Pena de morte para feminista saudita.

Na Arábia Saudita, a religião oficial é o Wahabismo, seita do ramo sunita. A prática de qualquer outra religião só é permitida em recintos fechados.

O xiismo, o outro dos dois ramos que dividem o islamismo, é adotado por 20% da população, vivendo especialmente na região leste do país.

Embora tão islamitas quanto os sunitas, eles são sistematicamente discriminados pelo governo do reino, que lhes dificulta o acesso a empregos, educação, saúde e aos atos da sua religião.

Em 2011, a Primavera Árabe trouxe uma esperança aos xiitas. No embalo das ideias de democracia e igualdade, eles promoveram uma série de manifestações de massa.

Uma jovem feminista, Isra Ghomgain participou de tudo de modo destacado, tendo filmado os protestos e marchas xiitas, inclusive a forma brutal com que foram reprimidos pela polícia saudita.

Depois do ocaso da Primavera Árabe, Isra continuou atuando nos anos seguintes, tornando-se uma líder do movimento feminista.

O governo real vê esse movimento com péssimos olhos.

Provavelmente, por isso, foi presa em dezembro de 2015, junto com seu marido e mais três ativistas xiitas.

Ela e seus companheiros permaneceram presos durante quase três anos. Em 2018, foram levados a processo no tribunal de contraterrorismo, apesar das supostas infrações terem sido de natureza pacífica.

Os réus são acusados de participação em protestos, tentativas de inflamar a opinião pública com cantos hostis ao governo, filmar manifestações e publicar textos contrários ao regime na mídia social. Tenebrosos crimes, portanto.

Os procuradores pediram a pena de morte para todos, apesar das acusações não serem reconhecidas como criminosas.

Indignada, Sarah Leah Whitson, diretora do Human Rights Watch para o Oriente Médio, comentou: “Qualquer execução é aberrante, mas pedir pena de morte para ativistas como Isra al-Ghomgam, que sequer foi acusada de comportamento violento, é monstruoso.”

É estranho que essas coisas aconteçam num país virtualmente governado por um cidadão que se diz um reformador, empenhado em tirar a Arábia Saudita da Idade Média.

O príncipe coroado Mohamed bin Salman recebeu de seu pai, o rei Salman, amplos poderes para remover todo o entulho de normas desumanas e preconceitos vigentes. Ele diz pretender promover reformas que irão colocar o reino saudita no mesmo nível de civilização das democracias modernas.

O que ele fez de bom até agora foi apenas dar às mulheres o direito de dirigir e assistir filmes num cinema.

Bem pouco, enquanto a Arábia Saudita continua sendo governada de modo despótico. Lá as liberdades fundamentais são negadas e são reprimidos duramente todos os que ousarem criticar o regime.

Cioso de atribuir a si o papel principal nos escassos avanços, o príncipe trata como inimigas as feministas, que há muitos anos lutam para conquistarem seus direitos.

Em maio, pouco antes do anúncio oficial do fim da proibição ds mulheres dirigirem, as forças de segurança sauditas prenderam 10 das mais notáveis mulheres ativistas

A explicação policial é que elas mantiveram contatos suspeitos com entidades estrangeiras e ainda oferecem apoio financeiro para inimigos d´além mar.

Não se forneceu dados sobre essas sinistrhas operações. Nem precisava. Como a mídia local é controlada pelo Estado, sua preocupação foi, isso sim, agradar o palácio real, atacando as mulheres com manchetes berrantes. Elas seriam um bando de “traidoras.” Só faltou dizerem que recebiam pagamento do diabólico Irã.

Depois do primeiro embalo, as prisões prosseguiram. O Human Ritghts Watch informa atingirem 17 ativistas femininas que fizeram campanhas pelos direitos humanos. Algumas ficaram atrás das grades por 100 dias, outras ainda estão nessa desagradável situação.

O filho dileto do rei Salman não quer que as mulheres, eletrizadas pelo direito conquistado, ganhem força para lutar por outras reivindicações do seu sexo.

Isso está totalmente fora das perspectivas principescas. Ele não admite vir a compartilhar com essas feministas possíveis reduções na vasta coleção de discriminações que pesam sobre as mulheres sauditas. A solução parece ser cortar o mal pela raiz, prendendo as ativistas e assim pondo um ponto final na sua ação.

Embora cortejado pelos governos dos EUA, Reino Unido e França, pois é um grande comprador de armas desses países, bin Salman já deixou claro que suas reformas não incluem mudar o caráter totalitário do regime.

Apesar de cantado pelos seus amigos interesseiros como “liberal”, a verdade é que, desde que assumiu os plenos poderes ora existentes, em junho de 2017, as prisões entraram num ritmo acelerado.

As execuções também. Nos 8 meses, entre julho de 2017 e fevereiro de 2018 elas chegaram a 133, numa média de 16,6 por mês. Enquanto que nos 8 meses anteriores a sua posse não passaram de 67, média de 8,4 por mês. As informações são da   Retriever, tradicional e respeitada ONG inglesa de direitos humanos.

Entidades internacionais tem apelado contra a prisão e processamento de Isra Ghamgan e seus companheiros, ainda mais numa corte criada para julgar crimes de terrorismo. Mas, o príncipe tem se mostrado cioso de sua obrigação de punir pesadamente aqueles que incomodam o regime com suas posições.

Não são boas as chances dos membros do grupo escaparem da perna de morte.

A corte que os julgará é a mesma que condenou diversos xiitas em julgamentos que a Anistia Internacional considera “grosseiramente injustos.”

Isra Ghanghan seria a primeira mulher a ser executada por ativismo. Teme-se que essa punição se torne um perigoso precedente. Depois dela, muitas outras vítimas se seguiriam.

Alguns membros do movimento pelos direitos humanos na Arábia Saudita acham que possivelmente a pena a ser decretada seria a degola.

Trata-se de um costume medieval ainda não removido pelo príncipe soi disant reformista.

Não há indícios que uma mudança tão revolucionária esteja em estudos.

 

 

 

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