Rachadura na frente anti-Irã.

Em maio, explodiram bombas em dois petroleiros sauditas no estreito de Ormuz, em águas territoriais da União dos Emirados Árabes (UEA).

Sem perder tempo, os EUA e a Arábia Saudita acusaram seu desafeto, o Irã.

Os Emirados não os acompanharam. Limitaram-se a anunciar uma investigação para apurar os fatos.

Foi uma grande surpresa, os Emirados eram ativos parceiros dos americanos e sauditas na campanha de “máxima pressão” sobre os iranianos.

Seu governante de fato, o príncipe herdeiro Mohamed bin Sayed vem sendo um fraternal aliado do príncipe Mohamed bin Salman, que governa, também de fato, a vizinha e mais poderosa Arábia Saudita. Ambos costumam apoiar a política externa dos EUA de Donald Trump.

Quando o reino de Ryadh formou uma coalizão para invadir o Iêmen, visando derrotar o governo dos houthis e repor em seu lugar o presidente Hadi, por eles destituído, os Emirados aderiram.

E, de forma exemplar: enquanto a participação dos demais membros da coalizão foi pouco mais do que simbólica, o príncipe bin Sayed pôs em campo fortes contingentes de forças terrestres e aéreas.

Durante os quase cinco anos de guerra, elas apresentaram performance destacada, especialmente no sul, tendo sido fundamentais na recuperação do porto de Aden,  a maior cidade dessa região.

Tanto na guerra do Iêmen, quanto no conflito com o Catar, onde os governos de Ryadh e Abu Dhabi também estiveram juntos, o casus belli fora combater a influência do Irã no Oriente Médio.

Daí o espanto ao se ver os Emirados, em vez de apontarem o dedo para os iranianos, optarem por uma saída neutra: a verificação dos fatos.

O espanto ficou ainda maior quando seu inquérito não concluiu pela responsabilidade do Irã, alegando falta de evidências.

Dois meses depois, nova decisão inesperada: os Emirados anunciaram que estavam começando a reduzir seus efetivos militares do Iêmen. A razão invocada foi a mudança de sua estratégia no Iêmen: em vez de bombas, passariam a usar diplomacia.

Ao mesmo tempo, a UEA procurou sossegar os amigos sauditas, lembrando que sus soldados seriam substituídos por  milicianos treinados em Abu Dhabi, mais exatamente, noventa mil (Foreign Policy, 01-08-2019).

Um mês depois viu-se que boa parte deles não se limitavam a combater os houthis.

Aliados a outros grupos, estavam empenhados em lutar pela secessão do sul do Iêmen, com a criação de um Estado independente.

Esta região estava sob o controle das forças iemenitas do presidente Hadi, desde a expulsão dos houthis pela coalizão liderada pelos sauditas.

Nos primeiros dias de agosto, tropas separatistas do CTS (Conselho Transicional do Sul) atacaram Aden, apoiadas por ataques aéreos promovidos por aviões dos Emirados.

Em meados de agosto, Aden caiu, juntamente com Zingibar e outras localidades sulistas.

O presidente Hadi protestou junto a seus patronos, os sauditas, exigindo que os Emirados interrompessem sua ajuda ao movimento secessionista.

O governo de bin Sayed veio com uma frágil desculpa, seus aviões atacavam especificamente grupos terroristas alinhados com as tropas pró-Hadi.

Os sauditas apoiaram o presidente iemenita, houve algumas reuniões buscando interromper esta divisão entre os invasores. Mas ficou nisso.

As bombas dos Emirados continuam caindo.

Neste mês de setembro, o comando das tropas pró-Hadi está concentrando efetivos para lançar um novo ataque contra os separatistas. Um reforço de peso chegou recentemente: grande volume de armamentos pesados provenientes da Arábia Saudita.

Por seu lado, milicianos que vinham participando do cerco de Hodeida, em poder dos houthis, vem sendo retirados para se unirem às tropas separatistas restabelecidas em Aden.  

É claro que, com esta luta interna, a ofensiva da coalisão contra os houthis está perdendo gás.

Sua paralisação pinta como provável, caso Hadi e os separatistas não se entendam logo.

Preocupados, os sauditas apelam por um cessar-fogo, seguido por negociações de paz.

Apesar de serem parte do problema, os Emirados se juntam a eles, não querem romper a amizade tradicional entre as duas monarquias.

Um acordo final não será fácil, pois os objetivos no Iêmen de Riadh e Abu Dhabi são diferentes.

O que a Arábia Saudita deseja é acabar com os houthis, o que faria os aiatolás arrancarem as barbas, furiosos por perderem a chance de entronizar seus aliados no governo do Iêmen.

Já  Emirados têm por objetivo garantir navegação livre pelo estreito de Bar al-Mandeb, por onde passa grande parte do seu comércio externo. Um estado independente no sul do Iêmen, criado com a ajuda do príncipe Mohamed bin Sayed, lhes ofereceria a segurança desejada no litoral do estreito.

Enquanto as facções apoiadas pela duas potências continuarem brigando, a guerra do Iêmen e o controle de Bar al-Mandeb seguirão cada vez mais indefinidos.

Como as coisas vão acabar, não sei.

O certo é que os Emirados estão mesmo se aproximando de Teerã a largas passadas.

Sobram motivos para este lance ousado.

O principal é o justo receio de que o conflito Irã-EUA (acolitados pela Arábia Saudita, Israel e a UEA- até agora) passe das trocas de ameaças para lançamentos de mísseis em profusão.

No caso de guerra, os Emirados teriam tudo para serem alvos dos ataques iranianos, não só por abrigarem bases americanas, mas também pela proximidade entre os dois países do Golfo Pérsico.

Somente o estreito de Ormuz os separa.

Abu Dhabi fica a um pulo do território iraniano e praticamente não tem defesas capazes de encarar os mísseis da república islâmica.

Será que a UEA têm motivos para participar de uma frente anti-Teerã a ponto de arriscar sua segurança?

Os EUA têm, eles não admitem a hegemonia de um país hostil no Oriente Médio .

A Arábia Saudita quer este papel para si e também teme a expansão de um país republicano e shiita- dois pecados mortais para a potência terrivelmente monárquica e sunita.

Por sua vez, os Emirados nem aspiram hegemonias, nem se assustam com as intervenções do Irã na Síria e no Líbano, nem mesmo se preocupam com as preferências políticas e religiosas do regime de Teerã.

Pelo contrário, a convivência com os iranianos tem sido historicamente intensa e tranquila.

Em 2017, antes da exacerbação da política americana de “máxima pressão”, os Emirados eram os maiores parceiros comerciais iranianos em todo o Oriente Médio (AP News, 10-o8-2019).

Mesmo durante os anos em que as duas nações militavam em campos opostos, suas embaixadas continuaram funcionando normalmente.

E, conforme o professor Andreas Krieg, do King´s College, de Londres, informa no TRT World :”Até hoje, apesar das novas sanções sobre o Irã, a UEA manteve relações comerciais muito profundas com o Irã, importando produtos de aço e metal, e permitindo aos iranianos lavarem seu dinheiro, especialmente em Dubai, violando as sanções dos EUA.”

Depois do novo realinhamento dos Emirados, que ora se esboça, o comércio com o Irã deve se expandir. Estima-se que alcançará de 20 a 25 bilhões de dólares anuais, bem acima do volume atual que vai de 10 a 15 bilhões (Emirates Leaks, 10-08-2019).

Sinal claro de que as coisas estão mesmo mudando na política dos Emirados, foi a recente reunião em Teerã, de autoridades dos dois países, para discutirem a segurança marítima no estreito de Ormuz.

“As partes assinaram um memorando de entendimento, estabelecendo compromissos de cada um e a disposição de se realizar reuniões semestrais para posterior coordenação e acordos para encarar ameaças à segurança das duas nações. Este desdobramento pode significar a disposição do governante de fato da UEA, o príncipe coroado Mohamed bin Zayed, de se distanciar da aliança com o o saudita bin Salman, que vê o Irã como o mais ardente rival do reino (Irish Times, -06-08-2019).”

Para você ter uma ideia, uma reunião semelhante não acontece há seis anos.

Acredito que a União dos Emirados Árabes pretende continuar amiga dos EUA e da Arábia Saudita, mas vai insistir na neutralidade em relação ao Irã.

Para Teerã, esta nova postura da UEA está sendo saudada com fogos de artifício e garrafas de Arak.

Já a coalisão Trump-sauditas deve estar rangendo os dentes diante do desfalque de um parceiro importante.

Não sei como eles irão reagir.

Do errático The Donald e do feroz príncipe coroado bin Salman não se espera nada de bom.

É simples assim.

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