Putin, Poroschenko e Trump: as mentiras não saem de moda.

No dia 25 de novembro, a Marinha russa apreendeu três barcos militares ucranianos que tentavam entrar no Estreito de Kerch, localizado entre a Rússia continental e a península da Crimeia, ligando o Mar Negro ao Mar de Azov.

Tendo sido a Crimeia anexada por Moscou, depois da revolução que derrubou o governo legal pró-Rússia, o estreito é atualmente parte do território administrado pelo Kremlin.

A Marinha do governo Putin controla a passagem pelo Estreito de Kerch, exigindo aviso prévio dos navios que por ali circulam.

Segundo os ucranianos, esse aviso foi enviado. A Marinha russa nega, devido a esta alegada omissão, atirou nos barcos de Kiev ferindo ligeiramente três marinheiros.

Os três barcos e respectivas tripulações estão agora so custódia russa, cujos procuradores falam em abrir processos para punir uma conduta que violaria as leis da navegação.

O governo do presidente Poroschenko subiu nas tamancas, protestando contra esta ação “violenta e ilegal “, que, ele teme, poderia ser o prelúdio de uma invasão russa do seu país.

Sem demora, decretou a lei marcial, pedindo apoio do Ocidente, auxílio militar da NATO e a aplicação pela União Europeia de sanções ao governo Putin.

Aparentemente, The Donald o atendeu.

 

40 minutos depois de garantir à imprensa que teria um importante encontro com Putin, durante a conferência do G-20, em Buenos Aires, o americano voltou atrás.

E o fez, através de um tuite: ”Baseado no fato dos barcos e marinheiros não voltaram à Ucrânia vindos da Rússia, eu decidi que seria melhor para todas as partes envolvidas cancelar meu encontro já programado.”

Não se deve esperar que os grandes líderes falem sempre a verdade. Ainda mais o morador da Casa Branca…Tudo indica que o motivo real da desistência foi outro:  desviar a atenção do público americano da retratação do testemunho do ex-advogado presidencial, Michael Cohen, perante uma corte de justiça.

Anteriormente, Cohen jurara diante da investigação do Russiagate que em 2016 não havia mais nenhum negócio das empresas Trump na Rússia.

Reconhecendo ter mentido, ele disse agora que projeto de construção de uma Torre Trump em Moscou continuou a ser tocado até junho de 2016. Garantiu, que, muitas vezes, ele discutira esse negócio com Trump e membros da família. Inclusive chegou-se a analisar a conveniência do presidente americano viajar a Moscou para tratar do assunto.

Cohen também afirmou que se comunicara com o secretário de imprensa de Vladmir Putin, Dimitri Peskov, pedindo ajuda para o projeto avançar, focando inclusive questões relativas a financiamentos e ao terreno a ser ocupado.

A retratação do falso testemunho do ex-advogado pessoal de Trump teve grande repercussão nos EUA. Ela contradiz repetidas negativas do morador da Casa Branca de que nem ele, nem pessoas do seu cercle intime, tiveram qualquer contacto com autoridades russas.

Essas novas revelações podem respingar em Donald Trump Junior, filho e executivo senior das empresas do papai.

Há agora grandes riscos de também ele ser processado pois certas declarações que fez no comitê judiciário do Senado foram contestadas por novas informações que vieram a público.,

Trump Junior tinha assegurado que nenhum governo, que não o russo, havia se oferecido a ele para prestar ajuda na campanha presidencial do papai, em 2016.

Em maio deste ano, o New York Times revelou que representantes da Arábia Saudita e da União dos Emirados Árabes fizeram exatamente o que o filho de Trump negou ter acontecido.

Á primeira vista, todas estas mentiras não passariam de muito barulho por nada.

Afinal, não é crime desenvolver o projeto de construção de um prédio no exterior. Ou receber ofertas de governos amigos para ajudar a campanha presidencial do pappai.

O que cheira mal são os esforços de The Donald e seu time para negarem fatos de tão pouca (ou nenhuma) gravidade.

Porque eles se arriscaram a sofrer duras punições, mentindo numa investigação congressional? Isso, sim, é grave.

O ex-promotor público , Barb McQuade, acha que o falso testemunho de Cohen é “potencialmente muito significativo”, especialmente pelo advogado ter admitido que mentira, “na esperança de interromper o  andamento das investigações sobre a Rússia.” E McQuade conclui: “Certamente o simples fato de estarem negociando com a Rússia não era de nenhum modo ilegal, portanto o que mais eles tentam esconder com isso.”

O depoimento de Cohen não representra uma evidência, no entanto trata-se de um indício extremamente instigante de que o conselheiro Mueller, chefe das investigações do Russiagate, prepara-se para aprofundar.

Quanto ao affair do Estreito de Kerch, como as interpretações das partes rivais divergem, alguém está mentindo.

Teriam os barcos ucranianos prevenido de modo regulamentar suas intenções de navegar pelo estreito, como diz Poroschenko?

Ou, de acordo com Putin, não cumpriram essa obrigação, tornando-se assim invasores de águas russas?

O governo de Kiev acusa as autoridades russas de estarem progressivamente criando obstáculos à passagem de navios ucranianos no Estreito, apesar dos avisos jamais faltarem. Até agora, de um jeito ou de outro, os problemas foram evitados

Desta vez, deu rolo.

Para alguns analistas, sendo ou não responsável direto pela ação agressiva de sua Marinha, o fato é que Putin estaria aproveitando o conflito para promover sua imagem de machão junto à população russa, descontente com a situação econômica difícil do país.

Já para o Kremlin, Poroschenko criou uma tempestade num copo de água, para ser visto pelo seu povo como um corajoso defensor da mãe-pátria. Tudo não passaria de um lance de marketing tendo em vista as próximas eleições presidenciais, em março de 2019. Na verdade, ele bem que precisa: seu índice nas pesquisas dos candidatos a presidente não passa de 8%, sinal claro da rejeição popular a seu governo, manchado pela corrupção.

Confesso que não sei qual dos dois presidentes é o culpado.

Só espero que ambos tenham bom senso e aceitem a oferta de mediação feita pela sábia primeira-ministra, Ângela Merkel.

O mundo não precisa de mais ameaças de guerra.

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