Stalin vive.

Como ditador da União Soviética durante cerca de 30 anos, Stalin foi responsável pela morte de milhões de russos.

Logo após seu enterro, seus antigos homens de confiança já estavam criticando as ideias e os métodos brutais do ex-chefe.

Nos governos de Kruschev, Gorbatchov e Ieltsin, a imagem dos vermelhos anos estalinistas foi se deteriorando.

Veio a desagregação da União Soviética, quando as repúblicas socialistas periféricas se separaram da mãe Rússia, e o capitalismo assumiu em lugar do comunismo. E o grande herói virou um atroz vilão, incômodo fantasma, cuja memória deveria ser esquecida pela nova Rússia que renascia.

Mas não foi.

Longe disso.

Recente pesquisa do Levada Center revela que a maioria dos russos está com Stalin e tudo indica que não abre.

Mais da metade do povo qualifica como positivas tanto a figura do líder comunista, quanto seu papel na história dos conturbados anos do século XX.

E cada vez menos russos discordam desta avaliação.

Segundo o Levada, o número dos críticos é três vezes menor do que o apurado em pesquisa de 2005.

Ou seja, nos últimos 14 anos, a imagem do ditador, não só está bem viva, como vem aumentando seu espaço nos corações e mentes do povo. E de forma galopante.

O principal motivo desta surpreendente valorização seria a vitória de Stalin sobre as bárbaras hostes nazistas.

Embora o colocando  num lugar de destaque no altar da pátria, os russos não deixam de criticar alguns aspectos do seu governo. Por exemplo: 45% reprovam como injustificável a repressão em massa promovida até contra auxiliares fiéis (alvos da paranoia do grande líder, conforme alguns historiadores).

A pesquisa do Levada revelou que existe na população uma clara saudade dos “bons tempos” do comunismo. Nada menos do que 66% lamentam o fim da União Soviética.

Note-se que apenas russos maiores de 80 anos conheceram na própria pele as doçuras e amarguras do regime comunista. Os demais extratos da população não tinham idade para isso.

Essa faixa da população forma suas convicções sobre a União Soviética e seu líder máximo com base no que leram ou ouviram dizer. E, principalmente, sob a influência de fatores emocionais associados aos problemas concretos que vivenciam nos dias de hoje.

Os analistas do Levada Center elaboraram um raciocínio para explicar a surpreendente nostalgia de uma época que não foi propriamente dourada.

Os russos comuns, não sendo críticos do regime ou auxiliares próximos de Stalin (sempre sujeitos a expurgos, execuções e temporadas na Sibéria) levavam uma vida modesta, mas financeiramente estável, não sujeita a chuvas e trovoadas.

Depois da queda do império soviético, as privatizações em massa geraram uma aguda crise, na qual apressadas reformas deixavam a população em constante sobressalto, sofrendo pesadas e inesperadas perdas em seu poder aquisitivo.

O sentimento da maioria é que, no comando do país, o austero ditador fora substituído por uma nova classe de oligarcas, cuja rapacidade amesquinhava a outrora poderosa economia soviética.

A pesquisa do Levada mostrou que muitos russos lamentavam o fim de uma era onde “costumava haver  mais justiça social e o governo trabalhava para o povo, cuidando dele carinhosamente, como um pai…”

Minimizando o sangue que o camarada Stalin derramou, ele agora está sendo visto como o símbolo desta velha Rússia, hegemônica sobre metade do mundo, temida até pelos EUA.

Putin parece aproximar-se de Stalin no inconsciente popular. Ele também  é um líder autoritário, na tradição dos grandes chefes de Estado russos como Ivã, o Terrível, Pedro, o Grande, o feroz czar Alexandre III e ,é claro, o camarada Stalin.

Membro deste cast estrelado, Putin,  mostrou-se duro com os odiados oligarcas (botou alguns na cadeia), encarou os EUA e alimentou esperanças do país voltar a ser grande e do seu povo viver melhor.

No passar do tempo, Putin não mudou, mas a Rússia, sim.

As sanções dos EUA e da União Europeia pela anexação da Crimeia e as enormes despesas militares na guerra da Síria e nos conflitos com a OTAN cobraram duro preço na economia russa e no dia-a-dia dos cidadãos.

Recentes pesquisas do Centro de Pesquisas de Opinião Pública revelou uma queda da confiança em Putin de 33,7% em relação ao resultado da pesquisa de 2006.

É um reflexo do baixo crescimento da economia (o PIB deve crescer apenas 1,4%, neste ano), do declínio nos rendimentos das pessoas e da revolta contra a proposta de reforma da Previdência, que aumenta a idade mínima para aposentadoria (Reuters, 21 de janeiro de 2019).

Ainda assim o índice de aprovação de Putin é muito alto, por volta de 60%.

Por sua vez, Stalin continua surfando na nostalgia dos tempos comunistas. Mesmo em ex-repúblicas da União Soviética, que se sentiram felizes ao se livrarem da incômoda dependência à mãe Rússia.

Em uma delas, a Armênia, pesquisa do Carnegie Endowment revelou que, para 38% dos cidadãos , “será sempre necessário  ter um líder como Stalin”.

 

 

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