Talvez Bernie Sanders perca, mas suas ideias já venceram.

Até meados do século 20, a principal diferença entre o Partido Democrata e o Partido Republicano era a marca do bourbon preferido.

Em meados do século 20, as coisas mudaram um pouco.

Os liberais democratas começaram a aparecer. Eles tinham uma visão humanística, davam importância às liberdades consagradas na Constituição. Queriam reformas, mas devagar, sem provocar choques com o establishment. Eram do tipo de gente descrito por Martin Luther King: “… os brancos moderados, que são mais devotados à ‘ordem’ do que à justiça; que preferem uma paz negativa que é a ausência de tensão a uma paz positiva que é a presença da justiça.”

Mais para o fim do século, os liberais ganharam músculos e passaram a empurrar os conservadores para as cordas. Começava, então, a vicejar uma nova espécie no jardim democrata: os esquerdistas, raros no parlamento e nos legislativos estaduais.

No século 21, as ideias desses cidadãos foram se propagando e, por fim, em 2016, seu mais expressivo líder se apresentou nas primárias presidenciais. Bernie Sanders não só propôs soluções ousadas, como também ousou enfrentar a favorita Hillary Clinton, a mais famosa política do Partido Democrata.

Sanders não teve medo de se declarar socialista e, com sua postura de delenda establishment, conquistou milhões de adeptos. Não fosse os grandes líderes do partido e a burocracia apoiarem Clinton, teria provavelmente vencido a disputa pela indicação do partido a presidente dos EUA.

Nos anos seguintes, como senador, Sanders continuou  arregimentando seguidores, especialmente os jovens empolgados na sua campanha eleitoral, inclusive a chamada “geração do milênio”, os nascidos no século 21.

E assim surgiu um novo grupo democrata, os progressistas, defensores de mudanças radicais que, no início, assustavam até mesmo os liberais, dos quais muitos acabaram admitindo o potencial da nova força na revitalização do partido, depois das derrotas sucessivas para Bush e Donald Trump.

Hoje o Partido Democrata está dividido em dois campos: o moderado, formado pelos conservadores e liberais de centro-direita, e o progressista, reunindo socialistas-democratas, liberais de esquerda e pessoas de posições avançadas, mas sem ideologia definida.

Apesar da maioria dos parlamentares pertencerem ao primeiro grupo, a tendência da maioria dos eleitores democratas favorece os progressistas.

Reflexo da situação apareceu agora, quando 24 pessoas disputam sua indicação como candidato do Partido Democrata à presidência dos EUA. Quase todos eles defendem propostas progressistas, voltadas contra as iniquidades estruturais e as falhas do sistema.

É uma grande vitória para Bernie Sanders, quem primeiro as apresentou na campanha de 2016 e é ainda respeitado como o líder da corrente progressista. 

Até mesmo o moderado e pragmático Joe Biden, sentindo para onde o vento sopra, apoia ideias de Sanders como o salário-mínimo horário de 15 dólares e a universidade gratuita.

Entre a coleção de candidatos democratas, quatro deles aparecem com chances de vencer as primárias do partido.

Joe Biden, que foi vice de Barack Obama, segundo as pesquisas, é o favorito destacado. Desde o lançamento de sua candidatura, seu nome vem crescendo, atinge hoje uma diferença superior a 10% sobre o segundo colocado.

Pragmático, Biden se diz de centro-esquerda.

Ele discorda da Medicina Para Todos, de Sanders, mas propõe também um avanço no sistema de saúde pública: as pessoas poderiam escolher entre um convênio particular ou outro, público. Era o que Obama desejava apresentar quando do lançamento do seu sistema de saúde, mas desistiu, pois não conseguiu o apoio necessário.

Biden diz que sua proposta economizaria uma fortuna ao governo, enquanto que a Medicina Para Todos sairia muito caro, o que um estudo prova não ser verdade.

Contesta posições progressistas como a descriminalização dos imigrantes ilegais e o perdão das dívidas contraídas em empréstimos por milhões de estudantes americanos.

O verdadeiro argumento da campanha de Biden é que ele seria o único candidato capaz de derrotar The Donald, uma vez que Sanders, tido como seu principal adversário, encontraria enormes rejeições por ser socialista.

Parece estar dando certo, recente pesquisa do Washington Post revela que o ex-senador seria o único pré-candidato democrata que venceria Trump por boa margem: 53 x 43. Os outros três também ganhariam, mas por 2% ou menos.

Biden também pretende convencer o público de que partilhara do governo dos EUA, ao lado de Obama. Procura assim puxar para si parte do sucesso do ex-presidente, falando em ações e posturas positivas da “administração Obama-Biden.”

A caminhada de Biden em direção à Casa Branca vinha se desenvolvendo firmemente quando sofreu o primeiro percalço durante o debate dos pré-candidatos democratas, em Miami, nos dias 30 e 31 de julho.

A senadora Kamala Harris enfrentou-o duramente, levantando um tema altamente desconfortável: quando senador, Biden fora dos mais ativos contestadores da lei anti-racista que determina que os ônibus escolares deveriam transportar tanto estudantes brancos, quanto negros.

Pego de surpresa, Biden atrapalhou-se, ainda mais quando a senadoras Harris lembrou a estreita associação política do então senador democrata com dois notórios e ardentes senadores racistas republicanos.

A performance fraca e hesitante de Biden deve ter pegado mal junto a seu eleitorado negro, á que sua trajetória crescente sofreu clara involução conforme pesquisas realizadas após o debate de Miami.

Novos e perigosos obstáculos deverão ser antepostos pelos rivais de Biden nos próximos debates das primárias democratas.

Ele já está se preparando para encarar críticas a seu apoio à guerra do Iraque; ao NAFTA (que acabou com inúmeros postos de trabalho nos EUA); a leis que punem consumidores de tóxicos, provocando encarceramentos em massa no país; à manutenção de cortes injustos de impostos criados por Bush e mantidos nos orçamentos de Obama.

Bernie Sanders largou na liderança das pesquisas e manteve essa posição até a entrada de Biden na corrida.

Foi ficando para atrás até o debate de Miami, quando se viu eclipsado pela atuação agressiva, de forte apelo popular, da senadora Kamala Harris, contra um confuso e derrotado Biden. Alcançado e ultrapassado por ela nas pesquisas do day after do debate, ainda passou a compartilhar o terceiro posto com a senadora Elizabeth Warren.

A mensagem de Sanders é muito clara: tivemos 40 anos de crescimento econômico que não beneficiou 90% do povo americano. São necessárias reformas radicais para acabar com essa horrível iniquidade.

Com esse objetivo, ele pleiteia: saúde para todos, universidade grátis; salário-mínimo de 15 dólares por hora; restauração das medidas de Obama em defesa do meio ambiente (eliminadas por Trump) acrescidas de novas propostas mais rígidas; perdão das dívidas dos estudantes; empregos garantidos por lei; acabar com gastos desnecessários, cortando os bilhões de despesas inchadas cobradas pelos fornecedores do Pentágono.

As chances de Bernie Sanders vencer não parecem tão promissoras como inicialmente se imaginava. Seu grande sucesso nas primárias de 2016 deve-se a fatores hoje inexistentes:

 – naquele ano, o povo estava irritado com os políticos tradicionais, exigia grandes mudanças. Atualmente, com o descrédito do “revolucionário” Donald, há um desejo de algo mais seguro, mais normal no panorama político americano;

 – em 2016, Sanders era o único pré-candidato do campo progressista, hoje existem vários, dois dos quais são fortes concorrentes (Harris e Warren), disputando os mesmos eleitores que ele;

– a economia e o emprego nos EUA estão em alta. Há um clima de bem estar geral, onde as reformas radicais de Sanders devem assustar muita gente.

Sem contar que o termo socialista ainda assusta.

Mesmo assim, o prestígio de Sanders ainda é muito grande.

Até a última prévia democrata, muitos jovens americanos completarão a idade que lhes dá direito ao voto. Nesse segmento da população a preferência pelo senador progressista é absoluta. Caso grande número deles seja convencido a ir às urnas, a maioria votará em Sanders.

Convém aguardar os próximos debates antes de avaliar suas condições de vitória. Mesmo antes deles, a pesquisas já mostram Sanders melhor, em triplo empate com Harris e Warren, mas ainda longe de Biden.

O texto abaixo dá uma ideia do tom da pregação do senador pelo estado de Vermont: “Nada mudará a menos que tenhamos coragem para enfrentar Wall Street,  a indústria de seguros, a indústria farmacêutica, o complexo industrial-militar, a indústria de combustíveis fósseis. Se não tivermos coragem para enfrenta-los, nós continuaremos a ter planos, nós continuaremos a conversar e os ricos ficarão mais ricos, enquanto todos os outros estarão lutado pela vida.” 

A senadora Kamala Harris entrou na corrida de Miami como out-sider. E saiu não exatamente favorita, mas considerada uma concorrente de respeito.

Tudo graças à sua vigorosa investida contra o tranquilo líder nas pesquisas, o ex-senador Biden.

Irônica, Harris começou sua fala declarando não duvidar do anti-racismo do favorito, mas gostaria que ele explicasse porque se mostrara tão indignado com o transporte escolar sem segregação, a ponto de liderar uma campanha contrária.

Biden atrapalhou-se em profusas explicações, sem conseguir explicar nada. E a senadora pela Califórnia não lhe deu tréguas, saindo do debate como heroína.

Essa performance catapultou Harris do quarto lugar nas pesquisas, com porcentagem de um só dígito, para o segundo lugar, com viés de alta.

E Biden sofreu um abalo, embora, alguns dias depois, as pesquisas tenham mostrado sua recuperação.

Mas o dano estava feito. Nos próximos meses, sendo o ataque de Harris devidamente repetido na imprensa, o público negro deverá se conscientizar desta grave falha na folha corrida do ex-vice.

Harris, que não é boba, já se associou às principais propostas progressistas, gratas ao eleitorado democrata, e certamente vai colaborar na divulgação do passado racista do ex-senador e ex-vice.

Só que, depois de seu inesperado crescimento, ela vai ser colocada na mira dos concorrentes.

Há certos fatos incômodos no seu passado na chefia da procuradoria californiana. Sua dura abordagem do problema do abandono escolar e sua resistência em criar comissões independentes para investigar tiros de policiais devem pegar muito mal quando denunciadas.

Além disso, sua própria visão do transporte escolar não-segregado não ficou muito clara e ela tem respondido de forma indefinida se favorece ou não a eliminação do seguro de saúde privado- mal sucedido nos EUA (The Hill, 8 de julho).

A senadora Elizabeth Warren é a figura progressista de maior destaque, depois do senador Sanders. Enquanto o senador se declara um democrata socialista, ela não é contrária ao capitalismo, quer salvá-lo de si próprio.

Dentro desse objetivo, Warren pensa ser fundamental atacar as imensas desigualdades sociais que considera uma doença do sistema. Por isso, ela não se impressiona com os ganhos econômicos do governo atual, pois: “ Quando a  economia beneficia aqueles que tem dinheiro e não beneficia os demais, isto é corrupção, pura e simples. Nós temos de atacá-la de cabeça erguida. E precisamos fazer mudanças estruturais no nosso governo, na nossa economia e no nosso país. ”

Coerente com seus princípios, a senadora pelo estado de Massachussets é especialmente conhecida por combater  corporações e bancos que enganam os consumidores nas hipotecas,  empréstimos estudantis, cartões de crédito e outros produtos e serviços financeiros, atingidos pela devastação causada pela crise de 2007-2008. Foi dela a ideia de se criar uma agência do governo responsável pela proteção dos consumidores no setor financeiro, mais tarde concretizada no governo Obama, ao fundar o Consumer Financial Protection Bureau.

Para garantir sua ambiciosa promessa de executar todas as principais propostas progressistas, ela faz uma audaciosa promessa: cobrar das famílias com patrimônios acima de 50 milhões de dólares uma taxa de 2% por ano, com uma sobrecarga adicional de 1% sobre riquezas acima de 1 bilhão. Como explicou Warren, a taxa também incorreria “sobre seus Rembrandts, suas carteiras de ações, seus diamantes e seus iates.”

Seria uma autêntica revolução, já que jamais um governo americano taxou bens pessoais.

Dando força a seus projetos inusitados com argumentos sólidos, Elizabeth Warren transmite credibilidade e esperança.

E à medida que vai se tornando mais conhecida, seu nome sobe nas pesquisas. A imprensa, que antes desprezava sua candidatura, taxando-a de irrelevante, agora admite suas chances de vencer nas pré-primárias do Partido Democrata. 

4 pensou em “Talvez Bernie Sanders perca, mas suas ideias já venceram.

  1. Muito bom, Luis, como sempre!
    Belíssimo post, esclarecedor e apresentando a dimensão do que será a próxima eleição americana. E concordo contigo, mesmo que Sanders perca, e me atrevo a te dizer…. , mesmo que os democratas percam a próxima eleição, imaginar que estes concorrerão com um candidato “defendendo” idéias progressistas o grupo de Sanders já terá vencido. Olha te posto abaixo um documentário da Netflix, sobre como o grupo socialista de Sanders se organizou para as últimas eleições, mostrando como AOC-Alexandra Ocasio Cortez – foi eleita. Muito legal, veja se ainda não viu! Grande abraço, e ó estou com reforma em casa, mas logo, logo inauguramos , e a costela estará na mesa no fogo, como sempre! Nada como um bom whisky, uma costela e um artigo teu, num domingão, para desfrutarmos de umas duas horas de bom papo! Podemos nos apelidar de “SRC-Socialistas radicais carnívoros”! Abração Luis, não comento muito aqui, mas estou sempre no “gargarejo”, esperando tuas postagens.

    • O nome do documentário da Netflix é “Virando a mesa do poder”. É bom pq não é sobre a AOC especificamente, mas sim sobre como o grupo do Sanders se organizou para as últimas eleições. Sim, acaba sendo sobre ela, pq ela se elegeu de maneira fantástica. Mas o tema do documentário se foca na organização do grupo e na candidatura de mulheres, em contraposição aos parlamentares democratas, todos homens, que dominavam a cena política. O próprio documentário é feito por um grupo de jornalistas, cineastas e publicitários “socialistas”, que fizeram as mensagens dos candidatos do grupo de Sanders. O conteúdo é semelhante ao que tu escrevestes no teu artigo, de maneira mais geral, é voltado para a última eleição do congresso.

  2. O nome do documentário da Netflix é “Virando a mesa do poder”. É bom pq não é sobre a AOC especificamente, mas sim sobre como o grupo do Sanders se organizou para as últimas eleições. Sim, acaba sendo sobre ela, pq ela se elegeu de maneira fantástica. Mas o tema do documentário se foca na organização do grupo e na candidatura de mulheres, em contraposição aos parlamentares democratas, todos homens, que dominavam a cena política. O próprio documentário é feito por um grupo de jornalistas, cineastas e publicitários “socialistas”, que fizeram as mensagens dos candidatos do grupo de Sanders. O conteúdo é semelhante ao que tu escrevestes no teu artigo, de maneira mais geral, é voltado para a última eleição do congresso.

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