Ordem unida na Casa Branca.

Em maio deste ano, o presidente Trump cobrou do governo sul-coreano a soma de 1,1 bilhões de dólares pela instalação do sistema anti- missil Thaad perto de Seul.

Moon, presidente da Coreia do Sul protestou, pelo tratado entre os dois países, despesas desse tipo não deveriam ser pagas por seu governo.

Inesperadamente, o general McMaster, conselheiro em segurança nacional da presidência dos EUA, concordou com ele. E o Thaad acabou saindo de graça para a Coreia do Sul, contrariando Trump.

O general Mattis, secretário da Defesa, cansou-se de contradizer The Donald, publicamente.

O presidente chama constantemente a imprensa de nomes feios, enquanto Mattis afirma que não há problemas entre ela e o Pentágono.

Trump toma a defesa da Arábia Saudita, apoiando o rei  que bloqueou o Qatar por pretensas ligações terroristas. E o que faz Mattis? Elogia o governo do pequeno emirado e pede que as partes se entendam.

Trump tuita que vai banir os transgênicos das forças armadas e o general Durnford chefe do Estado-Maior Conjunto nega: “continuaremos a tratar todo o nosso pessoal com respeito. ”

E, depois do ambíguo pronunciamento feito por The Donald sobre os acontecimentos de Charlotesville, os chefes das quatro forças armadas- Exército, Marinha, Aviação e Fuzileiros Navais -pronunciam-se diretamente contra o racismo em todas as suas formas.

Não, Trump não é um títere nas mãos de generais desobedientes. Mas, pelo menos na política externa e até, às vezes, na interna, é a voz militar quem determina o caminho que os EUA devem seguir.

No interior da Casa Branca, os três generais-secretários de Estado encontraram no estrategista do governo, Steve Bannon, um ferrenho adversário.

Ele era tido como líder dos assessores  que defendiam o America,first (A América, primeiro), mote básico da campanha presidencial, contra o chamado globalismo da maioria do  pessoal da Casa Branca.

No America, first, o governo deveria preocupar-se em promover o crescimento dos EUA e do seu povo, em vez de intervir no exterior, pela projeção dos interesses americanos por todo o mundo, defendido pelos globalistas.

Muito próximo ao presidente desde a campanha eleitoral, Bannon condenava o intervencionismo militar americano, particularmente nas guerras do Afeganistão  e da Síria, a imigração islâmica, a União Europeia (aplaudiu o Brexit) e a política de proteção ao meio ambiente de Barack Obama, entre outras causas.

Considerava a China o maior inimigo dos EUA, advogando que o o governo promovesse uma verdadeira guerra econômica contra Beijing.

Todas estas posições, defendidas fortemente por Trump nas tribunas eleitorais, continuavam perfilhadas por ele, pelo menos no princípio do seu governo.

Nas reuniões sobre a segurança do país e os problemas externos, os generais James Mattis- secretário da Defesa, McMaster- conselheiro de Segurança Nacional, John Kelly – secretário de Segurança Interna e Durnford- chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, formavam uma frente unida contra a o anti-intervencionismo do estrategista-chefe.

Logo, desenvolveu-se uma verdadeira guerra entre os dois lados.

Bannon conseguiu barrar várias decisões e nomeações  propostas pelos quatro chefes militares, mas eles foram ganhando a confiança do presidente e da maioria dos membros do cercle intime de Trump.

Com isso, o estrategista do governo acabou sendo uma voz praticamente solitária na oposição às ideias belicosas dos chefes militares.

Foi ele, por exemplo, o único que se opôs ao bombardeio de aeroporto sírio, em retaliação ao suposto lançamento de bombas químicas numa aldeia em poder dos rebeldes.

As coisas chegaram a um ponto de ebulição quando, em entrevista ao American Prospect, Bannon afirmou não haver solução militar para a crise norte-coreana, discordando de repetidas declarações de Trump em sentido oposto.

E Bannon caiu, levando muitos jornalistas a publicarem que fora uma vitória decisiva dos globalistas contra os adeptos do American,first. Os generais da Casa Branca agora estariam a vontade para fazerem das crise internacional uma questão a se resolver com o emprego de armas e ameaças de ataques fulminantes.

Não é bem assim.

Há um bom tempo, Trump já tinha abandonado as promessas pacifistas da campanha, somando com seus generais no apoio ao uso da grande superioridade militar americana como “argumento” na solução de conflitos com países rebeldes ao diktat de Washington.

Ele suspendeu a suspensão de vendas de armas à Arábia Saudita, decidida por Obama devido às extremas violências praticadas pela aviação do reino contra alvos civis. E saudou o rei seus príncipes com exemplos de boa governança.

Na Síria, anulando proibições de Obama, enviou tropas terrestres, sob a manjada desculpa de que se limitariam a treinar milicianos da oposição. Seus aviões atacaram várias vezes forças armadas de Damasco, chegando a derrubar um avião delas.

Por sua ordem, Mattis anunciou o provável envio de armas pesadas para o governo ucraniano usar contra a secessão do Leste, amparada pela Rússia.

Reduziu ao máximo as normas de proteção de civis em áreas de conflitos militares. Um dos resultados foi a morte de cerca de 40 mil civis, no cerco de Mosul (conforme a inteligência curda).

O tratado nuclear com o Irã tornou-se alvo da fúria presidencial, que agora tenta pressionar o secretário da IAEA (Agência Internacional de Energia Atômica) para exigir fiscalizações de qualquer instalação militar iraniana, mesmo as não nucleares. Ato que o Irã, como qualquer outra nação soberana jamais permitiria por medo de espionagem e que, uma vez decidido, causaria a implosão do Acordo Nuclear Iraniano. Principal conquista do governo Obama, esse acordo é defendido pelas demais nações signatárias: Alemanha, Rússia, França, China e até o Reino Unido, fiel seguidor dos EUA. Todas declaram inaceitável um rompimento.

Agora The Donald vem de lançar o que chama de “nova política militar na Guerra do Afeganistão”, prevendo a permanência por prazo ilimitado das forças americanas, que só sairiam depois da vitória final sobre os talibãs; o envio de reforços sem revelar o número dos soldados e um eventual corte da ajuda americana ao Paquistão caso os talibãs continuem usando regiões paquistanesas na fronteira afegã como “santuários seguros”.

Sem a presença incômoda de Steve Bannon e suas antigas relações com o presidente, os generais e seus adeptos estarão mais à vontade para continuar a exercer pressão para que Trump continue a agenda imperial americana.

Infelizmente, não é muito feliz a ideia de generais darem o tom nos conflitos e controvérsias internacionais.

Na sua formação, eles são treinados para vencer guerras. Como a sobrevivência do império americano está em questão em vários países do mundo, a tendência da maioria dos militares é considerar a pátria ameaçada.

Seria uma verdadeira guerra, na qual as habilidades militares são requeridas.

Quando os adversários tem recursos poderosos – a força econômica, no caso da China, e as armas nucleares, no caso da Rússia – a política dos EUA tem de ser agressiva contra essas potências, seus Estados-clientes (como o Irã e a Síria) e elementos perturbadores, ou seja a al Qaeda, o ISIS e outros movimentos terroristas inexpressivos.

Acham os generais da Casa Branca que, nesta pretensa guerra, os EUA não podem dispensar aliados, até mesmo aqueles que contrariem os valores fundamentais da nação.

Churchill e Roosevelt uniram-se ao comunismo russo, arqui-inimigo do Ocidente liberal-democrático, para enfrentar o nazismo de Hitler, um inimigo muito mais perigoso.

Da mesma forma, os EUA fazem vistas grossas às violências da ditadura da aliada Arábia Saudita e às ações praticadas por Israel violadoras dos direitos humanos e das leis internacionais.

Sucede que não está acontecendo uma guerra mundial de verdade. Não há exércitos empenhados em destruir as nações inimigas, através de ataques militares contra  cidades e forças armadas.

A simples existência de divergências, até sérias, com países contrários a interesses geopolíticos americanos, não poderia, portanto, implicar numa política que privilegia soluções militares em prejuízo da diplomacia.

Por não estar numa autêntica guerra, não me parece adequado que os EUA esqueçam os princípios da sua Constituição, e se aliem a países que os violam, privilegiando, por exemplo, a ditadura monárquica saudita, notória pelas leis discriminatórias e repressivas, além de ações brutais contra os críticos do regime. Ou Israel, que costuma praticar atos que violam os direitos humanos e as leis internacionais.

O globalismo, ora dominante no governo Trump, longe de apagar o America,first, está ampliando seu conceito. Ele postula que, nas questões internacionais, Washington deve colocar os interesses da América, seja quais forem, em primeiro lugar. Como slogan, seria: América first in all the world.

Se necessário, Trump dispõe do mais de um argumento decisivo: as forças mais poderosas do planeta.

Claro, haverá sempre a justificação de uma ameaça que pesaria sobre o país: a Coreia do Norte nuclear, a agressividade de Putin, a al Qaeda, o Estado Islâmico, os talibãs do Afeganistão, terroristas e seu “maior incentivador (o Irã) “e até a fraca e desmantelada Venezuela, conforme Trump já tuitou.

Seria a hora e a vez usar o terror que as armas impõem, sem tirar da mesa a possibilidade de atacar militarmente essas nações e grupos que se opõem ao globalismo americano.

Para o ex-presidente americano, James Madison, diante de uma situação assim, a sociedade americana estaria vivendo sob uma grave ameaça: “Se a tirania e a opressão chegarem a este país será com o disfarce de uma luta contra um país inimigo. ”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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