Parece que os israelenses não aprenderam com seus erros.

Em quase todo o mês de março, as pesquisas mostravam  no primeiro posto a coalisão Azul e Branco, de Benny Gantz, a esperança da oposição ao governo de direita, podendo eleger até 5 parlamentares a mais do que o principal concorrente.

Mas, logo no início de abril, parecia estar ocorrendo uma virada. O Likud, liderado pelo primeiro-ministro Bibi Netanyahu, há 13 anos no poder, passara na frente do adversário com 29 x 28 deputados provavelmente eleitos (pesquisa do Canal 13).

Em 5 de abril, último dia permitido para a publicação de pesquisas, mais uma mudança nessa autêntica montanha russa: pesquisa Israel Hayon projetava que a coalisão Azul e Branco recuperara a liderança, suplantando o Likud por cinco vagas a mais.

Como estávamos a poucos dias do pleito, não haveria tempo para a inversão desse resultado e o general Gantz pintava estar a um passo da vitória.

Teriam os israelenses reconhecido que erraram ao eleger em três pleitos um político seriamente suspeito de corrupção, que só agravara a crise da Palestina e criara um fosso profundo entre os judeus e os árabes de Israel, entre outras malazartes?

Há dúvidas.

No sistema israelense, cabe ao presidente convocar para formar o novo governo não necessariamente um membro do partido mais votado. A preferência vai para quem conseguiu ser indicado por 61 ou mais parlamentares, dos 120 que compõem o Knesset (parlamento de Israel).

Segundo a pesquisa derradeira, se as eleições fossem realizadas em 5 de abril, Netayahu seria chamado pelo presidente   Rivlin, pois contaria com o endosso de 64 parlamentares, bem mais do que os 56 possíveis optantes por Gantz.

É um número que reflete a tendência atual da sociedade de Israel, muito mais para a direita – posição do Likud- do que para a união de centro e centro esquerda, representada pelos partidos pró-Gantz.

Diante desta perspectiva desfavorável, a oposição torce por nova reviravolta nos votos israelenses, suficiente para reduzir o número de parlamentares direitistas eleitos para algo inferior aos 61 de que fala a lei. Nesse caso, Rivlin teria o direito de preferir o Azul e Branco, que, de acordo com a pesquisa, deve superar o Likud por uma margem substancial de parlamentares. E Benny Gantz teria chance de tentar conquistar o apoio de mais alguns legisladores de direita e assim formar um novo governo, com maioria no Knesset.

É uma hipótese longe de tranquila.

Netanyahu continua muito forte, apesar de ter sido indiciado por corrupção pela respeitada polícia federal e vir a ser provavelmente processado na mais alta corte de justiça de Israel.

Talvez metade da população resolveu deixar isso pra lá.

Com ele na cabeça da chapa, o Likud pode levar ao Knesset um número de deputados semelhante aos 64 que a pesquisa do Hayon projetou favoráveis a colocar Bibi na liderança do novo governo.

Por seu lado, o chefão direitista fez o possível e até o impensável para atomizar a votação no Likud. Esqueceu seus poucos escrúpulos (se é que ainda existiam) para patrocinar a união do partido Lar Judeu, de ultra-direita, aos fascistas do Otzma Haedyhind. E ainda integrando na chapa do Likud candidatos desta mistura nada fina, para atrair eleitores ultra-radicais, que elegeriam alguns deputados, certamente adeptos de Bibi para primeiro-ministro.

O Haedyhind  é dirigido por seguidores do xenófobo e terrorista Meir Kahane, um rabino desencaminhado, que propugnava por um Israel habitada somente por judeus, promovendo manifestações e violências, até mesmo atentados terroristas.

Seu movimento surgiu nos EUA, onde nasceu, praticando ações tão brutais e racistas que indignaram os judeus do país. O que o levou a se mudar para Israel.

Ali, não perdeu o pique, continuou agindo como um fora-da-lei, repelido pela sociedade de Israel como uma bête noire. Proscrito pelo governo, Kahane foi processado, condenado e passou alguns anos na cadeia.

Acabou assassinado numa reunião em Nova Iorque.

Reviveu agora, por obra e graça de Netanyahu, que abriu as portas do Likud para os continuadores do rabino desvairado tentarem se eleger como deputados e assim levarem ao legislativo sua ideologia desumana.

Enquanto Netanyahu agrega fascistas a sua candidatura, Benny Gantz repele os árabes.

Ele e Lapid, o número 2 da lista do Azul e Branco, não cansam de repetir que, no seu governo jamais haverá participação de árabes-israelenses.

Pretendem assim se blindar da acusação, trombeteada profusamente por Netanyahu e apaniguados, de que Gantz e Lapid seriam amigos dos árabes.

Não parece que muita gente caia nessa treta, mas, sei lá, vai ver…

A verdade é que, os governos de Israel, especialmente do Likud, conseguiram, através de uma pertinaz campanha de propaganda, criar no povo judeu  medo de que os árabes, essa gente bárbara, seria capaz dos maiores crimes contra eles, suas famílias e o Estado de Israel.

Evidentemente, os atentados praticados por grupos de ultras e as bombas e mísseis lançados de Gaza contribuem para manter viva essa tenebrosa ideia, usada por Netanyahu, desde muitos anos atrás, para se apresentar como o “líder do destino”, o grande protetor do povo de Israel, com o destemor e a agressividade necessárias para dar conta dos árabes, o inimigo interno, e enfrentar seus partidários na orbita internacional.

Como os líderes do Azul e Branco juram que querem distância dos árabes, muitos desta raça perderam  esperanças de mudanças favoráveis no governo de Israel.

Surfando nesse pessimismo, um movimento de árabes prega o boicote às eleições, clamando que, para os árabes de Israel e da Palestina, os dois candidatos são igualmente nefastos. Tudo indica que está dando certo: de acordo com as pesquisas, apenas 64% da comunidade árabe irá às urnas. Diante disso, estima-se que os partidos árabes israelenses elegerão 2 a 3 deputado menos do que na eleição passada.

Netanyahu agradece.

A lista de deputados que indicariam apoio a Gantz será desfalcada dos dois ou três árabes, que deixaram de se eleger graças à alta abstenção da comunidade.

Claro, na etapa após a apuração, os partidos árabes fecharão com o candidato da oposição. Embora desprezados por Gantz, seus dirigentes tem consciência de que a eleição do líder do Branco e Azul marcará um avanço em futuras negociações da solução para a crise na Palestina.

Pelo menos Gantz defende a solução dos 2 Estados independentes, enquanto Bibi fala em simplesmente anexar todas as regiões onde haja assentamentos, não importa o seu tamanho.

Os defensores do boicote acham pouco.

Antes de chegar a uma conclusão, dê uma olhada no texto abaixo.

“Nós precisamos manter o vale do Jordão como nossa fronteira de segurança ao leste, nós não podemos nos retirar das linhas de ´67 como as conhecemos, nós teremos de manter os blocos de assentamentos, Jerusalém será sempre unificada, como a capital de Israel.”

Adivinha quem falou tudo isso.

Não, não foi Netanyahu.

Essa declaração poderia, sim, ser dele, mas partiu do candidato adversário, o general Benny Gantz, num comício em Telaviv.

Mais adiante o líder do Branco e Azul se manifestou firmemente pela anexação do Golã,  território roubado da Síria, pela forças militares israelenses.

Embora, de um modo geral, as principais posições sobre a questão da Palestina sejam compartilhadas pelos dois candidatos, lembro que o diabo costuma estar nos detalhes.

Gantz respeita as leis e os direitos humanos, é moderado, tende a fazer concessões.

Fala em manter somente os blocos de assentamentos, aqueles que se localizam junto à fronteira Israel-Palestina. Não todos.

Já, Netanyhau é mais amplo: “Eu disse que não pode haver a remoção de um único assentamento…”

O líder do Likud promete : “… continuaremos a controlar todos os territórios ao oeste do Jordão.”

Gant é menos ambicioso, deseja que o vale do rio Jordão siga sendo “nossa fronteira de segurança a leste.”

Falando sobre os assentamentos, Gantz revelou que não deseja dominar outro povo, sugerindo ainda que Israel poderia repetir a forma com que removeu os habitantes dos assentamentos de Gaza, em 2005, bem avaliada pelos palestinos.

Internamente, o que une os três grupos que compõem o Azul e Branco é sua posição anti-Netanyahu, seu autoritarismo, corrupção e o privilégio que seu governo dá no combate aos adversários.

Diz o candidato do Azul e Branco: “Espera-se que um ministro da Cultura desenvolva nossas instituições culturais. Ela as ataca (a ministra corta verbas de grupos artísticos que considera hostis). A ministra da Justiça deve apoiar nosso sistema de justiça: ela o ataca (a ministra critica a justiça, chamando-a de leniente para os palestinos) .

No trato com os árabes israelenses, a diferença entre os dois postulantes ao governo são mais evidentes.

Enquanto Netanyahu defende políticas racistas e toma atitudes desafiadoras das leis, Gantz pronuncia-se a favor dos árabes. O que exige muita coragem, diante de um eleitorado, talvez em maioria influenciado pelo racismo.

Quando um soldado judeu matou um terrorista palestino indefeso, deitado no chão e gravemente ferido, Netanyahu defendeu a absolvição do assassino, declarando-o um patriota.

Como contraponto às políticas racistas e brutais do adversário, Benny Gantz mostrou-se contrário à recente lei discriminatória dos árabes -israelenses, que os posiciona como cidadãos de segunda classe.

É dele esta promessa: ”Vamos mudar a lei do Estado-nação para adicionar a clausula de igualdade civil!”

Gantz também afirmou: ”Nossas portas estão abertas para todos: direitistas, centristas, esquerdistas…religiosos e seculares, judeus e não-judeus (Reuters, 30-1-2019)”

Em sentido oposto, Netanyahu afirmou: ”Israel é o Estado-nação do povo judeu e somente dele.”  Rivlin não deixou passar batido: “É absolutamente inaceitável o discurso contra os cidadãos árabes de Israel nestas eleições. Não há, nem haverá, cidadãos de segunda classe, e não há eleitores de segunda classe. Todos somos iguais ao votar – judeus, árabes, cidadãos do Estado de Israel.”

No dia 3 deste mês, no Canal 13, Netanyahu quis se fazer de perseguido: “Rivlin está apenas buscando uma desculpa. Se houver uma vantagem de 2, 4 ou 5 mandatos (para o Branco e Azul) ele usará isto como desculpa e dará (a chance de formar um governo) a Gantz,”.

Aí, a bola ficou para o escritório de Rivlin rebater:” Esta é mais uma desprezível tentativa de prejudicar a confiança do público na decisão do presidente após a eleição (Times of Israel, 3-4-2019).”

Para mim, foi um gol contra as pretensões de Bibi. Afinal, Rivlin goza do maior prestígio junto a todos os cidadãos de Israel.

Não sei se é suficiente para o povo deixar o governo passar para mãos mais capazes.

Ou menos incapazes, se concordarmos com a clínica e agente social, Marsha Weinstein, que, em 1985, mudou-se dos EUA para Israel.

Eleitora de Gantz, ela justifica seu voto: “Entre os piores, ele é o melhor.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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