Príncipe saudita: sem Palestina independente, nada de relações com Israel.

Depois do jantar da cúpula de Varsovia, um Netanyahu (Bibi para os amigos) eufórico celebrou o fato de ”… um primeiro-ministro israelense e ministros dos principais países árabes estavam juntos e falaram alto, de forma clara e unida, contra o risco do regime iraniano”.

Os países dos comensais de Netanyahu eram Arábia Saudita, Oman, Emirados Árabes Unidos e Bahrein. Nenhum deles tem relações diplomáticas com Telaviv, como, aliás, quase todos os demais povos árabes

A alegria do primeiro-ministro duro pouco.

No mesmo dia, entrevistado em Londres pelo Canal 13, de Israel, o príncipe Turki bin Faisal al Saud jogou um balde de água gelada em Netanyahu. Ele não é uim príncipe qualquer, desses que se encontra aos montes nos casinos da Côte d´Azur. Turki foi chefe da inteligência saudita durante vários anos, além de embaixador em Washginton e Londres e de pertencer ao cercle intime do rei Salman.

Ele acusou Bibi de enganar o público israelense, afirnando que os laços de Israel com o mundo árabe poderiam se aquecer, sem que a questão da Palestina fosse resolvida.

E o príncipe não parou por aí:

“Do ponto de vista israelense, Netanyahu gostaria que nós tivessemos um relacionamento e depois poderíamos resolver o caso da Palestina. Do ponto de vista saudita, é o contrário.”

O príncipe Turki não costuma apalpar, vai logo nos conformes.

Quando os EUA reconheceram Jerusalém como capital indivisível de Israel, ele enviou carta a Donald Trump, que dizia: “Mr Trump, Jerusalém não é a capital de Israel.O seu país foi um dos arquitetos da resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU que estabelece claramente a inadmissibilidade da aquisição de territórios pela guerra.”

Foi assim que o exército de Israel tomou Jerusalém, apesar da ONU ter decidido que a cidade deveria ser dividida por acordo entre árabes e judeus.

Continuando, o príncipe revelou; ‘O público saudita tem “ uma visão muito negativa de Mr.Netanyahu devido ao que está acontecendo na região” e porque condena “a atitude arrogante de Netanyahu… se auto-elogiando.”

Perguntado como ele aconselharia o presidente americano, no momento em que prepara o plano de paz para a Palestina, Turki foi sintético: ”Iniciativa Árabe de Paz  – assuma e diga que é sua.”

É simples assim.

Não para The Donald.

Seu parceiro Bibi, a quem Trump faz todas as vontades, jamais aceitaria as idéias básicas da Iniciativa Árabe.

Veja só: criação do Estado Palestino nas fronteiras de 1967, com trocas de blocos de assentamentos por territórios israelenses, tendo Jerusalem Oriental como capital, e uma “solução justa” para os milhões de refugiados palestinos expulsos por Israel nas guerras de 1948 e 1967.

Em retorno, Israel ganharia reconhecimento por todos os países árabes, o fim das hostilidades do Hamas e afins, mais o estabelecimento de relações normais entre Israel e o Estado Palestino.

Sabe-se que o príncipe costuma reproduzir fielmente as posições oficiais do reino saudita.

O rei Salman já afirmou seu comprometimento com a independência da Palestina.

Em reunião com Mohamed Abbas, o presidente da Autoridade Palestina, ele garantiu apoio à Iniciativa de Paz Árabe, declarando, com todas as letras, que rejeitaria um plano de paz que não tornasse Jerusalém Oriental capital do novo Estado palestino e negasse a volta ou indenização dos refugiados expulsos por Israel.

Meses depois, coerente com suas posições, o rei Salman abriu a conferência do Conselho das Nações do Golfo apelando para que os países membros (Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Kuwait, Qatar e Arábia Saudita) protegessem o povo palestino e pedindo à comunidade internacional que cumprisse seu dever, tomando as medidas necessárias para proteger os palestinos das práticas agressivas de Israel, tidas como provocações aos árabes e muçulmanos (The National, 10-12-2018).                                                                                                                                                                                                                                                                                                                       A imprensa internacional tem noticiado muitas vezes que o príncipe herdeiro coroado, Mohamed bin Salman, o conhecido MBS, vinha mantendo conversas amigáveis com Israel já que ambos estão loucos para acabar com o Irã.

De fato, MBS foi longe. Numa reunião com líderes de lobbies americanos-pró-Israel, ele tascou: “Está na hora dos palestinos receberem as propostas (americanas) e concordarem em vir para a mesa de negociações ou calar-se e parar de reclamar (Canal 10 de Israel, 30-4-2018, e Haaretz, 1-5-2018).”

Lembando disso, o entrevistador do Canal 13 perguntou ao príncipe Turki qual a posição de MBS? Ele discorda do pai?

Turki respondeu que não há diferenças entre o rei Salman e o príncipe bin Salman no que se refere a Israel.

E concluiu: “Israel escolhe ignorar todos os esforços da Arábia Saudita para fazer a paz, e espera que os sauditas fechem com eles e… vamos em frente com tecnologia, dessalinação de água, em assuntos assim (serviços em que os israelenses são azes).

Não vai acontecer ( Times of Israel, 14-2-2019);

Esta fala do príncipe deve ter feito Bibi subir pelas paredes.

Ele contava com que a conferência de Varsóvia tivesse produzido bons resultados, pondo os árabes no caminho de uma aliança sem pré-condições desconfortáveis, tipo agrados aos palestinos.

The Donald convocara essa reunião pensando em amedrontar europeus e árabes com o monstruoso fantasma iraniano.

Sob o estímulo negativo de um Irã maligno, preparado para bombardear seus países com infernais mísseis balísticos, portando bombas nucleares, os participantes da reunião tenderiam a dar seu amem aos EUA.

Os europeus rasgando o Acordo Nuclear com o Irã.

Os árabes, esquecendo sua exigência fantasiosa de um Estado Palestino independente, e se unindo a Israel como bons amigos, numa guerra contra o regime de Teerã.

Aposto que os signatários do acordo nuclear, Alemanha, França e Reino Unido, não vão atender aos rogos de Washington.

A mídia internacional deu um grande espaço para Bibi anunciar triunfalmente seu proclamado sucesso no jantar de Varsóvia, onde, entre duas ou tres garfadas, autoridaces de países árabes teriam se mostrado receptivas à idéia da união com Israel para confrontar o feroz Irã. Claro, esquecendo os interesses palestinos.

Netanyahu falou mesmo em uma nova éra no Orienre Médio, baseada na nascente fraternidade árabe-israelense.

Porém, o príncipe Turki foi chato.

Ao chegar de Londres, ele deu uma entrevista, em 14 de fevereiro, ao jornal al Arabya (100% pró-governo), desfazendo os sonhos de Bibi.

“Não há mudanças na posição saudita e a mídia e outros wishful thinking (realidade apenas desejada) sobre a cooperação israel-sauditas devido à ameaça iraniana é apenas isto, wishful Thinking.”

Palavras duras, uma verdadeira indigestão,  estragando o ruidoso jantar de Varsóvia.

 

 

 

 

 

 

 

 

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