Trapaça de Trump contra o Irã.

O acordo nuclear do Irã com os chamados P5+1 (EUA ,Reino Unido, Alemanha, França, Rússia e China) é inspecionado regularmente pela Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA). Até agora Teerã tem cumprido escrupulosamente as obrigações assumidas.

De três em três meses, os governos dos P5+1 devem também certificar o bom comportamento dos iranianos. Na última certificação, em julho, apesar do OK da IAEA e dos outros países, Trump resolveu apelar.

Ele não queria de jeito nenhum aprovar o comportamento do Irã. Motivos, não tinha nenhum, só a sua iranofobia.

Todos os ministros, mais os membros do Conselho de Segurança dos EUA, tiveram o maior trabalho para acalmar o “fogo e a fúria” do presidente. Do contrário, seria um vexame mundial para os EUA.

The Donald acabou certificando, mas jamais se conformou.

Depois de sua bizarra conduta, garantiu que o Irã violou o acordo. Isso ficaria provado se a IAEA inspecionasse também as instalações militares não-nucleares.

Em outubro, mês da próxima certificação, o presidente jurou que desta vez seria diferente. Ele se negaria a agir contra sua vontade. Não ficou claro se ele pretendia estar apoiado em boas evidências. Ou se, mesmo sem elas, iria impor sua vontade de forma esquizofrênica, ignorando a realidade.

Preparando-se para outubro, ele já vem pressionando o IAEA para que inspecione também os locais militares iranianos não-nucleares.

É uma armação bem tramada.

O Irã, como qualquer outra nação, não toparia abrir todo o seu aparelho militar para a possível espionagem de países inimigos, como os próprios EUA e seu dileto protegé, o Estado de Israel. Aí Trump poderia alegar que essa recusa provava que havia “algo de podre no reino da Dinamarca.” Evidenciaria descumprimento do acordo nuclear, razão bastante para que fosse rompido.

Devidamente instruída, Nikki Haley, embaixadora dos EUA na ONU, viajou a Viena, pronta para convencer a IAEA a fazer o que o chefe queria. Abrilhantou seus argumentos, lembrando que, em anos anteriores, o Irã teria usado locais militares comuns para encobrir atividades nucleares. Como exemplo, citou denúncia anterior focada em Pashin.

Deu errado.

A IAEA, mais uma vez, comunicou aos países do acordo que o Irã continuava fazendo sua lição de casa corretamente, merecia nota 10.

Yamano, seu diretor-geral, esclareceu que a IAEA só inspecionaria locais não-nucleares se houvesse indícios fortes de que ali se processavam operações proibidas pelo acordo. Por enquanto, não havia nada

Somando com ele, Laura Rockwood, ex-conselheira do departamento da IAEA encarregado das inspeções, declarou: “Os EUA, ou qualquer membro (do P5+1) tem de apresentar evidências sólidas e contemporâneas para  se iniciar a inspeção (de locais não-nucleares).”

A  Reuters reportou comentário de um expert da IAEA: ”Se eles (os EUA) querem romper o acordo, poderão fazê-lo. Nós não lhes daremos nenhuma desculpa para  isso. ”

Trump não se tocou com negativa da IAEA.

Ele está apostando numa trapaça similar a que George W.Bush armou para inculpar Saddam Hussein e assim justificar a invasão do Iraque.

Os analistas da CIA foram pressionados pelo governo Bush para fornecer provas de atividades malignas do ditador do Iraque, produzindo armas de destruição em massa (nucleares).

Que se concentrassem nesse objetivo. Os  EUA contavam com o dever dos analistas de descobrirem evidências que servissem como desculpa para o ataque ao Iraque. Que não lhe falhassem!

Como não encontraram nada, muitos analistas tiveram de vir com as mãos vazias. Mas outros, por medo ou subserviência, inventaram o que o então presidente queria. Bush ficou com a análise destes últimos, como se fosse a palavra da CIA.

E deu no que deu.

Agora veja o que The Donald está aprontando.

Conforme noticia o The Guardian de 28 de agosto: ”De acordo com informações, os analistas da inteligência, preocupados com a experiência da guerra do Iraque,  lançada pela administração Bush com base em evidências (fake) de armas de destruição em massa, estão resistindo à pressão para apresentarem evidências de violações iranianas. ”

O The Guardian, em 28 de agosto, cita alguns depoimentos de pessoas ligadas à comunidade de inteligência sobre a indignação dos analistas escalados para colaborar no jogo sujo de Trump.

Ned Price, ex-analista da CIA: ‘Eles me contaram que há um  sentimento de repulsa. Uma sensação de dejá vu Uma sensação de que ‘já vimos isso antes. ’”

Outro analista: “Trump primeiro concluiu e agora está tentando obrigar a comunidade de inteligência a descobrir uma evidência que o apoie. ”

David Cohen, ex vice- diretor da CIA: ”Se nossa inteligência se degradasse, politizando-se do jeito que o presidente deseja, isso acabaria com a utilidade dessa inteligência, de um modo geral .”

Caso você aplique o raciocínio de Cohen ao comportamento de Trump, poderia concluir que ele acabaria com utilidade dos presidentes americanos, em geral…

Não sendo tão radical, acho que, se a trapaça de Trump for divulgada em todo o mundo, enterraria sua credibilidade. Como se trata do presidente dos EUA, a perda dessa qualidade implicaria em sérios danos à imagem do país. E o ex- astro de TV dificilmente conseguiria ser levado à sério em outras questões.

O Guardian também informa que os analistas da inteligência americana poderão negar-se a tirar as conclusões que interessam a Trump.

No entanto, duvido que o presidente desista de sua campanha para botar o Irã de joelhos.

Ele já está recuperando denúncias que fez em fevereiro.

Foi quando o Irã testou um míssil de alcance médio. Trompa logo acusou Teerã de rompimento do acordo nuclear e violação de resolução do Conselho de Segurança da ONU- ambos proibindo mísseis com carga nuclear.

O governo Rouhani negou, declarando que os mísseis iranianos não se enquadravam nas proscrições por não  foram fabricados para levar ogivas nucleares.

Nem a ONU, nem o IAEA se pronunciaram.

Trump não deixou passar batido. Atacou de tuiter como tanto gosta. E o fez da forma ameaçadora, aproveitando para menosprezar seu tão odiado Barack Obama.

“O Irã está brincando com fogo”, proferiu. E advertiu que ele não seria tão bonzinho quanto Obama fora com eles.

Teme-se que ele comece seu bombardeio já em setembro, na próxima reunião da IAEA com todos os representantes dos países signatários do acordo nuclear. Será o palco ideal para o presidente americano apresentar um punhado de evidências provavelmente falsas, exigindo que a IAEA mande seus inspetores visitarem locais militares não-nucleares para checar se o Irã não estraria violando o acordo com os P5+1.

Mesmo que essas evidências sejam recusdas como fake, Trump poderá leva-las ao Congresso que, dominado por grupos pró-Israel e/ou crentes de que o Irã é o diabo que a imprensa e o general Mattis pintam, poderá apoiar o presidente.

Aí os EUA sairiam do acordo nuclear.

O que aconteceria?

Bem, a União Europeia, a França, a Alemanha e até o Reino Unido, além , é claro, da Rússia e da China defendem o acordo nuclear de forma definitiva.

Tem duas boas razões:

1) Todos eles estão numa corrida para aproveitar as vantagens de negociar com um mercado de 80 milhões de habitantes, carente de investimento nas suas riquezas e de uma série de bens, importantes para a vida moderna;

2) O acordo evita uma provável guerra Irã x EUA e Israel, apoiados pela Arábia Saudita, deixando a Europa numa saia justa: ficam com a justiça e os seus interesses ou continuam se submetendo à política internacional yankee. Claro, existe ainda a possibilidade de uma guerra no Oriente Médio se tornar mundial.

Agbar Saleh, chefe da Organização de Energia Atômica iraniana já afirmou:”Se os cinco signatários continuarem comprometidos, o Irã continuará a cumprir o acordo.”

Caso contrário, conforme o presidente Rouahni, em apenas 24 horas o Irã estaria pronto para reassumir o desenvolvimento do seu programa nuclear.

Acredito que os dados estão lançados.

Pena que um dos participantes jogue com dados viciados.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma ideia sobre “Trapaça de Trump contra o Irã.

  1. Eça, tentei fazer um comentário, mas me estendi um pouco, e ao Olhar o Mundo
    … fiquei a ver Navios. Na próxima serei mais suscinta

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