Passado alveja candidatura Biden.

Em 5 de fevereiro, serão realizadas as primárias para escolha do candidato democrata à presidência dos EUA. Iowa, por ser a primeira delas, vem desde já recebendo grande destaque da imprensa.

Para os 24 pré-candidatos, o caucus de Iowa é da maior importância. Em 8 dos 9 últimos, o vencedor acabou escolhido pela convenção nacional do Partido Democrata como seu candidato.

Até fins de maio, Biden estava dando uma lavada. Conforme as pesquisas, pelo menos 30% dos eleitores democratas deveriam votar nele, contra apenas 15% a favor do segundo colocado, Bernie Sanders, deixando os demais numa longínqua rabeira, com menos de dois dígitos percentuais.

Tudo indicava que a estratégia do líder, apresentar-se como o único democrata capaz de derrotar Trump, tinha acertado na mosca.

Fazia sentido pois, enquanto Sanders era tido como muito avançado para o americano médio, Biden lhe dava a segurança de 40 anos na política, defendendo posições que não causaram estragos, como senador e depois vice de Barack Obama. Nesta qualidade, destacou-se por ser um colaborador fiel e até ativo de um presidente atualmente louvado pela opinião pública.

Na Casa Branca, ele seria uma garantia de que o país navegaria em águias calmas, livre das assustadoras tempestades provocadas pela insanidade do governo atual.

No entanto, uma notícia da NBC News deixou a campanha Biden tremendo nas bases. A rede informou que, quando senador, o ex-vice de Obama defendera a Emenda Hyde – de 1976, que proibia o Estado de financiar abortos a não ser em caso de incesto, estupro ou risco de vida da gestante.

Soube-se a seguir que, em 1981, Biden foi um dos dois únicos senadores democratas que se empenharam na aprovação de uma emenda (por sinal, rejeitada) tão radical, que acabava também com o financiamento de vítimas de estupro ou incesto.

Foi uma bomba.

Ninguém esperava algo assim de um candidato tão politicamente correto, liberal-centrista, simpático a teses da esquerda progressista, como o salário-mínimo diário de 15 dólares e a defesa do meio ambiente, ameaçado pelas leis tóxicas de The Donald.

A notícia explodiu justamente num momento em que o movimento feminino está mais pulsante do que nunca, com as mulheres democratas acirradas contra as recentes leis racistas da Geórgia e do Alabama, que vetam abortos seja qual for a situação.

Grande número de ONGs condenaram Biden duramente.

Num tuíte, a poderosa Plan Parenthood trovejou :”Apoiar a emenda Hyde é proibir as pessoas – especialmente as mulheres negras e as mulheres de baixa renda- de acesso seguro e legal ao aborto.” Carentes de recursos, seriam obrigadas a caírem nas mãos de charlatães, arriscando-se até a morrer.

O próprio Partido Democrata apoiava os direitos femininos o aborto. A sua plataforma na campanha de 2016 excluía restrições nos fundos federais. E bem antes, no pleito de 2000, Obama já fizera campanha contra a emenda Hyde.

Por sinal que, na ocasião, Biden tentou demovê-lo, alegando que perderia os votos dos eleitores católicos brancos, impedindo que vencesse (Bloomberg, 8 de fevereiro de 2012).

Diante da revelação do passado anti-aborto do ex-senador, sua vitória na importante primária de Iowa parecia estar se desmanchando no ar. Afinal, 60% das democratas do Estado já tinham se manifestado vigorosamente contra a emenda Hyde.

Biden ficou diante de uma opção aparentemente difícil: ou ele mantinha suas restrições ao aborto e se arriscava a perder ou mudava de lado, o que ficaria muito mal. E não só para os eleitores católicos, também para a opinião pública, seria considerado um oportunista já que se sabia ser ele era solidamente católico, de uma família praticante dessa religião há várias gerações.

Um dia depois da da surpresa da NBC News, Biden optou pelo conveniente, afirmando que já mudara de posição a tempos. Agora, considerava injusto impor os preceitos da sua religião ao país. Que se garantisse às mulheres direito total e irrestrito ao aborto.

Foi um autêntico flip-flop (expressão americana que significa “reversão brusca”).

Pena que a mesma NBC News informou que, 3 meses antes da mudança pública de Biden, sua campanha presidencial garantira à rede que ele continuava a favor da perturbadora emenda Hyde (VOX, 10 de junho).

Os resultados da primeira pesquisa realizada em Iowa, logo após o episódio, mostravam sinais de declínio ma imagem do ex-vice de Obama.

Segundo a pesquisa CNN/Des Moines Register, 24% dos eleitores ainda o apoiavam malgré tout. Só que, ele perdera mais de 6% em relação à pesquisa anterior.

Por sua vez, Bernie Sanders manteve seus 16%. Os concorrentes que vinham bem longe, cresceram, aparentemente herdando os eleitores perdidos por Biden. 15% estavam com Elizabeth Warren e 14%, com Butigieg.

Os chefes da campanha do político demonstraram não ficarem preocupados com a possibilidade do “efeito Hyde” crescer, expandir-se pelo país e derrubar Biden do seu pedestal de líder.

Acreditam que, com o tempo, outras questões tão ou mais desafiantes virão para primeiro plano, minimizando a discussão sobre a elástica opinião do candidato.

Possivelmente surgirão algumas surpresas, mas os principais obstáculos que Biden tem de encarar já são conhecidos.

Eles devem ser enfatizados a partir do primeiro debate entre os postulantes democratas, nos dias 25 e 26 de junho.

Apresento a seguir algumas dessas verdadeiras pedras no caminho do líder ds pesquisas, em direção à Casa Branca.

Racismo foi uma das pisadas na bola de Biden. Disse o New York Times (10 de junho de 1975) que ele havia se aliado a senadores contrários à integração.

Em entrevista a um jornal do estado de Delaware, que representava no Senado, o ex-vice de Obama atacou políticas integracionistas: “O real problema verdadeiro do busing (transporte escolar integrado para acabar com segregação) é que você pega pessoas brancas que não são racistas, pessoas que são bons cidadãos, que acreditam em igualdade de educação de oportunidades, e prejudica o crescimento das suas crianças, transportando-as para escolas inferiores…É um conceito estúpido, cuja utilidade nunca me provaram.”

Por enquanto, a maior parte do eleitorado negro está com Biden, provavelmente por associar o candidato a sua antiga posição de vice e amigo de Barack Obama.

Se os adversários de Biden souberem utilizar essa mancha no passado dele, vai ser duro manter a maioria dos eleitores negros fiel a sua candidatura.

Biden é acusado de ter sido o mais ardente defensor das empresas de cartões de crédito. Em muitos debates no Senado, ele teria se empenhado na aprovação de leis em benefício destas corporações, , mesmo em prejuízo dos consumidores.

A maioria dos democratas, iludidos pelo governo Bush, votou a favor    da invasão do Iraque. Biden foi um deles só que, ao contrário da maioria, ele nunca renegou publicamente seu desastrado apoio.

Critica-se também em Biden seu papel decisivo, como presidente do Comitê Judiciário do Senado, na aprovação de leis, em 1994, que condenavam à cadeia autores de delitos leves associados a drogas. Essas leis provocaram a prisão de um número imenso de pessoas, superlotando o sistema penitenciário americano, problema que dura até hoje.

Mesmo que Biden não tropece em um ou vários destes obstáculos,  ainda assim será necessário preservar a força do principal tema de sua campanha: o único democrata capaz e derrotar The Donald.

As pesquisas vem demonstrando que não é bem assim.

Nas realizadas recentemente, que focam as performances dos principais postulantes democratas numa eventual disputa contra Trump, Biden é o que se sai melhor. Mas,  todos os outros derrotariam o morador atual da Casa Branca se as eleições presidenciais fossem agora.

Veja os resultados da pesquisa da Morning Consult, que aconteceu entre 3 e 9 de junho: Biden 50% x Trump 36%; Sanders 44% x Trump 36%.

Pesquisa da Universidade Quinipiniac, de 6 a 10 de junho : Biden 53% x Trump 40%; Sanders 51% x Trump 42% ; Warren 49% x Trump 42%.

Tanto Bernie Sanders quanto Elizabeth Warren são progressistas, aliados ideologicamente. No decorrer dos cáucus democratas, caso um dos dois se firme como o mais capaz de derrotar Biden, é bem possível que o outro se retire da disputa e o apoie.

Aí a disputa dentro do partido seria um jogo muito pegado. Os progressistas podem até vencer.

Não se trata de uma fantasia, apesar da liderança atual de Biden, não está descartado que o passado condene suas chances de substituir o trági-cômico Donald Trump.

 

 

 

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