Revelado plano secreto saudita para arruinar a Turquia.

O príncipe coroado da Arábia Saudita não se emenda.

Como governador de fato do país ele já se lançou em uma série de ações que, além de receberem duras condenações da comunidade internacional, fracassaram estrepitosamente.

Começou fazendo guerra ao Iêmen, o que provocou a maior crise humanitária da atualidade. E que se agrava pois a guerra, que já dura quase cinco anos, não parece próxima do fim.

Em seguida, o príncipe Mohamed, apelidado MBS, tentou desestabilizar o Qatar. Pintou mais uma crise no Oriente Médio, mas felizmente, o governo qatariano reagiu e MBS colheu mais uma derrota no seu jardim de ideias venenosas.  

Numa tentativa de forçar os palestinos aceitar as ideias básicas do plano Trump para a crise palestina, que liquidava a fundação de um Estado palestino independente. Novamente o maligno príncipe não teve êxito pela oposição dos dirigentes palestinos e, principalmente, do rei Salman, que ainda é quem tem a última palavra no reino.

O último feito de MBS teve as piores repercussões em todo o mundo, deixando-o mais sujo do que pau de galinheiro. Refiro-me ao assassinato do jornalista Khassorgi no consulado saudita em Istambul, Turquia, ordenado pelo príncipe. 

Diante das pesadas críticas que vieram de toda a parte, MBS ficou louco de raiva. Os fatos que passo a informar mostram que o príncipe esperou pacientemente que a onda de repulsa despertada por seu crime amainasse.

Julgou então que era a hora certa para a onça beber água.

Sua reação parece num documento altamente secreto que o Middle East Eye teve em mãos e divulgou em artigo e comentários de David Hearst (Middle East Eye, 05/08/2019). Todo o furor do príncipe coroado concentrou-se em um plano para destruir Erdogan e, por extensão, desestabilizar seriamente a própria Turquia.                                                                                                   

Porque Erdogan mereceu se tornar o alvo das flechas principescas?

MBS atribui ao presidente turco grande parte da culpa pelo tamanho do escândalo internacional que o atingiu pois “Erdogan…longe demais na campanha para difamar o reino, especialmente o príncipe coroado, usando da maneira mais repreensível o caso de Khassoggi.”

Por encomenda do príncipe ao Centro de Política dos Emirados, um think tank de ligações estreitas com o governo da União dos Emirados Árabes e seus serviços de segurança, elaborou um plano de vingança para destruir Erdogan e, por tabela, a Turquia, que ele preside.

Seus detalhes aparecem num relatório secreto intitulado Monthly Report on Saudi Arabia” enviado apenas para um círculo reduzido de  autoridades sauditas e dos Emirados, que não aparece no site do think thanlk.

O objetivo do plano é usar de “todas as possíveis ferramentas para pressionar o governo de Erdogan, enfraquece-lo e conservá-lo preocupado com assuntos domésticos, na esperança de que a oposição o derrubasse, ou focá-lo no enfrentamento de crise após crise, e força-lo a se descuidar e cometer erros que a mídia certamente destacaria”.

Com base nesse objetivo, o príncipe determinou golpear a economia turca, pressionando pelo fim dos investimentos sauditas na Turquia e pela redução gradual do turismo saudita nesse país e  das importações de produtos turcos pela Arábia Saudita. Também se buscaria minimizar a liderança internacional do governo Erdogan na discussão de questões islâmicas.

Esse ataque já começou.

As autoridades do reino impediram a entrada no país de 80 caminhões turcos transportando produtos têxteis e químicos. 300 containers carregando frutas e vegetais foram bloqueados no porto de Jedá, de acordo com informações prestadas sob anonimato por funcionários turco ao Middle East Eye.

Os investimentos diretos dos sauditas na Turquia chegam a cerca de dois bilhões de dólares (informações do ministério do Exterior do país, em 2018). O comércio exterior entre os dois países é importante. A Turquia exporta perto de 2,64 bilhões de dólares e importa 2,32 bilhões.

O turismo saudita na Turquia também pesa muito na economia de Ancara, Nos primeiros seis meses de 2019, houve um decréscimo de 155% no ingresso de visitantes sauditas (dados oficiais do ministério de Turismo turco).

Aparentemente a estratégia maligna do príncipe coroado pode ter efeitos devastadores na economia turca e na situação política de Erdogan.

Para expressar um sinal de menosprezo à posição de Erdogan, foi recomendado pelo comitê de assessores de MDS que o presidente turco não fosse convidado para uma reunião de alto nível da Organização de Cooperação Islâmica, em Meca, que deve reunir os líderes das nações dessa comunidade, com exceção de Assad, Rouhani e o sheik Hamad al-Thani (do Qatar), posteriormente incluído.

O rei Salman teria concordado com a exclusão de Erdogan.

O governo de Ancara alega estar a par desta tempestade que se avoluma sobre Erdogan e seu país.

Um alto funcionário turco, sob anonimato, informou que as autoridades locais tinham sacado a jogada de MSB, através de postagens sociais apoiadas pelo governo saudita e da mídia estatal, que abertamente apelam por um boicote.

Segundo ele, “ as chegadas de turistas estão diminuindo, ao mesmo tempo em que estamos tendo problemas. Mas, nós estamos seguindo a situação de perto.”

Por sua vez, oficialmente, Ancara diz não acreditar que os viajantes sauditas estejam modificando seu interesse pela  Turquia, apesar dos esforços de Riad. “Istambul, por exemplo”, diz um dos informantes,” está ainda repleto de turistas sauditas. As autoridades sauditas deveriam checar a pesquisa da BBC sobre a popularidade de Erdogan no Oriente Médio. Eles perceberiam que estão fracassando.”

Erdogan está fazendo a sua parte. Telefonou para o rei Salman, levantando o problema das exportações do seu país retidas em portos sauditas. Um outro funcionários turco, falando sob anonimato, contou que essa conversa telefônica foi simpática e agradável e o rei Salman foi cordial. Tratou-se, entre outras questões, da Síria e da Palestina, onde as opiniões de ambos convergem: são adversários do governo Assad e de uma solução que desagrade aos palestinos.

Contudo, nada transpirou sobre uma possível ordem de Salman para liberar as viaturas transportando mercadorias turcas.

Teria o rei se proposto a conter a raiva que ferve no seu palácio?

 Teria o plano de destruir Erdogan e seu país sido criado e executado à revelia do rei Salman?

A resposta será  positiva se os produtos turcos retidos na fronteira sejam liberados e Erdogan, convidado para a reunião da organização islâmica.

Mas, e em caso contrário?

Acho que provaria sua aprovação ao projeto do Centro de Política dos Emirados e da sua justificação: os turcos não teriam oferecido informação específicas e honestas à posterior investigação saudita do caso. Pelo contrário, espalharam desinformações para a mídia “todas visando distorcer a imagem do reino e tentar destruir a reputação do príncipe coroado “.

Acho este presumido objetivo sem sentido: a reputação do príncipe coroado já estava na lona, graças ás suas anteriores malfeitorias. Com o affair Khassogi, apenas piorou.

Não creio que haja dúvidas quanto à responsabilidade principesca no atentado. A esta conclusão chegaram a investigação da CIA,  personalidades internacionais, o Congresso americano), especialistas de méritos reconhecidos e a investigadora do Comitê de Direitos Humanos da ONU,  Agnes Calamard, que afirma ser MBS quem ordenou a morte de Khassoggi.

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