Os EUA, armando o inimigo.

É altamente discutível o ditado “inimigo do meu inimigo, meu amigo é”. Sobretudo quando esse “amigo” é seu inimigo número 1.

Foi o que aconteceu quando os EUA, através da CIA, armaram, na Síria, a al Qaeda, protagonista do ataque às Torres Gêmeas, o pior atentado terrorista dos últimos séculos.

Pouco depois do início da revolução contra Assad, formou-se um consórcio integrado pelo Qatar, Arábia Saudita, Turquia e EUA para fornecer armas e financiamento aos rebeldes.

Isto apesar de existirem nas forças anti-Assad diversos grupos jihadistas (islâmicos radicais), inclusive o Nussra, franquia da al-Qaeda na Síria. Não é novidade nenhuma, é um fato baseado em muitas evidências.

A novidade é que esta associação e seus beneficiários terroristas foram reconhecidos por uma figura da maior importância no Qatar: seu ex-primeiro-ministro, o sheik Hamad al-Thani.

Em entrevista ao Middle East Eye (30-10-2017), ele contou tudo.

Depois de informar que o Qatar prestara ajuda militar aos grupos anti-Assad desde 2011, disse que a Arábia Saudita também participou nessa operação. Enviado pelo emir do Qatar a Abdula, então rei dos sauditas, al Thani pediu e dele recebeu apoio total. O rei teria dito: “Nós estamos com vocês, assumam a liderança e nós coordenaremos.” Mas, o sheik catariano observou que:  ”…tivemos evidências de que (eles) assumiram o comando.”

Apesar de estar careca de conhecerem a ligação umbilical do Nussra à al Qaeda, o alvo principal da guerra ao terror, os EUA não hesitaram em participar do grupo que armou também esses jihadistas.

Falar sobre o apoio ao Nussra era questão muito delicada. Por isso, o sheik, a princípio fez blague: “Talvez o Nussra foi um relacionamento? Talvez fosse. Mas, mesmo nesse caso, quando (mais tarde) veio a decisão de que o Nussra não era aceitável o apoio ao Nussra, acabou.”

Aí , a entrevista chegou na participação direta e fundamental dos EUA: “Quaisquer recurso enviados às facções rebeldes (que incluíam o Nussra) tinham de ser aprovados pelos EUA. E explicou (mencionando os parceiros turcos): “Tudo que saiu, tudo foi para a Turquia, com a coordenação dos EUA.” E dali para os grupos da oposição ao regime Assad.

Somente depois que se disseminou em nível internacional, de maneira ampla, essas ligações perigosas que os EUA, a Arábia Saudita, o Qatar e a Turquia resolveram seu programa campanha de apoio militar discriminado. Sem antes, porém, de terem enviado enormes quantidades de armas e equipamentos militares inclusive ao Nussra, fiel representante da al Qaeda. Fato admitido por autoridades americanas ao New York Times, em outubro de 2012, ao informarem que a maioria das armas enviadas para grupos oposicionistas na Síria, com assistência logística dos EUA, no ano anterior, caíram nas mãos de jihadistas islâmicos linha dura – evidentemente, referindo-se  à franquia da al-Qaeda, o Nussra (The American Conservative, 22-6-2017).

Até a primavera de 2013, as armas para os rebeldes Anti-Assad eram fornecidas pela Arábia Saudita e o Qatar, chegando ao seu destino via Turquia, com a coordenação e apoio logístico dos EUA. A partir daí,  os EUA passaram a armar os rebeldes, por sua conta, através da CIA. Porém, sem dar bandeira.

Um ano depois, ninguém menos do que Joe Biden, vice-presidente dos EUA, deu o serviço. Falando na Escola Kennedy da Universidade de Harvard sobre a guerra na Síria, ele confidenciou: ”Nosso principal problema são os nossos aliados.” E esclareceu que: as forças que o governo americano tinha suprido com armas foram “a al-Nussra e al-Qaeda e os elementos extremistas dos jihadistas vindos de outras partes do mundo (The American Conservative”,22-6-2017).

Durante muito tempo, os EUA persistiam em negar que o Nussra fosse um grupo terrorista, apesar de sua notória proximidade à al Qaeda.

Finalmente Obama reconheceu a verdade. E ordenou à CIA que excluísse os militantes desse grupo, só fornecendo armamentos aos elementos dos grupos moderados. Da Força Síria Livre.

Não deu certo. Seja qual a razão, grande parte dos armamentos americanos acabavam em mãos inconvenientes.

Em 2016, em entrevista ao jornal alemão, Focus, o comandante jihadista al Ezz declarou que armas americanas teriam sido entregues ao Nussra pelo governo de Washington. Instrutores americanos estariam na Síria ensinando como usar os equipamentos. E al Ezz completou:  ”Os americanos estão do nosso lado.”

Perguntado se os armamentos tinham sido enviados diretamente para o Nussra ou através da Força Síria Livre, ele tascou uma surpreendente resposta: “Não, os mísseis nos foram fornecidos diretamente (Zero Hedge, 28-92016).”

Como já estava vigorando a proibição de armar terroristas, acho bem possível que a CIA estaria agindo por contra própria…

Somente no governo Trump, talvez por intervenção do secretário de Defesa Mattis, esse problema foi resolvido. Autoridades americanas informaram o fim do programa clandestino da CIA de fornecimento de armas aos rebeldes. Todos eles, mesmo aos moderados (BBC News– 21-7-2017).”

Tudo bem, mas o mal já estava feito.

Graças aos armamentos e equipamentos militares recebidos dos EUA. Turquia, Arábia Saudita e Qatar, o Nussra cresceu, venceu batalhas e hoje é o mais poderoso grupo anti-Assad.

Mesmo depois de colocado no index pelas nações que apoiam os rebeldes, ele continuou mantendo ligações com os grupos rotulados como good guys. Na verdade, nem todos são tão moderados assim.

Em junho de 2012, um grupo jihadista contrário ao governo de Damasco massacrou 100 pessoas, inclusive mulheres e crianças, na cidade síria de Houla.

Informou o jornal Frankfurter Allgemine Zeitung:”“De acordo com testemunhas oculares, os assassinados eram quase todos  exclusivamente membros de famílias das minorias xiitas ou alawitas. Vários outros eram membros de uma família que se converteu do sunismo para o xiiismo…assim como a família de um sunita membro do parlamento sírio que é considerado colaborador de Assad.”

Depois da queda de Alepo, todos os elementos dos grupos anti-Assad da região,  concentraram-se em Idlib, a última grande cidade síria em poder da revolução.

Agora sendo os americanos adversários do Nussra, Michael Ratney –  autoridade top do departamento de Estado na Síria, advertiu os líderes da fação moderada que uma eventual tomada de Idlib pelos militantes ligados à al Qaeda teria ”graves consequências” para o futuro da região (The Independent, 3-8-2017).

Não sei se eles fizeram alguma coisa. Mas, o Nussra fez: abriu fogo contra os “rebeldes do bem”, usando as armas made in USA, anteriormente oferecidas pelos americanos, via CIA.

E o Nussra venceu a batalha, expulsando os grupos moderados do Alcorão. Hoje, seus milicianos são senhores de Idlib. Quem não reza pela sua versão distorcida do Alcorão tem de sair da cidade.

O chato para os EUA é que Idlib não deverá ser libertada por eles. O último reduto dos terroristas está perto de ser atacada pelo exército do governo de Damasco, apoiado pelo Hisbolá, milicianos iranianos e pela força aérea russa.

Os princípios da real politique levaram os EUA a fortalecerem militarmente essa filial da Al Qaeda, inimigo que matou mais de 3 mil civis em Nova Iorque, contra o regime Assad, inimigo que não matou um único civil americano.

Talvez, os americanos não sabiam o Frankstein que estavam ajudando a criar.

Os deuses da guerra não costumam perdoar quem erra.

 

.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *