Surge uma Joana d´Arc palestina.

Em meados do século 5, os franceses estão desanimados, sem esperanças de expulsar o invasor inglês que pretende anexar o país aos domínios do seu rei.

O exército inimigo e seus aliados ocupavam a maior parte da França, inclusive Paris.

Hoje, a Palestina encontra-se numa situação semelhante. Seus líderes já tentaram conseguir a independência nacional, livre da ocupação, através dos mais diversos meios: diplomacia, resistência armada, apoio da ONU, mediação dos EUA, apelos ao Tribunal Internacional de Criminal, mas nada mudou. Os israelenses continuam dominando todo o território palestino.

A desesperança ganha cada vez m aios corpo.

Israel está sempre construindo novos assentamentos e já fala em anexar toda a região, como fez em Golan, tomada à Síria, sem reação da comunidade internacional, a não ser palavras inócuas.

A França foi salva por Joana D´Arc, uma jovem pastora que obedecendo a vozes de duas santas, apresentou-se como libertadora. Assumindo a vanguarda das tropas dos franceses, ela os liderou contra as forças inglesas, de armadura e espada em punho.

Inspirados em Joana, os soldados da França recuperaram sua confiança, conquistando sucessivas vitórias. E, por fim, expulsando os inimigos do país.

Joana d´Arc morreu antes disso. Presa durante o cerco a uma cidade, foi julgada e condenada como bruxa pelos ingleses, sendo queimada em público.

Algum tempo depois, o Vaticano a reabilitou e  santificou.

Há quem ache que alguém semelhantes a Joana d ´Arc pode ter surgido na Palestina.

Num episódio da repressão do exército de ocupação aos palestinos, um garoto de 15 anos, atirador de pedras, foi alvejada na cabeça por soldado de Israel.

Sua prima, Ahed Tamimi, uma garota delicada, de olhos azuis e 16 anos ficou traumatizada.

Voltou-se, então, para os soldados, que tinham invadido sua casa, e mandou que saíssem.

Diante da negativa, ela reagiu num impulso, esbofeteando um dos inimigos.

Foi imediatamente presa e levada para a cadeia.

Num país democrático de verdade, sua ação seria considerada insignificante e Ahed não receberia mais do que uma advertência.

Mas Israel só é democrático para os israelenses. Não para os árabes.

Um simples tapa num soldado é considerado um atentado, ainda que parta de uma mocinha, motivada pela violência muito maior imposta a seu primo.

Assim entenderam os procuradores militares.

Acusaram Ahed de nada menos do que 12 delitos, incluindo assalto às forças de segurança e incitação à violência. Se condenada teria de passar anos encarcerada.

“Ela não é uma pequena garota, ela é uma terrorista”, rugiu a ministra da Cultura (?), Miri Regev. ”É tempo que eles entendam que pessoas como ela tem de estar na cadeia e não lhes serem permitido incitar o racismo e a subversão contra o Estado de Israel.”

Portanto, como pensam a ministra e outros políticos de direita, terrorismo não tem idade. Palestino que só tem idade para atirar pedras, no futuro estará atirando bombas…

Oficiais de nível sênior procuraram parlamentares do governo, pedindo a formação de uma comissão de inquérito para se verificar se a família da loira Ahed não seria estrangeira.

Uma exemplar punição para a corajosa jovem foi a reivindicação de muitos políticos da coalisão de direita que governa Israel.

Mas um fato depôs a favor dela.

Sua mãe, Nariman, tinha filmado todo o episódio e colocado o filme na rede social, onde rapidamente viralizou. Espalhado pelo mundo, através da mídia internacional, comoveu formadores de opinião de toda parte.

Grupos de direitos humanos, entre eles a Anistia Internacional, promoveram campanhas, exigindo a libertação da jovem palestina.

Mas Ahed acabou condenada pela prática de oito delitos. Deve cumprir oito meses na prisão. Acredita-se que a pena seria muito maior se não fosse o abalo que poderia causar à imagem internacional de Israel.

Por ter filmado e divulgado a ação de sua filha, sua mãe também foi processada e pegou os mesmos 8 meses de prisão. Mais protestos espocaram quando o pai de Ahed exibiu trechos filmados do interrogatório de sua filha (lidos e comentados pela France Press, The Intercept e Daily Beast).

Durante 10 dias seguidos, ela recebera uma saraivada de perguntas, que, no julgamento, chegaram a estender-se por 12 horas diárias.

No interrogatório, Aheb não foi acompanhada por um advogado, como o regulamento exige quando o interrogado for menor de idade. Nem estava presente uma mulher-policial, o que é também mandatório.

Os interrogadores sentaram-se bem próximos de Aheb, com as pernas abertas, procedimento rotineiramente usado quando a vítima é mulher. Acham que essa postura, digamos, um tanto grosseira, assusta a interrogada.

Os agentes tentaram intimidar Aheb, exagerando as consequências legais do ato que praticou, ameaçando sua família de prisão – caso ela não “colaborasse.”

Queriam que a moça denunciasse supostos grupos de subversivos, além de atentados e atividades rebeldes em preparação. Procuraram fazer com que ela admitisse que sua ação fora previamente planejada para desmoralizar o exército de Israel.

Mas Ahed manteve-se em silêncio, por vezes declarando que tinha direito à presença de um advogado. Exigência que rotineiramente não se cumpre nos interrogatórios de menores palestinos.

A Anistia Internacional considerou a condenação de Ahed como uma violação ds leis internacionais e mostrou que Israel não tem nenhum respeito para os direitos das crianças palestinas.

Palestinos de todos os movimentos revolucionários e ativistas de direitos humanos ficaram empolgados com a atitude da jovem Aheb. Muitos vêm nela um símbolo da resistência palestina.

Chegam a compará-la a Joana d´Arc.

Acho que é um certo exagero, embora o ato dessa jovem mal saída da adolescência, contra um soldado israelense, possa fortalecer o ego dos palestinos. Ajudá-los a recuperar sua auto-imagem e seus sonhos de liberdade.

Certamente seu papel num eventual reviver da luta nacional ela independência não será tão relevante quanto o de Joanas d´Arc, na libertação da França.

Mas é evidente que, ao fazer aquilo que todo palestino gostaria de fazer, ela se tornou, senão uma heroína, ao menos um símbolo da resistência.

Especialmente por partir de uma jovem menor de idade, quase uma criança, setor da população palestina tratado pela ocupação com a severidade excessiva com que trata os adultos.

Como os dados abaixo provam.

A agência de notícias Anadolu (de Turquia) informa que as tropas de ocupação israelenses mataram cerca de dois mil menores de idade, desde a segunda Intifada, em setembro de 2000 (número fornecido pela ONG Defence of Children Internationa)l. Nos últimos 18 anos, foi morta uma criança palestina cada três dias, em média.

Segundo Ayed Qteesh, diretor da ONG Palestine Branch, Israel prende e aprisiona cerca de 700 crianças palestinas por ano. Ele diz também que o exército de Israel as coloca diante de falsos tribunais para assustá-la. Em geral elas são maltratadas para força-la a confessarem. A Defense for Children International reporta que três entre quatro menores detidos sofrem violências ao serem presos ou submetidos a interrogatórios.

De acordo com a ONG Addameer, 365 menores palestinos foram presos por Israel somente no mês de março.

Diversas ONG de direitos humanos denunciam as condições de encarceramento das crianças palestinas e as sistemáticas decisões das cortes militares proferidas contra elas – em uma média de quase 100% de condenações.

Relatórios da Human Rights Watch e da ONG israelense B´Tselem denunciam que as forças de Israel usam desnecessária força quando prendem crianças palestinas. Diversos menores reportam terem sido socados, chutados, machucados e tido seus olhos vendados durante sua prisão ou interrogatório, sendo ainda obrigados a assinarem textos em hebreu, língua que não entendem.

Tudo isso é muito grave para um país que nasceu com tantos bons propósitos humanos.

Dietrich Bonhoefer, teólogo protestante alemão. executado por oposição ao Holocausto, tem uma frase que mereceria um exame de consciência dos líderes de Israel:

 “O teste de moralidade de uma sociedade é o que ela faz para suas crianças.”

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