Progressistas vencem primeira batalha no Partido Democrata.

Em 2018, pesquisa da Pew Research mostrou uma enorme modificação no Partido Democrata diante do eterno conflito entre Israel e palestinos.

Na pesquisa de dois anos atrás, Israel era preferido por uma grande maioria dos membros do partido – 43% versus 29%, avantajando-se por uma diferença de 14%.

Já em 2018, havia praticamente um empate técnico, 27% x 25%, Israel na frente por apenas 2%. Seguindo esta tendência, no Partido Democrata de hoje a causa palestina deve ser perfilhada pela maior parte dos seus membros.

Um reflexo deste quadro foi a eleição de grande número de candidatos progressistas ou socialistas-democratas que, aliados a  liberais com ideias afins, assumiram posição de destaque na Casa dos Representantes. Foi um crescimento vertiginoso que multiplicou o pequeno número de representantes que estes grupos vinham tendo.

Esta inflexão para a esquerda operou-se principalmente sob impulso da campanha presidencial do senador Bernie Sanders, que empolgou grande número de jovens. No entanto, os líderes tradicionais, em geral conservadores ou liberais de centro-direita, que sempre dominaram o partido, continuam poderosos. Embora não mais maioria no Partido Democrata, esses grupos conseguiram garantir muitas cadeiras no novo Congresso, talvez mais do que a soma dos progressistas e dos liberais aliados.

Esta divergência se manifestou a partir de um debate entre Ilhan Omar, uma das duas primeiras mulheres muçulmanas eleitas para a Casa dos Representantes, e apoiadores contumazes das causas de Israel, inclusive parlamentares tanto republicanas, quanto democratas.

Omar criticou basicamente a influência de Israel e seus lobbies , especialmente a AIPAC, sobre o governo e parlamentares americanos que costumam desfrutar de doações que essa entidade lhes propicia.

“Quero falar…da influencia política neste país que diz ser OK para pessoas que pressionam pela fidelidade a uma nação estrangeira. Quero perguntar porque serei OK se eu criticar a influência da NRA (lobbie das armas) ou das indústrias de combustíveis fósseis ou das grandes farmacêuticas e não (é OK) falar sobre estes poderoso lobby (a AIPAC) que influencia a política.”

De fato, criticar Israel na sociedade americana é um ato pelo menos temerário.

A jovem deputada muçulmana estava abrindo uma caixa de Pandora, de onde importantes entidades e cidadãos, tomados de santa fúria, saíram a público lançando malignos ataques.

O congressista democrata Juan Varga, por exemplo, não vacilou em sacar seu axioma: “Questionar o apoio ao relacionamento EUA- Israel é inaceitável.”

Afinal, segundo outro representante, tanto os democratas, quanto os republicanos estão comprometidos a garantir que “EUA e Israel sejam um só.”

Como era inevitável, as críticas a Israel e as seus lobbies foram imediatamente classificadas como anti-semitas

O congressista democrata Eliot Engel acusou Omar de ter proferido um ”vil insulto anti-semita”. Talvez por coincidência, este cidadão que é o presidente do Comitê de Assuntos Externos da Casa, já recebeu um milhão e setenta mil dólares para suas campanhas, fruto da magnanimidade de milionários da AIPAC.

Formou ao lado dele o senador Kirsten Gilibrand, outro democrata, que disse até aceitar críticas a Israel, desde que “feitas sem jargões anti-semitas sobre dinheiro e influência.” Também por eventual coincidência, ele já recebeu 367 mil dólares em doações da generosa gente do lobby pró-Israel.

A verdade é que Omar nunca acusou os judeus americanos de dupla fidelidade por defenderem Israel. Nem foi preconceituosa em relação aos judeus. Nem censurou supostas características negativas da raça judaica.

O que provocou as iras dos seus adversários foi a crítica ao governo americano e aos congressistas por apoiarem Israel incondicionalmente e serem surdos aos sofrimento dos palestinos, bem como à AIPAC que promove doações aos políticos com óbvias segundas intenções.

Diversos representantes dos dois partidos exigiram a expulsão de Omar do Comitê de Assuntos Externos , ao qual ela pertence, ou mesmo que renunciasse à sua cadeira no Congresso, como propôs o sempre teatral presidente Trump.

A jovem representante desculpou-se por ter usado uma expressão que poderia ser confundida com um jargão anti-semita. Mas manteve seu conteúdo.

Por pressão de indignados elementos da bancada democrata, a presidente da Casa dos Representantes, Nancy Pelosi, redigiu o esboço de uma resolução contra o anti-semitismo, envolvendo Omar, embora de forma implícita. No entanto, mesmo assim  passava uma ideia de censura à congressista pelo seu audacioso comportamento.

Contra esse novo McCartismo que já pintava, choveram protestos de várias organizações, inclusive judaico-americanas, como a J Street. Não ficaram omissos os senadores Bernie Sanders, Elizabeth Warren e Kamala Harris, principais figuras dos setores progressistas, que defenderam Omar e suas ideias.

Apesar de Nancy Pelosi insistir que a resolução não era contra a jovem muçulmana, acabou concordando em se reunir com  representantes das tendências partidárias para discutir a questão.

Na verdadeira batalha que se travou, os progressistas, que no moderado Partido Democrata são rotulados como esquerdistas,  saíram ganhando.

Ficou de fora qualquer menção negativa, ainda que indireta, á congressista muçulmana.

Chegou-se a um texto que deixava de atacar exclusivamente o antissemitismo para voltar-se contra todo tipo de preconceitos: supremacia branca, islamofobia, racismo, anti-imigrantes, anti-LGBT- além de antissemitismo.

Apresentada no plenário, a resolução foi aprovada por 407 votos contra 23, sendo que 234 vieram de representantes democratas e 173 de republicanos. Os 23 votos contrários foram todos de republicanos.

O jornal americano Politico concluiu,: “Foi uma nítida vitória de Omar e dos seus aliados da esquerda.”

Parte dos grupos envolvidos na defesa de Omar achou que não foi suficiente. Perdera-se uma chance de também questionar a ocupação da Palestina por Israel.

Jeff Cohen, co-fundador da ong RootsAction, fez essa ressalva, porém, concordou que a resolução era muito importante  pois “marcava uma reviravolta no apoio cego do Congresso à subjugação israelense dos palestinos.”

O movimento de jovens judeus americanos, IfNotNow salientou outro aspecto: ”Nós estamos numa nova era onde a crítica às políticas injustas de Israel não são simplesmente equiparadas ao anti-semitismo. Esta é uma vitória (Mondoweiis, 8-3-2019).”

A organização Voz Judaica pela Paz disse que queria mais, através do seu vice-diretor, o rabino  Alissa Wise: “Enquanto as justas criticas a Netanyahus, à AIPAC e aos maus tratos sofridos pelos palestinos continuam sendo falsamente atacados como anti-semitas, as ameaças dos supremacistas brancos continuam.”

Mas, concluiu: “Estamos felizes por ver que a resolução condena o fanatismo real, em vez de ir atrás da representante Ilhan Omar e sua visão de um mundo livre de fascismo e opressão.”

Apesar de ter votado a favor, o representante Doug Collins não perdeu a chance de fazer ironia: ”Cá estou…debatendo uma resolução que todos nós devemos ter aprendido no jardim de infância; ‘Seja bonzinho. Não odeie.”

Em matéria de ironia, ninguém a páreo para The Donald.

Depois de ter afirmado haver gente muito boa entre os supremacistas brancos de Charlottesville, que carregavam faixas nazistas, cantando “os judeus não nos substituirão”, ele atacou o Partido Democrata por suposto antissemitismo.

Num melancólico cenário hibernal, com fundo de árvores despojadas e céu cinzento, The Donald, sombrio, lamentou que os democratas tenham se tornado um partido anti-Israel e anti-judeus…

Embora muitos o considerem um canastrão, acho Trump um bom ator, interpretando um péssimo papel.

Nas eleições do ano que vem, quando seu espetáculo terminar, veremos se ele colherá aplausos ou vaias, ovos e tomates podres.

 

Uma ideia sobre “Progressistas vencem primeira batalha no Partido Democrata.

  1. Nossa Luiz, vi o discurso de lançamento da candidatura presidencial do Bernie Sanders. Na empolgação, pensei: “será que o Luiz já publicou algo sobre isto!”
    Chego aqui e dou de cara com este texto.
    Obrigado Luiz, estás a frente da imprensa, grande imprensa digo, afinal vc com estes dados nos dá uma visão mais profundo do movimento que estamos vivendo!
    Quando li o discurso, a plataforma que el propõem…New Deal verde! Como? Nos EUA? Saúde para todos? Sistema de saúde, público, universal!!
    Na minha santa ignorância, não achava possível! Pensava é delírio, de um grande político de esquerda…
    Aí chego no teu artigo, e fico pasmo, que este movimento já tem esta estatura, esta dimensão?
    Olho fico feliz, é otimista, meu caro! Tempos melhores virão, tenho certeza!
    Luiz, te pergunto? Será que está ocorrendo uma revolução pacífica, no modo de pensar da sociedade americana? É bem na nossa frente?
    Sei, sei… tu me dirás: Arlindo, já não temos idade para acreditar nos políticos!
    “Vero”! diriam os italianos! Mas, convenhamos meu amigo, o que seria a vida tb sem as utopias!
    Luiz estou compartilhando teu texto, com amigos, e no primeiro churrasco que o Maurício estiver liberado vamos fazer uma roda? O que achas?
    Esta revolução ocorrendo nos EUA, e a gente tendo a oportunidade de discuti-la com todas estas tuas fontes! .,.
    Segue nosso lema: “por um mundo melhor, picanha e vinho”.. Sei, a contradição em uma única frase: associar o agronegócio da picanha e um mundo melhor, mas o que fazer!
    Na linha do Slow Food, podemos acrescentar, que a carne é “orgânica”! Abraço Luiz.

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