Os navios fantasmas norte-coreanos.

Navios fantasmas estão assombrando as praias do Japão.

Navegam á deriva, desarvorados – parecem sem tripulantes, mas eles jazem no fundo desses barcos, muitos estão mortos, de fome ou sede, outros apenas feridos ou em condições de extrema fraqueza.

São pescadores que vieram da Coreia do Norte, a mil quilômetros de distancia. Em barcos frágeis, com motores precários. Inadequados para enfrentar o mar alto, as enormes ondas e as selvagens tempestades do Mar do Japão.

No ano passado, chegaram assim às costas japonesas 104 pesqueiros norte-coreanos; provavelmente partiram em maior número porque muitos devem ter afundado, sem deixar vestígios.

Mas, esses pescadores não tiveram escolha. A fome de suas famílias os forçou a arriscarem a vida, avançando mar a fora, sem qualquer segurança, em busca de águas mais profundas, onde poderiam encontrar grandes cardumes e fazer proveitosas pescarias.

Alguns conseguiram, a maioria não.

Os poucos sobreviventes desses navios fantasmas contam que o motor falhou; o combustível, a água e os alimentos acabaram;  tempestades derrubaram mastros, destruíram velas…

Agora que deu errado, não sabem o que irão levar para casa, como irão alimentar mulher e  filhos, que não tem quase o que comer.

Na Coreia do Norte, os alimentos escasseiam em níveis assustadores

A fome devasta a população, que depende principalmente das provisões trazidas pela UNICEF. A qual enfrenta obstáculos imensos para fazer seu trabalho.

A UNICEF estima que atualmente existem 200 mil crianças sub-

nutridas no país. Durante este ano, 60 mil devem atingir o mais

severo grau de sub-nutrição, tão grave que poderá matar muitas, senão a maioria.

As coisas chegaram a este ponto pela pressão das duras sanções impostas pela ONU à Coreia do Norte para forçar o ditador Kim Jong un a renunciar a seu programa militar de armas nucleares e mísseis balísticos.

Para proteger o inocente povo norte-coreano, o Conselho de Segurança da ONU determinou que a ajuda humanitária deveria ser excluída das sanções.

Pouco adiantou.

Explica Omar Abdi, vice-diretor executivo da UNICEF: “… o que acontece é que os bancos e as empresas que fornecem ou transportam alimentos são muito cuidadosos. Eles não querem se arriscar a mais tarde serem acusados de violarem as sanções.”

Isso torna muito difícil para a UNICEF e outras entidades internacionais prestarem ajuda aos norte coreanos. Elas tem grandes dificuldades para encontrar quem aceite vender alimentos para o país. O transporte é outro problema pois poucas linhas marítimas operam na área. Somam-se a esse quadro de óbices os efeitos das sanções sobre a gasolina e o óleo, que encarecem e tornam raros esses produtos.

Manuel Fontaine, diretor dos programas de emergência da UNICEF, é pessimista: “As tendências são preocupantes, a situação não deve melhorar.”

Para Taro Kono, ministro do Exterior do Japão, pelo contrário, a situação estaria melhorando, pois ele recebeu informações de que as sanções já estão realmente dando certo.

Foi o que Kono revelou na reunião de Vancouver, em 16 de janeiro, com a presença de 20 países convocados pelos EUA para tratar da questão da Coreia do Norte.

Rex Tillerson, secretário de Estado dos EUA, explicou os objetivos principais do evento: “Precisamos incrementar os custos do comportamento do regime até um momento em que a Coreia do Norte disponha-se a sentar-se à mesa para negociações confiáveis (Reuters, 16-1-2018).”

Esses custos já estão sendo sentidos. Não por Kim Jong un ou seus militares e dignatários, que tem prioridade na distribuição dos alimentos do país. Que faltam aos cidadãos comuns,  especialmente os pobres, como as famílias dos pescadores dos navios-fantasmas.

Incrementando a sanções, como querem os EUA, se incrementará também a fome que já assola as famílias norte-coreanas, possivelmente matando ainda mais crianças do que prevê a UNICEF. Talvez dessa maneira os duros corações do ditador coreano e do presidente americano se abrandem.

E eles aceitem negociar uma saída sem as pré-condições atuais, que inviabilizam qualquer negociação.

Por enquanto, não vejo perspectivas positivas.

Os 20 países que discutiram em Vancouver como deter a ameaça norte-coreana sequer se deram conta dos danos humanitários colaterais das sanções já aplicadas.

Do contrário, teriam buscado soluções para remover os entraves à ajuda alimentar internacional e livrar o inocente povo norte-coreano do fantasma da fome.

Será?

 

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