais pesados desde a última invasão do reduto palestino, em 2014. Talvez mais importante foi seu significado: o Hamas se tornou um inimigo ainda mais mais temível.

Esse movimento mostrou-se capaz de lançar centenas de mísseis de uma vez contra território israelense, podendo atingir praticamente qualquer região do país.

Como é de hábito, a grande mídia brasileira e internacional atribuiu ao Hamas toda a culpa nos choques bélicos, ao atacar e ferir soldados israelenses. Depois de sofrerem a inevitável retaliação, os rebeldes palestinos teriam reagido, lançando 690 mísseis, dos quais somente 290 foram interceptados, desmoralizando a vigilância tida como perfeita do Iron Dome, o sistema de defesa anti-míssil israelense.

70% dos mísseis caíram em descampados, mas 35 atingiram áreas habitadas, algumas até longe da fronteira, deixando quatro civis mortos e mais de 80 feridos.

Israel, claro, não deixou passar batido. 350 bombardeios aéreos e centenas de disparos de tanques atingiram pontos específicos da faixa de Gaza, matando 27 palestinos ( BBC News, 6 de maio de 2019).

Inesperadamente, o Washington Post, através do seu correspondente na regiõao, contou uma história diferente.

As hostilidades teriam se iniciado quando spiners (atiradores) israelenses mataram dois manifestantes palestinos que protestavam contra o bloqueio de Gaza, junto à fronteira com Israel. Reagindo, os palestinos também atiraram, ferindo dois soldados adversários.

Aí Israel apelou: ataque aéreo sobre um campo de refugiados palestinos matou dois militantes.

Foi a partir desse ponto, que a coisa engrossou. Depois de uma chuva de mísseis disparada de Gaza, Israel foi ao ataque com centenas de bombardeios, usando aviões, tanques de guerra e artilharia, que elevaram o número de ruínas por metro quadrado da infeliz faixa palestina.

Enquanto Telaviv jura que reagiu à violência dos inimigos, o Hamas garante o contrário.

E diz mais: de qualquer maneira, ele teria todo o direito de atacar Israel. Seus chefes citam a Resolução 37/43 da ONU, em 1982, na qual a Assembleia Geral reafirma a legitimidade da luta dos povos pela independência, integridade territorial, unidade nacional e liberação da dominação colonial estrangeira, usando todos os meios disponíveis, incluindo a força das armas. Como as resoluções da Assembleia Geral da ONU são parte da lei internacional, qualquer ação militar do povo palestino  contra as forças de ocupação seria moral e eticamente justificável.

 Talvez, mas tenho sérias dúvidas quanto a ataques que podem atingir indiscriminadamente soldados ou pacíficos civis.

Assim entende a União Europeia. FedericaMogherini, sua chefe da relações exteriores, declarou:  ”Expressamos nossas condolências às famílias de todas as vítimas e do povo de Israel… Esses ataques provocam indescritível  sofrimento nos israelenses e servem apenas à causa de uma violência sem fim e de um conflito sem fim.”

Tendo a até concordar, pelo menos em parte. Mas não dá para aceitar a falta de condolências de Federica às famílias das 27 vítimas palestinas, inclusive duas grávidas e um bebê de 14 meses (um terrorista em potencial?).  Na verdade, apenas sete dos mortos eram ligados ao Hamas ou ao Jihad Islâmico, ou qualquer outra entidade semelhante, como o insuspeito Middle East Eye provou publicando fotos, nomes e qualificações de cada um  dos mortos (inclusive do bebê).

Todos os demais eram simples civis palestinos..

Será que as famílias deles não foram igualmente atingidas por “indescritíveis sofrimentos?”

Infelizmente, é mais fácil associar-se ao viés anti-Hamas  da grande mídia, que sempre , com razão ou sem ela, culpa esse movimento pela beligerância na crise de Gaza, ignorando  sua causa: o bloqueio da faixa.

Mesmo os países do Ocidente, bons amigos de Israel, rejeitam o brutal bloqueio de terra, mar (a pesca é limitada a uma estreita área pouco produtiva) e ar (o aeroporto foi bombardeado até restarem apenas buracos e ruínas).

A opinião pública internacional é unânime na condenação dos numerosos ataques aéreos, especialmente nas três invasões da faixa, que Israel já desferiu durante os 12 anos do bloqueio, destruindo em massa lares, hospitais, mesquitas, fábricas, oficinas e escolas, além de usinas de tratamento de água e de energia elétrica.

Os dois milhões de habitantes de Gaza sobrevivem precariamente, sem água potável e acesso à saúde, tendo eletricidade apenas algumas horas por dia. Com desemprego passando dos 50%, 80% dependem de ajuda externa para poderem se alimentar e mais de 40% gravitam no limiar da pobreza absoluta.

E o que o futuro lhes reserva?

“Tanto em termos de saúde, de desemprego, de energia, de acesso a água, em tudo isto há um declínio cada vez mais rápido”, diz relatório da ONU, de 2012, pois a população cresce, mas não os recursos necessários à sua sobrevivência. Por isso, conclui, antes de 2020 o enclave palestino poderá se tornar inabitável, caso não se faça algo para reduzir drasticamente o bloqueio.

Foi para convencer Israel a permitir que se faça esse algo, já estavam em curso recentes conversações entre Hamas e Israel, mediadas pelo Egito.

Analistas dizem que o Hamas quís dobrar a resistência do governo Netanyahu em aprovar decisões urgentes (como liberar a entrada proibida de centenas milhões de dólares doados pelo Qatar), que o Hamas resolveu partir para ações mais agressivas,  lançando seus 600 mísseis.

A maioria dos principais líderes israelenses pensa desse modo. E considera tratar-se de uma desprezível chantagem do Hamas, que deve ser reprimida a ferro e fogo.

Nessa linha, fala o general Benny Gantz, líder da oposição ao premier Bibi Netanyahu: “´Precisamos atacar pesadamente, de um modo intransigente, de qualquer forma que o exército recomende, com ações militares e de inteligência. Temos de restaurar a intimidação que tem sido catastroficamente enfraquecida por mais de um ano.”

Para o bravo cabo de guerra, a solução para a crise de Gaza seria, portanto, “atacar de forma pesada e intransigente”. Fazer o Hamas ficar assustado e acabaria baixando a guarda.

Parece uma ideia bizarra. Algo como pretender curar uma pneumonia com remédios para baixar a febre.

A história é taxativa: violência costuma trazer mais violência. Acho que o Hamas e outros movimentos revolucionários, longe de dar adeus às armas, reagiriam à altura, caso Telaviv seguisse a proposta de Gantz. O que obrigaria Israel a lançar mão de meios militares ainda mais destruidores, até deixar os rebeldes sem forças. Intimidados, os sobreviventes aceitariam a paz.

Só então Israel aceitaria sentar-se à mesa das negociações com seus rivais e lhes ditar os termos de um acordo um acordo para garantir a paz.

A paz dos túmulos, pois os custos humanos para ambos os lados seriam provavelmente muito, mas muito penosos.

Com oposicionistas como o general Gantz, a linha dura liderada por Netanyau não precisa de aliados.

Felizmente, os generais da ativa pensam de outro modo.

O exército de Israel publicou comunicado (Times of Israel, 6 de maio de 2019), crítico da política do governo, baseada em retaliações violentas, intimidando os rebeldes e forçando-o a desistirem de sua luta.

O texto dos militares israelenses considera necessárias concessões para melhorar as condições de vida em Gaza. Do contrário, haveria novos ataques do Hamas nas próximas semanas ou mesmo dias.

É uma mudança de postura, que pode começar durante negociações com o Hamas, já iniciadas.

Acredito ser conveniente que a mediação não fique apenas a cargo do Egito. A União Europeia deveria compartilhar esta função. Normalmente, os EUA disporiam de um lugar cativo na mesa das tratativas. Hoje, com The Donald torcendo descaradamente por Israel, isso é impossível.

Vale lembrar a advertência do grande Albert Einstein sobre as relações do povo judaico com os árabes palestinos:

“Se formos incapazes de encontrar um caminho de cooperação honesta e acordos honestos com os árabes, então nós não aprendemos nada durante nossos dois mil anos de sofrimentos e mereceremos tudo que cairá sobre nós.”

 

Uma ideia sobre “Tratar sintomas não cura doenças.

  1. INCRÍVEL COMO A RESOLUÇÃO DA ONU DE 1948, PERMITINDO A INVASÃO JUDAICA DA PALESTINA, COM MASSACRES E EXPULSÕES DA POPULAÇÃO PALESTINA, QUE LÁ VIVIAM HÁ MAIS DE 1500 ANOS, SEM INDENIZAÇÕES PELAS PROPRIEDES OCUPADAS E COM A DEFINIÇÃO EXATA DOS LIMITES DO FUTURO ESTADO DE ISRAEL E DA PALESTINA
    VIROU LETRA MORTA.
    OS SUCESSIVOS AUMENTOS DE TERRITÓRIOS DE ISRAEL POR AÇÃO
    BÉLICA, NUNCA PUDERAM SER COIBIDOS PELA ONU, PELO VETO SISTEMÁTICO DOS AMERICANOS.
    EU APENAS QUERIA SABER PARA QUE SERVE A ONU, A NÃO SER DAR BONS SALÁRIOS PARA OS QUE LÁ SE OCUPAM..

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