Os 500 mil empregos e outras lorotas presidenciais.

Quando perguntam a Trump porque os EUA continuam vendendo armamentos para a Arábia Saudita destruir o Iêmen, ele tem uma resposta pronta:  não podemos cancelar um negócio de 110 bilhões de dólares, que dá emprego a 500 mil americanos.

Se você reparar bem, notará que o nariz presidencial cresce desmesuradamente.

The Donald está mentindo duas vezes.

É simples assim.

Vendas no valor de 110 bilhões de dólares só existem nas palavras dele.

Em um ano e 9 meses de governo Trump, não mais do que 14,5 bilhões de dólares em armas e munições foram exportados para o reino do deserto (Vox, 17 de outubro).

Não foi à toa que o Washington Post, na sua seção que avalia bravatas de políticos, concedeu aos “110 bilhões de Trompa” a classificação de “4 Pinochios”, a mais alta no índice de menias.

As compras de armas pelos sauditas envolvem uma montanha de dinheiro, que fazem da Arábia Saudita o principal comprador internacional de armamentos dos EUA. Mas estão longe de criar 500 mil empregos americanos.

Toda a indústria de defesa de Tio Sam não emprega mais do que 355,5 mil pessoas (Aerospace Industries Associates, 2016).

E eles não trabalham só nas encomendas do governo do rei Salman e do seu príncipe coroado MBS (como ele gosta de ser chamado).Também o faz para o próprio governo americano (seu maior cliente) e outros países, um conjunto de 98 importadores internacionais de armamentos americanos, dos quais 20% vão para a Arábia Saudita.

Considerando esses dados, dos 500 mil empregos supostamente gerados pela Arábia Saudita, sobra um número muito inferior ao trombeteado por The Donald.

Noto ainda que a soma dos empregos na indústria de armamentos mal chega a 0,5% do total da força de trabalho dos EUA. Seu peso na economia de Tio Sam não é tão significativo quanto a propaganda oficial faz querer crer.

Para fornecer novas pistas para se avaliar o volume de empregos gerados pelas venda de armas a Riad, existem alguns dados interessantes.

Sabe-se que as exportações dos EUA para a Arábia Saudita destinam-se atualmente ao equipamento da força aérea local. São os armamentos necessários aos maciços bombardeios, que vem matando milhares de civis iemenitas e destruindo suas redes de medicamentos, hospitais, alimentação e infraestrutura.

153,8 mil americanos trabalham na indústria aeronáutica, mas não apenas no setor militar, também, e principalmente, na produção de aviões de passageiros.

7.666 empregos são envolvidos na produção de bombas e mísseis. Nem todas elas vão para a Riad. Muitas são compradas por países como os Emirados Árabes Unidos, Índia, Austrália e Paquistão.

Olhando estas estas estatísticas , dá para sentir quão clamorosa é a farsa dos 500 mil empregos trazidos pela clientela saudita.

O próprio Trump se desmente.

Entusiasmado pela visita ao país do seu bom amigo MBS, The Donald mandou produzir um mapa mostrando os empregos que o país de Sua Alteza iria gerar em cada estado dos EUA.

Somando todos eles, não se chega aos apoteóticos 500 mil, mas somente a apenas  40 mil.

Pinochio ficou morrendo de inveja.

Não é à toa que o Washington Post, na sua seção que avalia os fatos, concedeu aos 110 bilhões dólares anunciados a classificação de “Quatro Pinochios”, a mais alta no índice de informações falsas.

Mesmo que The Donald tente corrigir o que garantiu, falando que os 110 bilhões virão nos próximos anos, o consequente aumento de vendas não tem futuro. O grande plano de MBC, o Visão 2030, que pretende expandir a industrialização e  modernizar o país, estabelece que, em 2010, 50% dos armamentos do país já estarão sendo produzidos por indústrias localizadas em seu território.

Por isso mesmo, as grandes empresas armamentistas americanas já estão se movimentando para abrir fábricas no reino petrolífero.

Uma das maiores, a Raytheon, prepara-se para inaugurar uma sucursal por lá.

Admito que, possivelmente, parte da mensagem panglossiana do presidente americano pode ter sentido. É onde ele fala que, se os EUA cortarem o comércio de armas com os sauditas, os russos e chineses, pressurosos, entrariam no seu lugar.

Tudo depende do desfecho da crise causada pelo assassinato do opositor Khashoggi.

Caso o crime cause um estrago de proporções épicas nas relações da Arábia Saudita com os EUA e a Europa, não é fora da realidade que o rei Salman e MBS rompam com a frente ocidental.

Os EUA sairiam da sua pauta de importações de armamentos, substituídos pela China e, principalmente, pela Rússia.

Em 2017, a China foi o maior parceiro da Arábia Saudita no comércio internacional como um todo. Em março desse ano, assinou com Riad contratos no valor de 65 bilhões de dólares.

As relações internacionais com os russos melhoraram bastante a partir da visita feita pelo rei Salman ao país, em 2017, a primeira na história.

Os russos estão em condições de vender armamentos de qualidade, particularmente, o sistema de defesa antimíssil S-400, o mais avançado e eficiente do mundo (RT, 23 de outubro).

Por enquanto, a perspectiva de um acontecimento tão infausto para Washington é remota.

O que está presente agora é uma pergunta que não quer calar: porque The Donald cede à pressão geral, admitindo a possibilidade de MBS ser culpado do assassinato, mas continua resistindo ao cancelamento das vendas de armas à Arábia Saudita?

Embora a perda de empregos, como mostramos acima, não seria relevante, a perda de lucros das empesas americanas seriam.

E bastante. Mesmo que os 110 bilhões de dólares em vendas se distribuíssem por 2019, 2020, 2021 e mais alguns anos, carreariam somas enormes às receitas das principais corporações bélicas de Tio Sam.

Não se pode deixar esse pessoal decepcionado.

Truman conta com eles para darem máximo gás à sua futura campanha pela reeleição.

Por sua vez, empresas gigantescas como a Lockheed Martin, a Boeing e a Honeywell, entre outras, não estão se limitando a deixar a banda passar.

De um lado, pressionam o presidente e o Pentágono (voz sempre ativa nas decisões sobre armamentos).

Para ajuda-las, contam com generais e almirantes em seus quadros de direção e oficiais de menor graduação, recheiando funções qualificadas.

É o que explica no Antiwar de 24 de outubro, um oficial credenciado pela sua participação nos conflitos do Iraque e do Afeganistão, o major Danny Sjuersen.

A defesa desse complexo industrial é vitaminada no Congresso por poderosas agências de relações públicas, fortificadas com amplas verbas dos seus clientes.

Atualmente, elas andam instruindo deputados e senadores amigos com informações enfatizando a importância das vendas americanas de armas a países aliados e mostrando como o cancelamento dessas vendas reduziria o poder dos EUA de influenciar governos estrangeiros.

As empresas americanas pretendem garantir negócios com o reino do deserto que tem prazos de entrega próximos – em 2019 e 2020. Além disso, querem levar adiante compromissos que teriam sido feitos na viagem de Trump a Riad, em maio de 2017.

Há uma grande preocupação em conter as investidas dos congressistas em favor de leis cancelando vendas de armamentos à Arábia Saudita.

As empresas sentem-se assustadas porque o assassinato de Khashorgi deu mais força aos adversários dos seus bons negócios, os quais em duas ocasiões quase conseguiram aprovar leis restritivas.

Em 2017, por apenas 53 votos contra 47, o Senado vetou a proposta de bloqueio de vendas aos sauditas de armas guiadas com precisão, no valor de 510 milhões dólares.

Em 2016, foi a Câmara dos Representantes que ameaçou a paz de espírito da Boeing e colegas. Por 216 votos contra 204, por pouco não foi negada permissão para os EUA exportarem bombas de fragmentação aos sauditas.

Agora, voltam a pintar nuvens pesadas no horizonte dos produtores de armamentos.

Está para ser discutida no Congresso lei, introduzida por 24 senadores, suspendendo as vendas de armas à Arábia Saudita até ser esclarecido o assassinato do jornalista Khashorgi.

Tal como seus compatriotas da Boeing e da Raytheon, The Donald está vivendo momentos de apreensão.

Os lucros de uns e os sonhos políticos do outro se acham em jogo.

 

 

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